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Dois comboios na linha da obscenidade

‘Perder a carteira’ foi o melhor slogan que este Governo poderia ter arranjado para identificação. Percebo o problema (europeu) de Sócrates. Sócrates é que parece não perceber o grave problema dos portugueses.
21 de Outubro de 2007 às 00:00
Há dois comboios a circular a duas velocidades. Num deles, com carruagens de primeira classe, viajam os políticos e sobretudo os governantes que se regem pelo ‘horário’ da União Europeia. Esse comboio, onde é permitida também a entrada de diversas formas de poder económico, fautores ou não de riqueza para o País, não tem permissão para abrandar, sob pena de não ver entrar na sua estação vinte mil milhões de euros, a verba resultante dos fundos comunitários destinada a Portugal até 2013.
Este é um comboio onde não falta nada: todo o tipo de mordomias, assessorias e a roda-viva das relações diplomáticas, inter pares, que projecta uma comunidade real, ciente dos problemas que afectam os povos mas quase sempre dispostos a estar, se possível, distante deles. Como nas guerras: há quem lá esteja, a levar com as bombas e os que assistem pela televisão, rodeados de telefones e centrais de informações, encantados da vida.
O outro comboio, cada vez mais lento, no qual as pessoas são tratadas como mercadorias, bate-se, desesperadamente, ainda assim, por um lugar. O da sobrevivência.
Stendhal designava a vida como um ‘deserto de egoísmo’. Neste comboio existe a certeza de que é preciso comprar pão e água; é preciso alimentar e vestir os filhos, dar-lhes educação e saúde. Neste comboio existe a certeza de que, no intervalo das vitórias políticas e das estropiações partidárias (com Ribaus a assomar e Santanas a estrupidar), dos bailados de orgulhos e das vinganças, dos perdões bancários a filhos de banqueiros, dos jardins sem flores, existem dois milhões de portugueses – 20% da população – no limiar da pobreza.
São comboios que nunca chocam. O risco de choque frontal é sempre reduzido. A
s eleições e o discurso quase sempre demagógico que os precedem são um reality show, em formato pseudo-intelectualizado. O concurso é ganho por quem faz a melhor promessa. E os ciclos abrem-se e fecham-se, com os ‘boys’ a mudar de cor, em descargas adrenalínicas que também fazem andar a locomotiva. No ‘comboio dos pobres’, frequentado pelos desempregados, idosos e por uma certa (in)dignidade social, penduram-se, agora, cidadãos com emprego mas sem salário compatível para fazer face às despesas dos respectivos agregados familiares.
No ‘comboio da União’, a carga fiscal é uma espécie de correio.
‘Perder a carteira’ foi o melhor slogan que este Governo poderia ter arranjado para identificação.
Percebo o problema de Sócrates. Sócrates é que parece não perceber o problema dos portugueses.
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