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Do convento para a alta roda da moda

Pelo segundo ano, uma freira italiana mostra a sua outra vocação. Os dotes de estilista da irmã Maria Elena, finalista de um curso de moda, desfilam pela passerelle de Roma.
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
A sua indumentária já é um hábito. Discreto, sóbrio, pontuado pelo véu branco ou azul e veste longa, até aos pés, ofuscando quase por completo a pele. O pormenor inovador da ganga é suspeito sinal de inovação mas nem por isso suaviza as restrições religiosamente impostas ao guarda-roupa da bem-disposta Maria Elena.
É no mínimo invulgar que esta irmã empreste o seu traço à criação de colecções dirigidas a quem usa e abusa da variedade que o prêt-a-porter ou a alta costura oferecem. Mas, pelo segundo ano, a semana de moda de Roma, a decorrer desde ontem e até ao próximo dia 30, reservou-lhe um lugar entre os criadores. “Sim, sou estilista. Desenho ‘tailleurs’ e vestidos de noiva”, confirma a quem duvida a freira italiana da Ordem das Imaculadas de Génova.
O terço coabita com a agulha e o dedal na mais fina das harmonias, numa lição de como as vocações se podem entrelaçar, dando pontos e criando nós. Elena Calascibetta, nome de baptismo, atalha caminho quando lhe perguntam a idade – “já passei dos 50”, assim levanta um pouco do véu à imprensa italiana. Tem menos rodeios quando assume a devoção à máxima de que ‘velhos são os trapos’, não hesitando em confessar o que lhe vai no sangue.
Lá está a moda a pulsar. Aos caminhos da fé e da confecção das mais variadas peças para vestir, soma-se um outro, o do ensino, que fará chegar à morada genovesa partilhada com 15 irmãs, dedicadas à instrução e assistência médica a crianças desfavorecidas.
PARA OS HABITUÉS DA ARTE ROMA
Para os habitués da Arte Roma, o principal evento de moda da capital do país da bota, as roupas desenhadas, cortadas ou costuradas pela religiosa são tudo menos uma novidade. E desengane-se quem ainda possa esperar uma mão-cheia de propostas sensaboronas feitas de encomenda para fervorosas do tempo da outra senhora, de costas voltadas para a criatividade.
A jovem promessa pode não rivalizar com os compatriotas Armani ou Valentino mas, por todas as razões e mais algumas, é-lhe difícil fugir ao protagonismo ou deixar de alimentar sonhos, como vir um dia a vestir a incontornável diva Sophia Loren ou a bailarina clássica Carla Fracci. “Seria um prazer!”
Em 2006, começou a marcar a diferença com o seu primeiro cartão de visita: “um ‘tailleur’ com calça comprida preto, acompanhado por um chapéu de renda e uma rosa vermelha, estilo pierrot”, explicou a freira em entrevista aos jornais italianos. O resultado, que entre nós bem poderia piscar o olho às sugestões da veterana Ana Salazar, fala por si.
E porque ninguém nasce ensinado, de muito terão servido as aulas numa das mais prestigiadas escolas de moda italiana, a Ida Ferri. No próximo mês de Julho, Maria Elena dará por concluídos três anos de estudo na matéria desprovido de qualquer interesse comercial, segundo rezam os seus mestres.
“Ela quer apenas aprender a técnica para ensinar às outras freiras do convento e às mulheres que desejem fazer um curso”, garantiu à BBC o director da escola, Giancarlo Zuccarello. “Não costura apenas vestidos nossos, mas muitas vezes traz modelos desenhados por outras irmãs do convento, levando adiante a confecção”, adianta.
O PREVILÉGIO NÃO LHE COUBE EM SORTE POR ACASO
De resto, o privilégio de frequentar a escola até à obtenção do certificado ‘Master’ não lhe coube em sorte por acaso. Maria Elena foi escolhida pela madre superiora para trilhar este curso destinado a desenvolver uma técnica que vai permitir acima de tudo assegurar a auto-suficiência do convento na confecção do vestuário das 15 irmãs da Ordem da Imaculada. Porquê ela e não outra?
O traquejo da freira para o corte e costura faz-nos recuar aos tempos anteriores ao noviciado. Remonta aos tempos de menina, quando a família se mudou de Palermo, a sua terra natal, para Génova. Elena dava então os primeiros passos nesta arte.
AS PISADAS DA PROGENITORA
As pisadas da progenitora, ao serviço de uma famosa costureira da cidade, fizeram despertar a apetência. “A costura é uma paixão que tenho desde pequena. Depois, ao ver os desfiles de moda, a paixão aumentou. Sou tímida e emociono-me quando vejo um vestido realizado por mim”, confessa.
Como qualquer paixão, esta também tem regras, e Maria Elena deixa o gosto bem vincado nas pregas dos figurinos a que dá azo. Aprendeu o bê-á-bá do desenho e ginasticou-se na actividade de modelista. “Leio o figurino e passo para o papel”, simplifica a irmã, com a lição estudada.
DEVE SER SIMPLES, MAS ELEGANTE
A mulher, essa, deve ser simples, mas elegante e saber jogar com a paleta de tons. “Dou muita atenção às cores, jamais usaria amarelo e cor de laranja junto, prefiro cores em tom pastel”, justifica Maria Elena, puxando dos galões do profissionalismo que a caracteriza. No último ano, o preto foi presença inquestionável e os detalhes deram um toque de classe.
Porque o arrojo não deve colidir com o decoro, os pormenores menos consensuais, como os decotes vertiginosos, merecem cuidado redobrado. Nada que a freira não resolva quando das suas mãos nascem distintos vestidos de noiva. “Basta cobrir com um véu ou uma estola, pelo menos na igreja”, observa.
Pudores à margem, quem sabe se um dia não a veremos pular da ribalta romana para as principais ‘passerelles’ internacionais. Ou se Sophia Loren se rende a Elena e as solicitações começam a bater à porta da Ordem.
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