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“É aqui que os homens se tornam irmãos”

Vivi o perigo e a dor. Vi feridos e mortos. Descobri que não é preciso ter o mesmo sobrenome para se ser da mesma família.
6 de Junho de 2010 às 00:00
Estrada de Catió e Cufar, hoje centro de passagem de droga. A pista que serve foi construída para a visita do então presidente Craveiro Lopes
Estrada de Catió e Cufar, hoje centro de passagem de droga. A pista que serve foi construída para a visita do então presidente Craveiro Lopes FOTO: Direitos reservados

Assentei praça no CISMI, em Tavira, no dia 8 de Agosto de 1963 e fui colocado no BAT. CAÇ. 8 em Elvas, em Janeiro de 1964, e em Lamego, em Junho de 1964 no C.I.O.E. onde tirei o curso de Operações Especiais, vulgo ‘rangers’.

A 11 de Fevereiro de 1965 embarquei, no navio ‘Timor’, com destino ao CTI da Guiné, como fur. miliciano de op. esp. Chegámos a Cufar, no Sul da Guiné, a 2 de Março de 1965, ficando a C.CAÇ. 763 em quadrícula.

Vivi a Guerra no sul da Guiné tendo como adversário e comandante do PAIGC na então Zona 11, no Cantanhez, o ex-presidente da Guiné-Bissau, já falecido, ‘Nino Vieira’. Para falar de uma guerra de guerrilha como a que foi a da Guiné, há que ter a noção do que é uma guerra de guerrilha e as suas componentes. Para o guerrilheiro é essencial o conhecimento do terreno com o apoio da população. Para quem faz a antiguerrilha, é lutar contra o desconhecimento do terreno e utilizar todos os meios para captar a simpatia e dar apoio às populações.

Havia apenas oito dias que tínhamos destruído o acampamento do PAIGC em Cabolol. Eis que o meu grupo de combate tem de partir para Catió, levar o pelotão de Artilharia. Nessa noite, um grupo da milícia do João Bacar Jaló, estacionado em Priame, detecta que a estrada foi minada, pelo que temos de utilizar o sistema de picagem da mesma.

DUAS ‘MENINAS’

Mesmo ao cimo da leve subida, quando a estrada entra no túnel da mata após o vale de capim que separa aquela do cruzamento do Cabaceira, foram detectadas duas ‘meninas simpáticas, blenorrágicas prostitutas Anti/Carro’ que por nós esperavam, para nos ‘fornicarem’ o corpo.

Havia que deitar mãos à obra e rebentar as minas. Deixaram uma cratera que cabia lá um unimog. Toca a tapar o buraco para as viaturas passarem. Trabalho efectuado, viaturas passadas, pessoal em segurança, vai um minutinho para fumar um cigarrito.

Verificámos então como funciona a guerrilha. Altamente organizada e eficiente contra a nossa ingenuidade. Fumando o cigarro, juntaram-se em amena cavaqueira de guerra três alferes, três furriéis milicianos e um milícia de nome Zé Libanês. Conversa animada no grupo quando um clarão aflorou da terra, secundado de um grande estrondo e o grupo foi atirado cada um para seu lado. O Zé, de gatas, dizia: ‘estou ferido!…’

Ouvimos um gemido. Também o alferes Abrantes de Artilharia estava estendido na berma. Perna direita levantada. O pé tinha desaparecido. O artilheiro ali estava a receber os primeiros-socorros. Outro inválido e aos 24 anos!

O cabo de transmissões entra em contacto com o aquartelamento que, de imediato, pede evacuação a Bissau que será depois feita de avião. Há que fazer o transporte para Cufar. O José Pedrosa, cara toda chamuscada, camuflado cheio de terra, oferece-se.

É ASSIM NA GUERRA

Conhecia a perícia do Zé Pedrosa, autêntico condutor de ralis, mas era perigoso voltar só. O Artur Teles, comandante do grupo de combate, decide rapidamente. Acede e manda subir para o unimog o enfermeiro, entregando-lhe uma G3, e nomeia outro soldado, que também salta para a viatura. O Zé entrega a sua G3 ao condutor que sede o lugar e salta para o lugar deste e, com o ferido esticado na caixa, o enfermeiro e soldado segurando o infeliz, arrancam direito a Cufar. É assim a guerra: ou ficamos todos, ou salvamos um.

Chegados a Catió não dá para mais nada: é largar os obuses e correr para o cais, pois há que embarcar para o Cachil na ilha do Como. Temos de fazer a segurança àquele desterro.

É na dor que os homens se tornam irmãos sem consanguinidade. Ao todo foram 34 operações de grande envergadura, 15 emboscadas sofridas, 444 patrulhas apeadas e 135 auto, 36 escoltas diversas, 48 emboscadas e 10 golpes de mão realizados. Operações de limpeza batidas e nomadizações na totalidade de 45.

Quase nove mil quilómetros percorridos a pé, seis mil de viatura e perto de mil de lancha de desembarque. Fui evacuado para o Hospital Militar e operado de urgência a duas hérnias inguinais, devido ao esforço de atravessamento de pântanos, bolanhas e rios de maré.

Em 26 de Novembro de 1966, a C.CAÇ. 763 desembarca em Lisboa. Mortos em combate: 1 sargento, 1 furriel miliciano e 5 praças. Feridos em combate: 2 alferes milicianos, 3 furriéis milicianos e 35 praças. Evacuados por doença: 1 sargento, 1 fur. mil. e 3 praças.

OS MENINOS-SOLDADOS

O dia em que matámos uma cobra na lagoa de Cufar. Na foto, o Fernando, um miúdo sem eira nem beira que tinha embarcado connosco em Bissau para Cufar. Era costume os miúdos andarem com os soldados, pois recebiam de comer e o que vestir. O Fernando e um outro miúdo, ambos com uns 11 anos, deixaram-nos a meio da comissão. Apanharam outro barco, foram atrás doutros soldados, à aventura.

PERFIL

Nome: Mário Fitas

Comissão: Guiné (1965/66)

Actualidade: Casado, pai de duas filhas e avô de um neto, reformado da TAP  

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