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"Dois camaradas tombaram ao meu lado"

Assisti a situações chocantes, com soldados feridos, havia muito sangue... Imagens que ficam para sempre gravadas na memória.
11 de Maio de 2014 às 15:00
Com outros camaradas, no Leste de Angola, num momento de descanso
Com outros camaradas, no Leste de Angola, num momento de descanso FOTO: D.R.

Embarcámos para Angola no dia 15 de abril de 1966 no paquete ‘Niassa’ e chegámos dez dias depois a Luanda, a 25 de abril. A missão do meu batalhão, o 1883 de Cavalaria, consistia em fazer reconhecimentos, operações militares e patrulhas nas picadas.

Assim que chegámos a Luanda fomos para o Grafanil, um campo de circulação, onde todas as tropas tinham obrigatoriamente de passar quando chegavam a Angola. Estivemos ali uns dias e depois seguimos para o nosso destino, já no interior, no Norte do país. Parte do batalhão ficou em Quicabo e outras duas companhias foram para locais ainda mais distantes.

O meu pelotão era o PeleRec (Pelotão de Reconhecimento) e a nossa missão era fazer, como o nome indica, reconhecimentos, patrulhas e escoltas nas picadas. Quase todos os dias íamos buscar o correio ao Caxito para o distribuir. Escoltávamos também colunas de camiões que faziam o abastecimento de géneros para as tropas e civis que habitavam nas fazendas, no interior. Nas picadas tivemos alguns acidentes, mas nada de muito grave.

Foi realmente em operações que sofremos mais baixas. O nosso batalhão, com cerca de 600 homens, teve 17 mortes, incluindo três camaradas que morreram por acidente. Estávamos em Quicabo e, após o regresso de uma operação, havia que limpar as armas. Foi então que um camarada meteu o carregador na arma, em posição de fogo, que imediatamente disparou: dois homens tombaram logo. Estava mesmo junto a eles e apalpei-me, para perceber se tinha sido atingido... Tive sorte, mas são situações que ficam gravadas na memória para o resto da vida. Mortes por acidentes foram no total três, as restantes foram em combate, mas não assisti a nenhuma. No entanto, situações houve que me traumatizaram muito. Como Quicabo ficava a meio caminho para a região mais interior, paravam ali muitos helicópteros para prestar assistência aos feridos. Assistimos a cenas muito chocantes, com gente muito ferida, a escorrer sangue por todo o lado... Foi horrível.

Ainda no Norte de Angola, realizámos operações militares durante as quais morreram camaradas em combate, mas também prestámos muito apoio aos fazendeiros. Construímos, por exemplo, em Balacende, uma grande igreja. Depois de mais ou menos um ano, em abril de 1967, rebentou a guerra no Leste, com a UNITA a fazer o primeiro ataque a Teixeira de Sousa. Saímos então de Quicabo, em camiões – costumo dizer que como gado para as feiras – até Luanda, e daqui fomos até Nova Lisboa. Daqui fomos de comboio até ao Luso (agora Luena), Lumége e Teixeira de Sousa. O nosso batalhão foi dos primeiros a ir para aquela região e a minha companhia ficou no Luso. Nem quartel tínhamos, estava ainda a ser construído, estivemos mais de um mês (era o tempo do frio) a dormir no chão.

EMBOSCADA MATOU SETE

Como era primeiro-cabo tive de substituir um camarada falecido num acidente e fui para o mato, três meses, proteger uma serração de madeiras, a comandar mais de três dezenas de soldados TE (tropas especiais africanas). Foi aqui, de facto, no Leste, que sofremos mais baixas, nomeadamente quando fomos alvo de uma emboscada, a 4 ou 5 km do quartel, a escassos dias de terminar a nossa comissão, quando estávamos já muito relaxados. Morreram sete.

Pouco depois regressámos a Luanda e embarcámos no ‘Uíje’ para Lisboa, onde chegámos no dia 13 de maio de 1967.

Comissão

Angola, 1966-1967

Força

Batalhão de Cavalaria 1883

Atualidade

Aos 70 anos, é casado, tem 4 filhos e 6 netos. Comerciante do ramo alimentar, vive em Gondomar

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