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Durante a juventude Estaline foi terrorista e chegou a participar em gangs organizados

Aos 41 anos, o historiador britânico de origem judia Simon Sebag Montefiore, cumpriu um sonho de criança: escrever sobre Joseph Estaline, o ditador soviético que esteve três décadas no poder. “Tinha uns 8 ou 9 anos quando li algumas coisas sobre ele e fiquei imediatamente fascinado”, comenta, entre risos, o historiador.
19 de Novembro de 2006 às 00:00
Nos anos 90, depois de abandonar uma carreira na banca nova--iorquina, percorreu o ex-Império Soviético e escreveu para vários jornais internacionais. Durante três anos trabalhou exaustivamente na biografia de Estaline, com recurso a várias obras, aos arquivos russos que abriram no ano 2000, e a entrevistas a vários familiares do ditador e de todos aqueles que estiveram em seu redor. E foi assim que, em 2003, publicou ‘Estaline: A Corte do Czar Vermelho’, uma obra galardoada no ano seguinte com o History Book of the Year Award, traduzida em distintas línguas e que agora chega a Portugal pela mão da Alethêia Editores.
Revista Domingo- Que descobertas fez nos materiais e arquivos de Estaline, tornados públicos no ano 2000?
Simon Sebag Montefiore - Eu tive a sorte de aceder livremente aos arquivos na Rússia e o espólio é realmente impressionante: vi cartas e pedidos desesperados de pessoas a implorarem a Estaline pelas suas vidas e li os respectivos despachos dele, na maior parte negava e mandava-os matar. Mas consegui conhecer uma outra faceta dele ao descobrir as cartas de amor que trocou com a mulher e as divertidas mensagens que enviava frequentemente à filha. Outro aspecto curioso eram os pedidos dos amigos mais próximos, homens que precisavam de alojar as suas amigas secretas e ele arranjava-lhes sempre uma casa.
- A História não deixa margens para dúvidas, Estaline aniquilou milhares de pessoas e é considerado um monstro. O que é que o fascina no carácter deste ditador?
- Ele aniquilou mais de 50 mil pessoas, é certo. Eu não gosto do Estaline mas considero a sua personalidade fascinante, apesar de ter sido um ser miserável. É fácil para as pessoas intitularem-no de monstro mas, repare, se ele tivesse realmente sido tão mau porque razão é tão popular?
- Que tipo de homem ele era?
- Ele era uma pessoa muito complexa e de certa forma talentosa. Tinha uma inteligência superior ao normal, uma boa formação base, uma boa educação, era culto e charmoso. Tirando o Lenine, foi a pessoa mais intelectual a governar a Rússia depois de Catarina, a Grande.
- Pouco se sabe sobre a família de Estaline, apenas que era filho de mãe solteira. Chegou a descobrir quem era o pai dele?
- Falo nisso no meu próximo livro, ‘O Jovem Estaline’ (será publicado em Inglaterra em Maio próximo). Na realidade penso que o seu pai biológico era aquele a quem ele chamava pai, mas também tenho vários outros candidatos, um deles era um homem de negócios local; outro era o chefe da Polícia do lugar onde ele nasceu.
- Contudo, ainda subsiste a teoria que ele era filho de um influente padre...
- Não acredito muito que fosse o padre, apesar de ser um candidato, até porque todos estes homens protegiam, à sua maneira, a mãe dele. Mas claro, não há certezas sobre a paternidade de Estaline.
- No seu livro a esfera pública e a privada são uma só, o que torna esta biografia uma espécie de romance. Foi propositado?
- Este livro é sobre o poder e sobre como viveu, reinou, quais as relações familiares e pessoais. Naquela altura era tudo político, desde as aventuras sexuais à forma como dançavam, pelo que, público e privado constituíam uma só unidade e isso, para mim, é fascinante.
- É curioso porque estamos a falar de um homem com uma forte formação religiosa – apesar de ter sido expulso do Seminário – e um passado do qual nunca se dissociou.
- Essa é a parte conhecida porque além da sua formação, existem outros aspectos desconhecidos sobre a juventude de Estaline: na juventude ele foi terrorista e membro de gangs organizados. São aspectos que nunca vieram a lume até hoje, mas sobre os quais trabalhei e que estão no meu próximo livro.
- Como descreveria a relação dele com a mãe?
- A mãe dele era uma mulher cheia de força e que dizia exactamente aquilo que pensava e concentrou-se muito na educação do filho. Eles tinham uma relação especial. Ela queria que Estaline chegasse a bispo e desde criança que ele era ambicioso.
E foi essa ambição que o conduziu ao poder...
- Estou convencido de que a única razão pela qual Lenine o favoreceu tanto foi porque Estaline conjugava os dois lados: o do intelectual e o do prático em relação ao País. Estaline, por exemplo, sabia exactamente que tipo de trabalho sujo queria fazer, mas mandava alguém por ele fazê-lo.
- A relação entre Estaline e Nadia, a mulher, era conturbada. Acredita que ele a amava?
- Apesar dos problemas, penso que sim, que Estaline realmente amou a mulher. A minha missão não foi contar às pessoas aquilo que elas queriam ouvir, mas sim narrar os factos. A maior parte das biografias dizem que ele casou com um anjo mas que ela não aguentou o marido.
