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Dou o meu filho a quem ficar com ele

Joana, Rita e Tânia achavam que faltava na blogosfera um sítio onde os pais e mães pudessem desabafar e protestar contra as birras das crianças. Em Junho de 2008 puseram mãos à obra.
24 de Janeiro de 2010 às 00:00
Dou o meu filho a quem ficar com ele
Dou o meu filho a quem ficar com ele

Se é um daqueles pais ou mães para quem os filhos são, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, uns anjinhos talentosos – e nunca fazem birras – não leia este artigo. Ou melhor, leia. Lá porque não partilha da opinião das mães que em Junho de 2008 criaram um blogue na internet para desabafar as crises da maternidade e protestar contra as crias, não quer dizer que, um dia destes, um qualquer dos pensamentos que o blogue partilha não lhe possa ocorrer. O endereço blogdesnaturadas.blogspot.com "é interdito a mães (que se entendam) perfeitas".

‘Eu juro que às vezes (só às vezes) apetece-me dá-lo para adopção’, escreveu Rita em Novembro, referindo-se ao filho do meio, de três anos. ‘Por momentos, só por momentos, pensei em rifar a minha filha’, confessou Joana, mãe de uma menina da mesma idade, em Setembro, no dia em que a filha a acordou para brincar às seis da manhã. Tânia, por seu lado, anunciou em Agosto: ‘Cede-se, por umas horas, criança com uma birra tão descomunal, que eu fiz birra e vim para o quarto para não me passar com ela’, sobre a filha mais velha, também de três anos. Rita, Joana e Tânia conheceram-se há quatro anos, quando estavam as três grávidas.

"A ideia surgiu numa conversa sobre os blogues da internet em que comentávamos que as mamãs só escreviam coisas boas dos filhos e o quanto exageravam – sempre para o bom. E dizíamos que devíamos ser umas mães péssimas, em comparação com aquela perfeição toda que líamos", explica Joana. Tânia acrescenta: "o mundo dos babyblogues é muito cor-de-rosa e quase toda a gente tem dificuldade em assumir dificuldades ou falhas, por isso o blogue surgiu como forma de catarse". Quase uma terapia. "Porque a maternidade não é a perfeição dos manuais e não há livros que nos alertem para isso. Os pais e mães ao irem ao nosso blogue constatam que não estão sozinhos", considera Rita, mãe de três.

Os comentários que recebem provam que muitos pais gostam de se sentir acompanhados – no que se refere aos dramas com os filhos. Tanto que as autoras até já organizaram uma iniciativa cibernética em que pediam a todos os leitores para descreverem uma experiência "desnaturada" a ser publicada no blogue. A maioria dos comentários e e-mails que recebem são de apoio. "Mas já aconteceu sermos criticadas". Em comum, as três amigas, têm o facto de ficarem "doidas, com as birras sem razão".

E, diz Tânia, quando deixam de comer "só porque sim", além "da desobediência provocatória, para esticar a corda". Joana elege "os gritos e a teimosia: as coisas que mais me deixam louca. Isso e quando ela quer alguma coisa e eu digo que não. Fica o tempo que for necessário a falar altíssimo até me levar à exaustão". Para Rita " as noites sem dormir custam horrores, tal como as pegas entre os dois mais velhos. Os fins-de-semana chegam a ser um filme de comédia-drama-horror". Um filme pouco perfeito. Desnaturado. Mas tão humano.

AMERICANA FICOU FAMOSA COM BLOGUE

‘It Sucked and Then I Cried: How I Had a Baby, a Breakdown and a Much Needed Margarita’ [‘Era Horrível e Chorei: o Bebé, a Depressão e uma Margarita Muito Necessária’, em tradução livre] é o título da história escrita no blogue dooce.com, de Heather B. Armstrong, que teve um filho e sofreu de depressão pós-parto.

O lado negro da maternidade mudou a vida da autora e rendeu-lhe uma fortuna: toda a família vive dos lucros do blogue – o marido deixou o trabalho – e foram convidados do programa de Oprah. Heather foi até nomeada pela ‘Forbes’ como a 26.ª mulher mais influente do Mundo.

NOTAS

JOANA

Tem 32 anos e uma filha com três. Trabalha na área da garantia de qualidade.

RITA

Tem 28 anos e é mãe de três filhos: cinco anos, três anos e sete meses. É doméstica.

TÂNIA

Tem 33 anos e dois filhos: de um e três anos. Prefere não dizer a profissão.

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