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DORES DE DENTES? APANHE UM AVIÃO!

Sabia que se partir uma perna em Lamego terá que ir ao pé-coxinho até a um hospital longínquo? E que há ilhas dos Açores onde não encontra um único dentista? O ‘Domingo Magazine’ viajou pelos hospitais do País, à procura de assimetrias. E são muitas...
7 de Março de 2003 às 15:54
O panorama da saúde em Portugal não é cor-de-rosa. Faltam médicos nos centros de saúde, as urgências dos hospitais públicos estão entupidas, e em muitas zonas do País nem as mais básicas necessidades de saúde são resolvidas. Um exemplo: uma simples dor de dentes pode ser um osso duro de roer nos Açores, onde simplesmente há falta de médicos dentistas em várias ilhas. Outro exemplo: em Lisboa há pacientes que estão meses à espera para tratar os problemas de visão, mesmo aqueles que correm o risco de ficarem cegos, como é o caso dos diabéticos. Outro ainda: em Trás-os-Montes a meningite já matou uma criança nas urgências, numa situação em que bastava a presença de um médico para resolver o problema.

“Os principais pontos negros da saúde em Portugal são as cirurgias ortopédicas, vasculares e oftalmológicas”, explica António Bento, Presidente do Sindicato Independente dos Médicos. “Há quem espere anos para ter uma prótese numa anca ou num joelho”, remata. Num dos estabelecimentos de saúde com mais doentes nesta área, o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a situação é um pouco menos dramática. Mas, ainda assim, o tempo de espera pode atingir os quatro meses. “Estamos a progredir, mas a ortopedia é uma especialidade muito delicada e dispendiosa”, revela Correia da Cunha, director clínico daquela unidade hospitalar.

Se é natural que nem todos os hospitais tenham orçamento para comprar o material ortopédico, já não se percebe como um centro de saúde como o de Loures, que serve cerca de 200 mil pessoas, não possua um simples aparelho de raio-x. “Em Portugal há desequilíbrios irracionais”, declara António Branco, um dos maiores especialistas em saúde no nosso país. E remata: “Em geral, no interior do País há cirurgiões, mas escasseiam os anestesistas e os meios. No litoral, costuma dar-se o fenómeno inverso, não havendo muitas vezes médicos para todos.”

As excepções são, muitas vezes, para pior. Casos confrangedores como os do Centro de Saúde de Loures espalham-se por todo o território como uma doença infecciosa. Em Ovar, distrito de Aveiro, por exemplo, não há uma maternidade desde 1998, altura em que foi encerrada a existente, e na Anadia, no mesmo distrito, o hospital apenas possui quatro camas disponíveis para cirurgias. Isto porque o internamento estará fechado até Dezembro, pelo menos.

No chamado ‘Portugal profundo’, há histórias dramáticas que corroboram a tese de António Branco. Em Lamego, a recente redução de 45 para 27 profissionais de saúde originou que o hospital ficasse sem radiologistas e apenas com um ortopedista, número notoriamente insuficiente para os 9400 habitantes da região. Não muito longe, em Mangualde, há doentes que ficam mais de 24 horas à espera de uma consulta no centro de saúde. Mais no interior do País, na freguesia da Campeã, distrito de Vila Real, só há médico duas manhãs por semana. Quem tiver o azar de ficar doente durante o resto do tempo, não terá outro remédio senão deslocar-se à povoação mais próxima.

LISBOA À ESPERA

A falta de médicos em relação ao número de habitantes é mais visível em Lisboa, onde vivem quase dois milhões de alfacinhas. No IPO (Instituto Português de Oncologia), nem sempre a gravidade dos casos é sinónimo de uma resposta imediata. Os doentes que padecem de cancro da cavidade bocal têm de esperar 130 dias para poderem ser operados. As pacientes com cancro da mama esperam em média um pouco menos (cerca de 80 dias), mas ainda assim um período demasiado longo para quem tem esta doença degenerativa.

Não menos dramáticos são os casos de utentes que sofrem de cataratas e têm de aguardar a sua vez de ser operados durante um interminável ano. É o que se passa no Hospital de São José, que não consegue corresponder igualmente às centenas de doentes que necessitam de uma operação à garganta, nariz ou ouvidos. Em alguns casos, a demora prolonga-se por mais de dois anos.

No Hospital Egas Moniz, trinta dias é o tempo necessário para uma consulta em oftalmologia. Por sua vez, no Hospital de Santa Maria, também se desespera por uma consulta externa ou uma simples cirurgia. O novo sistema de triagem de doentes, apelidado de ‘Protocolo de Manchester’, em que a rapidez do atendimento é determinada pela gravidade do caso, já tem permitido uma maior eficácia. Mas o sistema ainda só é utilizado no Hospital Amadora-Sintra, Santo António, no Porto e Sta. Maria, em Lisboa.

