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Discurso sobre o cisne

O cisne é (...) o contrário dos bons negócios: não é rápido. Acredito mesmo que não copulem.
7 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Discurso sobre o cisne
Discurso sobre o cisne FOTO: Ilustração de Rachel Caiano

O cisne não é um animal selvagem. Selvagens somos nós.

Um rude com a camisa de fora, calças a cair pelo rabo abaixo, a barba por fazer, sujo, a arrotar depois de devorar uma comida engordurada. A chegar, mais tarde, a casa, a deitar-se por cima da mulher, com urros controlados para não acordar a filha, a balançar sobre a mulher uns breves instantes, com as calças pelos joelhos, as nádegas a vibrarem a grande velocidade e depois a parar, a virar-se de barriga para ar, como as baleias mortas, e a bufar de satisfação como os barcos. Isto é um animal selvagem. O homem. O cisne não.

O cisne é delicado, lento e branco. É o contrário dos bons negócios: não é rápido.

Acredito mesmo que os cisnes não copulem. A procriação nesta espécie deve ser idêntica à das flores. Deve meter pólen, folhas e vento. Órgãos sexuais não, seria inaceitável.

Não têm pressa como as pessoas na cidade, não empurram, não fumam. Não usam a maledicência nem a ironia. Um cisne é espécie para ser santo na generalidade. É como imaginar uma ilha em que todos os seres humanos fossem budistas vegetarianos, dóceis, e meio adormecidos. Eis a população de cisnes. Mas eles deslizam pela água, é outra vantagem: lembramo-nos logo de Cristo. Porém, eles nem sequer caminham sobre a água, tal seria demasiado grosseiro. Eles são para a água o que a seda é para a pele. São um prolongamento da água em carne; um prolongamento do lago, mas em matéria sólida.

Mas sobre isto da carne deixem-me também dizer: não acredito que o cisne dentro tenha o que tem por exemplo uma galinha: pernas e coxas e alimento para banquetes. Nunca o vi por dentro, talvez nem sequer tenha interior, mas se tiver interior o cisne terá lá no fundo algodão ou nada; é impossível ter órgãos. Uma autópsia exaustiva e cuidadosa do cisne só poderá revelar algodão ou nada. E o nada é o mais provável.

Uma observação e duas instruções

1 - Em tempo de guerra os jardineiros são ridículos.

2 - Por vezes necessitas do escadote para alcançar a natureza, outras vezes necessitas que o degrau se quebre.

3 - Concentra-te. Que os teus erros sejam originais.

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