- Uma das coisas que foca é o desequilíbrio de Nadia que, alegadamente, a conduziu ao suicídio.
- Na realidade, ele era um péssimo marido, frio, egoísta, rude, no entanto, casou com uma mulher neurótica e histérica. Até a família concordava que ela tinha uma personalidade esquizofrénica o que fazia dela uma mulher difícil com quem ser casado, sobretudo quando se trata de um homem de Estado. Ela tinha picos de neurose e crises em que, subitamente, começava aos berros, pelo que, a verdade é um pouco mais complicada. Todos os amigos dele, incluíndo Molotov tinham pena de Estaline.
- E é verdade que Nadia não tinha paciência para os filhos?
- Devido ao seu desequilíbrio, ela preferia entregar as crianças às diversas amas e criadas que mantinha.
- E Estaline, era diferente?
- Se por um lado, ele não tinha tempo nem muita paciência para os filhos, a verdade é que mesmo à distância seguia-os e teve atitutes que lhe custaram muito. Por exemplo, muitas vezes retrata-se Estaline como um pai bruto, tirano, que bateu na filha quando, na realidade, em 1943, ele deu um par de bofetadas à filha Svetlana porque descobriu que ela, uma adolescente de 15 ou 16 anos, tinha um envolvimento sexual com um homem casado de quarenta anos. Qual é o pai que não faria o mesmo? Estes comportamentos não fazem dele um monstro mas revelam o lado emocional que, apesar de escondido, ele tinha.
- Qual foi o destino da família do ditador?
- Foram extremamente infelizes. Ele nunca se interessou por propriedades ou dinheiro e enquanto os outros líderes tentavam salvaguardar algum património, para Estaline isso não importava pelo que deixou a família na miséria. E era um homem desesperado: o filho morreu cedo e era alcoólico e a filha casou várias vezes.
- E nos nossos dias, como vivem os netos?
- Conheci alguns netos, pessoas da família, os seus descendentes directos, um é dramaturgo e dirige um teatro na Geórgia; outro é médico, outros estão espalhados mas, na realidade, nenhum prosperou verdadeiramente na vida. Eles já não usam o nome, pelo que, passam despercebidos e nem sequer querem ser associados ao avô.
- Passaram mais de 50 anos da morte de Estaline. Como é que o povo russo encara este passado recente?
- A verdade é que ele continua a ser muito popular, um grande líder de Guerra, e numas sondagens recentes 30 por cento da população russa disse que votaria nele se fosse possível, há uma grande nostalgia pela figura de Estaline uma vez que ele representa poder, império e, de alguma forma, segurança. Na ditadura, as pessoas tinham emprego e não havia crime organizado, se calhar porque ele conhecia os criminosos todos (risos).
- A escritora Anne Applebaum escreveu recentemente um livro intitulado ‘Gulag’ onde dá conta da memória bem presente e das experiências do povo russo nos famosos campos de trabalho estalinistas. Concorda?
- É claro que as pessoas ainda falam no Gulag e que algumas têm memórias mas ao mesmo tempo o povo russo é saudosista. Eu diria que a Rússia tem a particularidade de ter duas memórias distintas sobre a ditadura.
- Consegue enumerar os aspectos positivos da longa ditadura na ex-União Soviética, além do facto de Estaline ter travado a Guerra Fria?
- Penso que Estaline conseguiu – e à conta de milhares de vidas humanas, é verdade – reconstruir a Rússia, torná-la numa superpotência respeitada nos quatro cantos do mundo; evitou a Guerra Fria; e criou um sistema de Educação que subsiste até aos nossos dias, os jovens russos têm todos estudos superiores e além disso enfrentou o Hitler. Penso que são alguns dos aspectos positivos. A relação entre eles era complexa e tensa.
Se calhar não era assim tão complexa, tanto um como outro eram génios. Hitler foi eleito, Estaline não necessitou de eleições e ambos dominavam as técnicas da política secreta. Eles admiravam-se mutuamente. Assim que soube que o Hitler tinha morrido, Estaline abrandou e até escreveu um livro sobre ele.
- Há várias teorias sobre a morte de Estaline em 1953. Para si, ele morreu de hemorragia cerebral?
- Eu não tenho uma teoria, baseio-me nos factos apesar dos mitos que subsistem sobre a morte do Estaline. Repare: para ele a saúde era um tema tabu, não se permitia ficar doente e quando deu uma queda, ninguém sabia o que fazer. As pessoas que o rodeavam decidiram esperar 12 horas para ver se ele melhorava e, entretanto, morreu.
- Ou seja, foi uma morte natural.
- Penso sinceramente que sim. Naquela altura um problema cerebral não era facilmente tratável, mesmo que tivesse sido logo visto, não existiam operações. Por isso, não acredito nas teses de envenenamento e outras que, muitas vezes, são escritas por aí. Não acredito mesmo.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
- Um País... Rússia.
- Uma pessoa... Os meus pais.
- Um livro... Gosto de vários escritores.
- Uma música... Tchaikovski.
- Um lema... A vida é uma enorme aventura onde tudo é possível.
- Um clube... Chelsea (Gosto muito do Mourinho!)
- Um prato... Caviar.
- Um filme... ‘Era Uma Vez na América’.
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