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E esse pontapé, pá?

Cada gravidez é como cada filho – tem a sua própria identidade. Quando a Teresa estava grávida da Carolina, aquela barriga a crescer era o centro do nosso mundo. Quando estava grávida do Tomás, a Carolina ainda era muito pequenina e as atenções dividiam-se. Quando estava grávida do Gui, eu andava de rastos e receava não aguentar o ritmo de uma terceira criança. Agora, que a Teresa está grávida da Rita, nada do que está a acontecer se parece com aquilo que já aconteceu.
27 de Maio de 2012 às 15:00
João Miguel Tavares
João Miguel Tavares FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

O Gui já vai ter quatro anos e meio quando a Ritinha nascer. É mais velho do que a Carolina era quando ele nasceu. Pela primeira vez, temos uma família inteira à espera de bebé, e a compreender o que isso significa. É fantástico: eles são muito solidários com a mãe e o próprio Gui, apesar de ser o mais novo, dá os beijos mais ternurentos do mundo à sua barriga.

No entanto, visto do meu lado, é tamanho o frenesim do dia-a--dia, com três filhos e meio somados à quantidade incrível de trabalho que se torna imprescindível fazer para sustentar uma família deste tamanho, que tenho a sensação de que ainda foi ontem que a Teresa engravidou e é já amanhã que a miúda está cá fora.

Por um lado, ainda bem – a vida é sempre mais interessante quando não estamos a olhar para o relógio. Mas, por outro, lamento que esta gravidez, que tem fortíssimas probabilidades de ser a última, não seja vivida da minha parte com mais calma e disponibilidade para a Teresa.

Tem estado difícil. Seis meses passaram e ainda não consegui sentir um único pontapé da Rita. A excelentíssima esposa diz que a excelentíssima filha se mexe com fartura. E eu, nada. O tempo é o pior dos amigos: nunca está quando precisamos dele e não desgruda quando queremos que desapareça. Ora, sentir uma criança exige paciência de caçador. Que se faça silêncio. Uma mão colocada no local preciso. Toda a atenção concentrada na ponta dos dedos.

Só que de dia estou a trabalhar e a Teresa está na vertical. Ao fim-de-semana temos três putos agarrados aos nossos pescoços. E à noite estou tão cansado que mal chego à cama caio para o lado. Ando a sentir-me como aqueles pais dos filmes americanos que faltam ao jogo de futebol na escola do filho: a pobre da Rita a dar os mais espectaculares pontapés no líquido amniótico e eu a muitos quilómetros de distância. Desculpa, miúda. Tu não me vês. Tu não me sentes. Mas eu estou cá.

João Miguel Tavares
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