Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM

Discurso sobre a formiga

O seu tamanho é um esconderijo. Portátil esconderijo, essa pequenez que tantas vezes é útil.
24 de Janeiro de 2010 às 00:00
Discurso sobre a formiga
Discurso sobre a formiga FOTO: Ilustração de Rachel Caiano

A formiga é igual a dois pequenos pontos finais, gordos e unidos entre si pela tendência a imitar as carruagens do comboio. E movem-se, os pontos, mas não apitam como os comboios.

A formiga é uma pequena pedra no sapato e, numa sala, é uma pedra preta pequena que se mexe, que incomoda a vista e provoca comichão.

A formiga não é bem um animal. Animal é o leão, o cão e o rinoceronte. A formiga é uma coisa intermédia entre o vírus e a cobra. Mas é uma cobra pacífica, pois com o tamanho que tem, se fosse agressiva, a formiga já tinha sido comida – e pisada.

A formiga, tal como um vírus, é uma coisa no limite do estado sólido. Aquele vírus que ninguém vê, que ninguém consegue agarrar com os dedinhos - será um sólido, será um animal?

Se chamamos animal ao rinoceronte não podemos chamar animal ao vírus, nem à formiga.

A formiga é um vírus inchado que actua em matilha numerosa, como todos os cobardes, mas é tão pequena que nem sequer em matilha de mil faz um animal sério.

É, no fundo, uma distracção, a formiga.

E não há lençóis para as formigas. Dormem onde dormem, como os vagabundos. Mas nunca vi formigas a dormir.

No entanto, são espertas o suficiente para não crescerem e não saírem daquele raquitismo. O seu tamanho é um esconderijo. Portátil esconderijo, essa pequenez que tantas vezes é útil. Para um rinoceronte se esconder é necessária muita tecnologia, o que se dispensa no caso de uma formiga.

Tem a vantagem dos humildes e dos desgraçados: ninguém dá por ela, pela formiga.

É tão pequenina – por isso não pode ter pai nem mãe.

É que os animais quanto mais pequenos menos passado têm. Como pode um animal minúsculo ter antepassados?

O mundo dos vírus, por exemplo, não tem história como nós temos a história do nosso país. É impossível. Só os animais grandes têm antepassados. Eis uma lição que a natureza insinua.

Mas a formiga é simpática, apesar de individualmente quase não existir. É que só existem formigas, assim, no plural. E esta é uma rápida síntese da fraqueza.

A sua grande vantagem, no fundo, é não ter tamanho sequer para ser feia. Eis a formiga.

Ver comentários