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“É um nível selvagem de diversão”

‘A Peça Que Dá Para o Torto’ tem poucas pausas para descansar do riso, garante Nuno Markl sobre a comédia que adaptou
Marta Martins Silva 9 de Fevereiro de 2020 às 10:00

Aquela que podia ser apenas uma peça sobre um assassinato misterioso no inverno de 1922, que acabaria resolvido por uma equipa de investigadores competentes, está longe de ser aquilo que se espera. O nome d’ ‘A Peça Que Dá Para o Torto’ – com estreia marcada para 12 de fevereiro no Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa – não é apenas designação para ‘inglês’ ver. O espetáculo faz jus ao que promete: é uma sucessão de desgraças hilariantes que acontecem quando menos se espera e que incluem portas encravadas, adereços fora do lugar, objetos a cair e atores que se esquecem das deixas e das posições, mas que avançam apesar do caos porque o show tem de continuar... mesmo que torto.

No fundo, esta é uma peça dentro de uma peça: as personagens pertencem ao Núcleo (amador) de Teatro da Sociedade Recreativa e Cultural do Sobralinho e estão nervosas e entusiasmadas porque finalmente vão poder apresentar a sua mais recente produção, ‘Crime na Mansão Haversham’. Mas depois de o público chegar e das luzes se apagarem o caos começa.

Ao trazer esta comédia para Portugal, a UAU, que tem aqui a sua maior produção de sempre e o seu maior investimento (cerca de 500 mil euros para seis meses de produção), adquiriu os direitos todos da peça num conceito que dá pelo nome de replica show. Nestes casos são adquiridos os desenhos de luz, som, cenário e guarda-roupa, o que faz com que a peça seja apresentada nos seus moldes originais e, por isso, coincida com as apresentações de, por exemplo, Londres, Nova Iorque e Madrid, sendo a única alteração a tradução do texto para português e a seleção do elenco – que foi escolhido numa audição ao longo de três dias, em junho, na qual participaram mais de cinquenta pessoas, desde a revista, ao teatro independente, à televisão, ao teatro amador – com atores nacionais.

Prevê-se que a peça fique em Lisboa durante cinco meses e todos os dias o cenário vai destruir-se para se voltar novamente a construir para o dia seguinte – só no décor o gasto é considerável. Para garantir a exatidão da réplica, a produção portuguesa foi encenada por Hannah Sharkey, da companhia inglesa, com a ajuda de um encenador residente português, Frederico Corado. A tradução e adaptação da comédia para português ficou a cargo de Nuno Markl, com quem falámos sobre ‘A Peça Que Deu Para o Torto’.

Quais foram os grandes desafios (e preocupações) na tradução e adaptação desta peça que deu para o torto?

A maior preocupação de todas é não estragar! O pessoal da Mischief Comedy entende a comédia como uma arte levada a cabo com uma precisão de ourives - que, na verdade, é como a comédia deve sempre ser feita - e isso tinha de transparecer na versão portuguesa. Ao mesmo tempo é sempre um desafio traduzir para português o espírito 100 por cento ‘british’ da peça… É preciso escolher bem as palavras. E houve alguns detalhes feitos para o público britânico que pediam ajuste de localização, de modo a serem compreendidos pelo público português. Mas foi tudo feito com extremo cuidado, para preservar totalmente o espírito original da peça.

Quando foi a Londres assistir ao espetáculo quais foram as suas impressões sobre a peça? Como descreve o texto original e a ideia por detrás dele?

Eu já tinha lido muito sobre a peça e há anos que tinha curiosidade em vê-la. Lembro-me de ver o JJ Abrams a falar entusiasticamente sobre ela num talk show, quando a levou para a América, e percebi que iria gostar muito daquele tipo de subversão. A magia está no conceito de peça dentro da peça: não estamos a ver uma peça normal. Estamos a ver uma peça sobre um grupo de atores que faz uma peça que corre horrivelmente mal, e essa ‘matrioska’ já é cómica em si mesma. Quando a vi em Londres, adorei - adorei aquela fusão entre a pompa de um mistério à Agatha Christie e uma destruição cómica quase à desenho animado dos Looney Tunes. É uma peça que faz rir não só pelo texto, mas pela interação dos atores com o cenário, que se vai demolindo sobre eles à medida que tudo vai correndo horrivelmente mal. Em Londres havia não só gargalhadas, mas, a dada altura, gritos de espanto com as desgraças que acontecem aos pobres atores. É tudo muito físico e arriscado!

