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Dilma Rousseff: Uma búlgara no leme do Brasil

Com a popularidade em alta, Dilma lidera com frieza. Já perdeu seis ministro por escândalos de corrupção. Não se empenhou na sua defesa – há quem diga que se está a livrar dos políticos que lhe foram impostos pelo PT de Lula. Mas a ‘presidenta’ terá de pegar nas rédeas de um país em que a economia começa a dar sinais de abrandamento. e o fantasma de Lula espreita para 2014.
18 de Dezembro de 2011 às 00:00
Dilma tomou posse em Janeiro de 2011
Dilma tomou posse em Janeiro de 2011 FOTO: Ueslei Marcelino, Reuters

Dilma Rousseff não é brasileira. É búlgara. Eis, em resumo, a tese do momento. Lula era um impenitente fanfarrão, que falava muito e distribuía paz e amor. Isto, claro, quando não era acossado pela imprensa e disparava para todos os lados, incluindo para os próprios pés. Cabeça quente.

Dilma é cabeça fria. "Escola soviética", disseram-me amigos paulistanos, visivelmente impressionados com a mulher. Ainda tentei demovê-los do misticismo: Dilma nasceu em Belo Horizonte, companheiros. É mineira. E quem conhece os mineiros sabe que o silêncio deles é uma segunda natureza. Tancredo Neves, o presidente brasileiro quem nem chegou a tomar posse porque morreu entretanto, era uma esfinge. Como Dilma.

Ninguém aceita. E preferem projectar na presidente qualidades técnicas imbatíveis, sempre com um toque de maquiavelismo tropical. Veja-se os ministros apanhados com as calças na mão nos primeiros doze meses do seu mandato. Seis, para sermos exactos: Antonio Palocci, da Casa Civil; Alfredo Nascimento, dos Transportes; Wagner Rossi, da Agricultura; Pedro Novais, do Turismo; Orlando Silva, do Desporto; Carlos Lupi, do Trabalho. É provável que, quando este artigo estiver nas mãos do digníssimo leitor, haja mais um digníssimo ministro fora de Brasília. E que fez Dilma? Não, obviamente, defender os ministros e atacar a oposição, como o velho Lula da Silva. Depois de um breve compasso de espera, Dilma demitiu-os. "Com gélida indiferença", dizem os meus amigos, cobertos de um orgulho marcial.

Melhor: há quem diga, em círculos restritos, que estes seis foram abatidos pela imprensa com o alto patrocínio do Palácio do Planalto. Curioso esquema: Dilma arruma com estes ministros, que lhe foram impostos pelo PT e pelos outros partidos que sustentam o governo, para poder limpar a casa e convidar os seus próprios ministros de confiança. A mulher não é deste mundo.

E NÃO ERA MARXISTA

Deixo estas teorias para quem gosta delas. A verdade talvez seja mais prosaica: quando Lula chegou ao poder, esperava-se o pior. O PT nunca foi um partido marxista; mas não é preciso frequentar a igreja para partilhar da fé: Lula iria fazer ao Brasil o que Hugo Chávez fez à Venezuela. Tradução: destruir economicamente o Brasil.

Erro crasso. Lula desiludiu os pessimistas, o Brasil cresceu e Lula não tocou nas políticas macroeconómicas de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Com Dilma, passa-se exactamente o mesmo: as expectativas eram tão baixas em relação à desconhecida presidente, uma escolha pessoal de Lula, que não fazer nada já é uma virtude. Quem esperava que Dilma falasse ou fizesse "bobagens" só pode estar encantado quando a mulher pouco fala e pouco faz.

ESTALEIRO BRASIL

O problema é que o Brasil precisa que a presidente fale e faça mais. Estive no país recentemente e sou testemunha: o Brasil está transformado num estaleiro. Não falo das obras para o Campeonato do Mundo de Futebol, em 2014. Ou para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, de 2016. Falo do país inteiro, a começar pelos sítios mais recônditos do Nordeste. O país constrói e respira confiança. Pena que a realidade seja ligeiramente mais modesta.

No último trimestre, a economia arrefeceu e estagnou; chegar ao fim de 2011 com um crescimento de 3% é a única meta realista. A inflação está em curva ascendente, próxima dos perigosos 6%.

A juntar a isto, o país continua a exibir uma longa lista de problemas que estão longe de resolvidos. As infra-estruturas do país são más, para usar um eufemismo simpático. A educação continua uma miséria em qualquer ranking internacional. E a carga tributária persiste em esmagar o brasileiro empreendedor: o Banco Mundial coloca o Brasil no 152º lugar da tabela.

Apesar de tudo isto, há motivos de contentamento para o observador externo. A começar, precisamente, pelas Relações Externas do Itamaraty: longe vão os tempos em que Lula confraternizava alegremente com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Estes convívios, aparentemente inocentes, têm um preço de respeitabilidade internacional que demora anos a ser pago. Não é por acaso que as pretensões a um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU levantaram tantas resistências em Washington. Não há almoços grátis.

A INCÓGNITA DE LULA

Dilma mudou o jogo e entendeu que um gigante económico não pode ser um anão diplomático: Antonio Patriota, actual ministro das Relações Exteriores, é um caso de sobriedade que está a anos-luz das proclamações ideológicos do seu antecessor, Celso Amorim. E o Brasil não voltou a repetir nenhum tipo de "compreensão" com os regimes autoritários da América Latina ou do Médio Oriente.

E Lula? Regressa em 2014? Lula diz que não. Dilma, herdeira fiel, diz que sim: o lugar está sempre à disposição. Mas a doença grave de Lula, um cancro na laringe detectado há dois meses, baralha as contas. Não que isso impeça Lula de concorrer; na verdade, não impediu Dilma, que sobreviveu a um linfoma. Mas a aprovação da "presidenta" nas sondagens continua em alto. Não serão os brasileiros a reclamar o regresso de Lula.

Resta saber se será o PT.

2012 EM ANTEVISÃO

BRASIL MAIS SEGURO

A mudança político-social continuará a apostar nas limpeza das favelas do Rio e outras praças fortes do tráfico de droga e crime contra pessoas. O Mundial de Futebol chega em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016. Três anos de pacificação lograram já reduzir a violência local em 50%.

ECONOMIA A CRESCER

A previsão de subida de 3,5% no PIB do próximo ano demonstra a boa saúde da economia. A presidente Dilma Rousseff está atenta a ataques externos contra a indústria brasileira e à defesa dos empregos. O petróleo almofada qualquer crise.

DESENVOLVIMENTO HUMANO

As tabelas do PNUD revelam um ritmo mais lento na melhoria (subiu três lugares em 2010 e um em 2011), mas o Brasil, 84.º do Mundo, vai prosseguir o acerto do nível de vida com a sua força económica.

'MENSALÃO' SEM FIM

Na Justiça desde 2006, o processo contra a corrupção no PT é uma história interminável. Há 38 arguidos, mas talvez nem em 2012 se chegue a sentenças. Um juiz do Supremo já avisou que há partes a prescrever.

SAÚDE DE LULA

A evolução do cancro da laringe detectado ao ex-presidente Lula da Silva terá muita influência na evolução política. Até porque se admite que ele possa recandidatar-se nas presidenciais de 2014 e ele não desmentiu.

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