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DOENÇAS: A CULPA É DO PROGRESSO

A pneumonia atípica é a doença do momento. Mas várias outras preocupam a Organização Mundial de Saúde. As dezenas de novas enfermidades, surgidas depois dos anos 70, derivam da evolução. Maldito progresso.
25 de Maio de 2003 às 00:00
Se a Síndroma Respiratória Aguda (SRA), conhecida como pneumonia atípica, é a doença de que se fala e de que se tem medo, muitas outras doenças estão na lista de preocupações da Organização Mundial de Saúde (OMS) por já terem vitimado milhares de pessoas. Em Espanha, a doença do legionário (‘Legionella’) assustou e por cá chegou a encerrar o edifício da Mundial Confiança, em Lisboa. O pó amarelo atacou o Instituto Ricardo Jorge, em Lisboa, e um dos funcionários afectados interpôs e ganhou uma acção contra aquele organismo público. O receio da varíola, como arma biológica na guerra contra o Iraque, pôs o Ministério da Defesa português e a Base das Lajes, nos Açores, em alerta… Um sem número de casos recentes ajudam a trazer à memória dos portugueses o pânico das sociedades modernas: as novas doenças.
Enquanto a pneumonia atípica faz manchetes, tendo vitimado mais de quatro centenas de pessoas; em África, o ébola parece ter vindo para ficar e já matou muito mais. Na Holanda e na Bélgica, a gripe das aves obrigou ao abate de milhares de galináceos para controlar o surto virulento que, mesmo assim, ainda fez algumas dezenas de vítimas mortais.
Há 30 anos, a História escrevia-se por outras linhas: a varíola tinha sido erradicada há algum tempo; a sida ainda nem constava como vocábulo ‘corriqueiro’; e a ciência e a medicina evoluíam a tal ritmo que eram motivo de orgulho para toda a Humanidade. Mas, em nome desta mesma evolução, as grandes cidades, as gigantescas e poluentes fábricas, os bancos de sangue e os laboratórios de investigação biológica preparavam terreno para novas formas de risco para a saúde pública, enfermidades desconhecidas e perigosas.
O grande inimigo As dúvidas multiplicam-se à medida que surgem novas formas de vírus. Saberemos o suficiente para prevenir novas infecções? Conseguiremos evitar a próxima SRA, a próxima sida? A maioria das novas enfermidades resulta do contágio de um humano por via de um animal infectado. Há uma década, um vírus semelhante à SRA começou a matar no Novo México. Os especialistas ‘trancaram-se’ em laboratório e surpreenderam--se ao identificar o motivo: um grupo de vírus proveniente dos roedores que se espalha no ar através da urina dos animais. O que fez disparar a enfermidade, nesse ano, foi o ‘El Niño’, que originou um Inverno anormalmente quente nessa região, espalhou micróbios pelos ares e fez multiplicar a população de roedores. Factores suficientes para potenciar o contágio.
Qualquer anomalia do meio ambiente pode ser responsável pela mobilidade dos micróbios causadores de doenças. Por exemplo, nos anos oitenta, na Venezuela, vários agricultores desbastaram uma extensa área florestal para cultivo. Mas nessas propriedades multiplicaram-se de tal forma ratos e ratinhos que introduziram uma nova infecção na região conhecida como vírus Guanarito, responsável por febres e hemorragias. Morreram dezenas de pessoas. Em 1999, na Malásia, criadores de suínos viveram uma experiência semelhante a doença de Nipah, quando os morcegos da fruta bombardearam a água que os porcos bebiam. Resultado? Os porcos infectados contagiaram os seus criadores. Com sintomas violentos como a excessiva inflamação do cérebro, a doença matou 40% dos infectados e só foi eliminada quando as autoridades fecharam várias propriedades afectadas e sacrificaram milhares de suínos.
VIETNAM CONTROLA EPIDEMIA
Johnny Chen foi internado no Hospital Francês de Hanói, no Vietname, em finais de Fevereiro. Febre, tosse e fortes dores musculares. Morreu a 12 de Março, num dia em que a equipa médica do hospital já não tinha dúvidas: estavam perante uma nova enfermidade. O que fazer?
A 11 de Março, o hospital já não admitia novos doentes. Nos dias subsequentes, médicos e enfermeiras que tinham contactado com o paciente foram falecendo. A 12 de Abril fecharam-se finalmente as portas do hospital mas, durante todo este tempo, todos os funcionários do hospital permaneceram lá dentro, isolando o vírus e evitando o contágio a amigos e familiares.
Mais de 100 pessoas contactaram com este homem, mas permaneceram vigiadas e de quarentena. O Instituto Médico Bach Mai para Doenças Tropicais foi nomeado como o local apropriado para receber os pacientes com SRA, que acabaram por nunca chegar a estar tão contaminados como os doentes do Hospital de Hanói. Sorte ou não, a doença acabou por ser completamente controlada.
O Hospital de Hanói já foi desinfectado e espera-se que reabra em Junho. As seis dezenas de casos de pneumonia atípica (entre eles, cerca de metade da equipa médica do hospital) estavam relacionados com Chen. O que não ocorreu nos outros países afectados. A 28 de Abril, o governo do Vietname tinha reconhecido o seu país como o primeiro do mundo a ‘contrair’ a pneumonia atípica. Viria a ser também o primeiro a controlá-la.
DICIONÁRIO DOS MALES
Varíola Apareceu em 1500 d.C. na Índia. Em 1796 foi descoberta a vacina. O último caso foi assinalado em 1977, na Somália.
Malária ou Paludismo Primeira doença parasitária mundial. Tornou-se endémica e existe numa centena de países, atingindo 500 milhões de pessoas e matando todos os anos três milhões.
Sífilis A mais antiga doença transmitida sexualmente. A penicilina diminuiu a incidência mas, todos os anos, aparecem 12 milhões de novos casos.
Peste Doença infecciosa transmitida pelos ratos matou milhões de pessoas ao longo de toda a História humana. Desde 1980 que se registam um milhar de casos, particularmente na Ásia.
Cólera A primeira vacina foi descoberta em 1890. Actualmente, a sua incidência no Vale do Ganges (África), na América Latina e na Oceânia prefigura a possibilidade de nova epidemia.
Tuberculose Infecção muito contagiosa minimizada pelo aparecimento da vacina BCG e dos antibióticos. A sida reforçou o número de casos. A OMS prevê 200 milhões de infectados e 35 milhões de mortes nos próximos 20 anos.
Sida No final de 2002, dos 42 milhões de portadores, 30 milhões estavam em África. Mais 45 milhões deverão aparecer até 2010.
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