Já assistiu aos ensaios em português? Qual a sensação de ver a sua tradução no palco?

Já assisti e fiquei muito entusiasmado. O elenco foi muito bem escolhido. Eu, que conheço o texto bem depois de ter visto a peça e de a ter traduzido, chorei a rir no ensaio, consegui distanciar-me e apreciar o trabalho dos atores e dos encenadores, o Frederico Corado e a Hannah Sharkey, como se não tivesse tido nada que ver com aquilo. Estou doido para ver a reação do público na estreia. Acho que ninguém está bem à espera da completa loucura que aquilo é.

Esta peça estreou em Londres há cinco anos e já passou, regressou ou ainda está a passar por mais de 30 países. Sentiu a responsabilidade de ajudá-la a fazer chegar ao público português?

Claro, e isso aterroriza sempre. O ‘The Play That Goes Wrong’ é um monumento de comédia, premiado e adorado. Mas foi maravilhoso termos cá uma pessoa da Mischief Comedy, a Hannah Sharkey. Trabalhar com ela por perto foi perfeito, até mesmo analisar com ela as tais adaptações ocasionais do texto a coisas que falassem ao público português. É trabalhar com um grau de precisão e perfeccionismo raros.

Já alguma vez tinha feito algum trabalho semelhante?

Tinha, e também para a UAU. A UAU deposita-me nas mãos missões de alto risco, mas felizmente tem corrido bem! Em 2007 traduzi ‘Os Melhores Sketches dos Monty Python’. De certa maneira foi mais assustador, porque, para mim, a obra dos Python é uma espécie de sagrada escritura da comédia. De novo, tive a sorte também de trabalhar com um elenco fenomenal, o António Feio, o José Pedro Gomes, o Bruno Nogueira, o Jorge Mourato e o Miguel Guilherme.

Quanto tempo demorou a fazê-lo?

É difícil contabilizar, porque a dada altura, e depois de fazer uma primeira versão, as afinações ao texto vão sempre acontecendo. Mas creio que a primeira versão terá sido feita num mês.

Ficou a simpatizar mais com alguma personagem?

É impossível não simpatizar com o Carlos, o diretor daquela companhia de teatro. É claramente um homem com sonhos e uma sede de se consagrar no teatro a sério, apesar de aquilo ser uma companhia de teatro amadora, de uma sociedade recreativa. Quando tudo começa a desmoronar-se e o vemos a tentar interpretar a personagem que faz na peça, o Inspetor, ao mesmo tempo que lhe percebemos no olhar a frustração e a fúria de tudo estar a correr mal, é impossível não rir muito dele e, ao mesmo tempo, sentir empatia com o desgraçado.

Durante o processo de tradução não sentiu vontade de se oferecer como ator nesta peça que dá para o torto?

Não, nunca! Teatro só está nos meus planos sob a forma de escrita ou tradução. Uma das coisas que me há de fascinar sempre é a capacidade dos atores de memorizar tanto texto. A minha memória é de peixe de aquário. Ao mesmo tempo, isto é uma peça tão fisicamente exigente que não tenho dúvidas de que acabaria hospitalizado ao fim do primeiro ensaio.

O que é que o público pode esperar desta peça?

Um nível absolutamente selvagem de diversão. Uma coisa quase heroica para os atores é o ritmo alucinante a que tudo acontece. Isso acaba por passar para o público: entre as piadas e o caos crescente que se gera em palco, há muito poucas pausas para descansar do riso. Felizmente há intervalo!

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