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

Se nem tudo são rosas na saúde em Portugal, há no entanto boas notícias que permitem fazer esquecer os espinhos por momentos. Mas essas realidades só ajudam a construir a ideia de que as assimetrias entre as várias zonas do País são muitas – e que, ainda por cima, existem segundo uma lógica difícil de perceber, quase aleatória.

No Funchal, a nova unidade hospitalar da Madeira irá desafogar os serviços dos Hospitais da Cruz de Carvalho e dos Marmeleiros, cujas consultas externas e urgências estavam a rebentar pelas costuras. Nos Açores, a falta de dentistas já levou à discussão sobre a abertura de cursos de Medicina e de Medicina Dentária na Universidade dos Açores. Em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, embora ainda não haja médicos de família suficientes para os 60 mil habitantes, o Hospital de Santo Espírito já abriu três novas consultas periódicas em cirurgias vascular, plástica reconstrutiva e em pedopsiquiatria. Afinal, insularidade nem sempre é sinónimo de ostracismo: nas ilhas é difícil tratar uma dor de dentes, mas pode-se implantar silicone.

Em Portugal Continental, o funcionamento do Hospital Distrital de Bragança parece correr sobre rodas. O estabelecimento está a receber pacientes de outros distritos para a realização de cirurgias. O mesmo se passa no Montijo. O hospital distrital especializou-se em cirurgia geral e praticamente não tem listas de espera. “Vamos ajudar outros hospitais com mais dificuldades, em termos humanos e técnicos”, refere o director, Serafim Machado e Sousa. Mais a Sul, em Évora, também há boas novas para quem for obrigado a recorrer a cirurgias do foro oftalmológico: recentemente foi reaberto o bloco operatório, permitindo a realização de trinta operações diárias.

Mas o verdadeiro caso de sucesso parece ser o do Hospital Universitário de Coimbra, que só em 2002 realizou mais de 33 mil cirurgias, sendo as operações à vesícula e à tiróide as mais rápidas e bem sucedidas. Este hospital é um dos que recebe mais doentes do PECLEC (Programa Especial de Combate às Listas de Espera Cirúrgicas, em vigor desde Junho de 2002) e só neste âmbito já operou com sucesso 2500 pacientes. O director clínico é um homem orgulhoso: “Somos um hospital grande numa terra pequena.”

PROIBIDO ADOECER

Trás-Os-Montes
Adoeceu dos olhos? Corre o risco de cegar. Simplesmente não há oftalmologistas na região.

Douro Litoral
Não adoeça de todo. Não há médicos de família. Ponha-se já na bicha, para quando adoecer...

Beira Alta
Faça o que fizer, não parta uma perna. Já nem se fala em ortopedistas – que não os há. Nem um raio-x se pode fazer à-vontade.

Beira Litoral
Se quiser ficar doente, fuja da Anadia. Não há camas no hospital pelo menos até Dezembro. Estamos em Março...

Beira Baixa
Se adoecer, adoeça devagarinho. Evite as urgências. Só em Castelo Branco, faltam 45 médicos.

Ribatejo
Os problemas mais banais podem ser uma dor de cabeça – até a dor de cabeça em si. Faltam médicos e enfermeiros por todo o lado.

Estremadura
Ah, Lisboa, a Capital... Visite-a, coma bem, saia à noite, mas não tenha problemas na vista, ouvidos ou nariz. Há filas de espera de dois anos...

Alentejo
Se tem problemas na vista, é melhor ir a Espanha. Fazer um raio-x também pode ser um inferno.

Algarve
Vá de férias para o Algarve mas não fique doente. É que não há camas para todos...

Madeira
Se viajar para Porto Santo no Verão, evite adoecer. É que não há médicos suficientes. Ah, e se viver lá, mude-se depressa. Mesmo.

Açores
Proibido ter dores de dentes, porque há ilhas que simplesmente não têm dentistas. Se precisar de trabalhos na dentadura, compre um avião.

ADOEÇA À VONTADE

Trás-Os-Montes
Problemas urológicos, ginecológicos ou de otorrino? Não perca tempo: vá a Trás-os-Montes!

Beira Litoral
Sofre da tiróide ou da vesícula? Isso não são problemas – é turismo. Vá ao Hospital Universitário de Coimbra e depois ouça cantar o fado.

Alto Alentejo
Problemas oftalmológicos podem ser resolvidos rapidamente em Évora. Para os de fora, avisa-se que há apartamentos à venda na cidade.

Lisboa e Vale do Tejo
Quem sofra do coração ou padeça de cancro só pode ser atendido com rapidez na Capital. Ao menos isso...

Baixo Alentejo
Qualquer cirurgia geral é feita com rapidez. Os reincidentes podem comprar um monte em ‘time-sharing’ por ‘tuta e meia’.

Algarve
Os algarvios que sofrem de cancro já se podem tratar em Faro.

Madeira
Com a construção de um novo hospital os madeirenses já podem suspirar de alívio Mas vamos a ver...

Açores
É um pequeno Malibu: em Angra do Heroísmo já se pode fazer um implante de silicone. Açores, férias que nunca se esquecem...
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