Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

Dupla de motards: Assaltos de norte a sul em duas rodas

Chegaram a roubar uma estação dos CTT no Porto, pela manhã, e uma repartição de Finanças em Coimbra, à tarde
Carlos Anjos 13 de Dezembro de 2015 às 15:30
As motos usadas nos crimes, sempre da marca Honda, eram furtadas previamente
As motos usadas nos crimes, sempre da marca Honda, eram furtadas previamente FOTO: Ricardo Cabral

No início de 2013, a Polícia Judiciária constatou que, desde 2011, a PSP e GNR comunicaram dezenas de assaltos à mão armada, levados a cabo sempre por dois indivíduos, numa mota, conhecidos nos meios policiais como a ‘dupla de motards’. Sempre com armas de fogo, faziam questão de as mostrar e de ameaçar que as usariam, em lojas, bancos, bombas de gasolina, estações dos CTT e repartições de Finanças.


O modus operandi era sempre igual. Chegavam numa moto Honda, assaltavam, e saíam depressa. Percorriam a malha litoral, de Lisboa a Braga, com incursões no Centro, em Leiria e Coimbra, e eram capazes de, num dia, roubar de manhã uma estação de correios no Porto, e à tarde uma repartição de Finanças em Coimbra. Ou assaltarem um posto de combustíveis em Braga, na manhã do dia seguinte um banco na Figueira da Foz e à tarde uma repartição de Finanças em Lisboa. A volatilidade dos alvos e a mobilidade dos autores, e o facto de os crimes ocorreram em zonas de competência de vários departamentos policiais, complicava a resposta.


Usavam capacete integral na cabeça, o que impedia que alguém lhes visse a cara, e luvas e roupas largas, tornando quase impossível recolher vestígios. As testemunhas não lhes detetavam nenhuma particularidade. Nem se sabia a cor da pele e do cabelo, se tinham barba ou bigode, ou mesmo a idade.


Em dezembro de 2012, a dupla começou a atuar na Grande Lisboa, escolhendo como alvos preferenciais estações dos CTT, ao que a Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo (UNCT) da PJ estabeleceu um modus operandi comum a todos os casos pendentes idênticos. Por serem cometidos por duas pessoas de moto, que abordavam os locais e deles saíam sempre da mesma forma, e não pelo crime em si, ou seja, se era um assalto a um banco, a uma repartição de Finanças ou a um posto de combustíveis.


Alargou-se o âmbito de análise, mesmo a crimes cometidos noutros locais de Portugal e com investigação a cargo de outros departamentos da PJ. Identificaram-se dois homens com várias condenações por crimes contra o património recorrendo a armas de fogo, cometidos de forma sistemática ao longo de vários anos, intervalados por hiatos que coincidiam com o tempo que passavam na prisão. Tinham sido detidos em 1993, pela Direção Central de Combate ao Banditismo da PJ, também por assaltos à mão armada. Integravam um perigoso bando, autor de dezenas de roubos violentos, que assolou a Grande Lisboa, conhecido como o ‘Grupo do Virgílio’, sendo condenados a penas superiores a 12 anos.


Havia ainda a particularidade de um dos dois estar evadido da prisão, após ser detido por elementos da Secção Regional de Combate ao Banditismo da PJ de Faro, por 26 roubos, entre agosto de 2004 e março de 2008. E constatou-se que os crimes então investigados iniciaram-se pouco tempo depois da fuga.


DETIDOS ANTES DE ROUBAR

De imediato, a PJ controlou os movimentos da dupla. Foram vigiados, para se saber tudo o que faziam, com extrema cautela, pois tinham grande experiência no crime, sendo cuidadosos e desconfiados.


Apurou-se que faziam meticulosas e detalhadas ações de reconhecimento, para perceberem se era normal haver elementos da PSP ou da GNR nos locais que iam assaltar, as rotas de fuga e alternativas se fossem surpreendidos. Identificavam ainda dias e horas em que havia mais dinheiro. Nada era deixado ao acaso.


O trabalho da UNCT/PJ foi moroso e cuidadoso. Qualquer erro seria o fracasso total da investigação, pois não havia provas concretas contra os dois criminosos, à data suspeitos.

Foi possível detê-los em outubro de 2013, com mais cinco pessoas, que haviam tido participações pontuais em alguns crimes, tendo a dupla sido detida quando se preparava para novo roubo violento. Suspeita-se que, entre 2011 e 2013, fizeram mais de uma centena de roubos. No entanto, só foi possível imputar-lhes a autoria de 23 roubos qualificados, sempre com recurso a arma de fogo, em todo o território nacional, e tendo como alvos repartições de Finanças, estações de CTT, bancos, postos de abastecimento de combustíveis e empresas privadas. Os crimes ocorreram em 16 concelhos, de sete distritos, tendo utilizado sempre motos, previamente furtadas e sempre da marca Honda.


A detenção teve um impacto extraordinário na criminalidade violenta, sendo que os roubos a estações dos CTT quase se extinguiram. Por vezes basta um só grupo de criminosos para os números da criminalidade violenta subirem vertiginosamente, abrirem quase diariamente os telejornais e criem na população um sentimento de enorme insegurança.
Carlos Anjos Crime Disse Ele Motards Assaltos
Ver comentários