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EDIBERTO LIMA: VIVO COM O CORAÇÃO NAS MÃOS

Regressa ao primeiro plano com ‘Escândalos e Boatos’ e ‘O Crime Não Compensa’, ambos na SIC. Horas antes de este último estrear, falou-nos longamente de si, de televisão e da ‘clonagem’ na TV
31 de Janeiro de 2003 às 19:26
Sei que não quer falar do “Bar da TV” mas esta entrevista foi adiada porque no dia em que estava marcada, teve uma audiência no tribunal por causa desse programa.

Uma das concorrentes do “Bar da TV”, tinha uma filha a seu cargo e o pai da criança levou-a para parte incerta. Houve declarações dos familiares em directo. O pai não gostou e processou várias empresas envolvidas, incluindo a minha.

O “Crime Não Compensa” estreou na terça-feira. Como é voltar a trabalhar com o José Figueiras, tendo em conta que começou com ele no “Muita Lôco”?

É o retorno de uma velha amizade. Ontem disse-lhe: “Puxa Figueiras, nove anos depois do ‘Muita Lôco’, você vai começar uma nova fase da sua vida e quem sabe tornar-se mais maduro”. Gosto dele!

A sua ideia inicial era legendar o programa para que os telespectadores com deficiências auditivas o pudessem acompanhar.

Só não o fiz (ainda) por falta de tempo.

Quando estreia um programa não fica nervoso?

Não. Estou sempre muito tranquilo. Para mim, dia em que estreio um programa, é um dia igual aos outros. Tenho uma particularidade: diante de um grande desafio mantenho – sempre – a calma.

Isso é uma qualidade...

Talvez seja.

Lê tudo o que saí na Imprensa sobre si e os seus programas?

Quando consigo, sim. Não só sobre os meus programas mas sobre toda a televisão em geral.

Mas arquiva os artigos que falam de si?

Sim, guardo tudo. (risos) Tenho que mostrar alguma coisa aos meus netos, um dia vou dizer: “O vóvó fez isto”.

É verdade que as suas melhores ideias surgem de noites de insónia?

Sempre! As ideias surgem baseadas nos momentos que são só meus e isso acontece à noite. As insónias acabam por ser fundamentais para os criativos. Acredito que todos os criativos sofrem de insónias. Mesmo dormindo a nossa mente está criando... É comum acordar a meio da noite a anotar rapidamente aquilo que no sono me invadiu a mente.

Como é que relaxa a mente?

Meditando, correndo, fazendo desporto no ginásio e, infelizmente, depois de ter sido operado a uma hérnia discal, fui obrigado a abandonar o karaté. Mas quando lutava, também era uma forma de relaxar.

A TVI acusa a SIC e, neste caso os seus programas, de “puro clone”. Comentários...

O público vai ter oportunidade de comprovar que “O Crime Não Compensa” não tem rigorosamente nada a ver com “Eu Confesso” (na TVI). Mas de moda já vimos? A linha é a mesma, a forma de fazer é que é diferente.

As estações também “guerrearam” entre si por causa dos convidados para os programas que envolvem o crime.

Vou dar um exemplo: em Novembro estive em Tomar em casa de uma pessoa que queria ter no meu programa. Combinei tudo com ela e em cima da hora ela desistiu. Depois ainda leio que tentámos “roubar” um convidado de outro programa! Se alguém fez com que o nosso convidado preferisse ir a outra estação, só posso é lamentar o sucedido, mais nada. Quantas vezes chego primeiro e sou passado para trás? Infelizmente, nós produtores, vivemos permanentemente com o coração nas mãos.

Possivelmente porque somos um País pequeno e não há muito mercado para “explorar”.

Talvez você tenha razão. Mas talvez sejam coincidências. Penso que é muito duro, muito forte, alguém dizer “fulano está colonando o meu programa”.

Como é que “sobreviveu” a este intervalo longe das televisões?

Está-se a referir à travessia do deserto? Estive no Brasil e durante todo este período sempre alimentei o meu retorno com a entrega de novos projectos nas estações. Antes de me “retirar”, deixei muitos projectos espalhados por aí.

Quanto tempo é que esteve no Brasil?

Fui várias vezes, ia, voltava, ia... umas vezes de férias, outras em trabalho. Por exemplo, acertei umas coisa na TV Globo e vou produzir para eles. De resto, estive em Portugal, calmamente.

Especulou-se que tinha feito um retiro espiritual.

Não faço retiros espirituais, mas sou espiritualista. Obviamente que tenho os momentos de meditação mas não sou monge (risos)... e estou longe de ser!

Que idade é que tem?

Tenho 50 anos.

A sua família continua a trabalhar directamente consigo? A ideia que tenho é que vivia numa espécie de “empresa familiar”.

Não lhe chamaria empresa familiar, diria que a minha ex-mulher e a minha filha mais velha trabalham comigo porque são competentes. Quem me conhece sabe que sou muito rigoroso.

Estamos a falar do seu lado profissional?

Sim. Há dois Edibertos: O que está fora do estúdio e que é um Ediberto que é pai, mãe, amigo, irmão, é tudo na vida das pessoas.

Mas depois há o Ediberto dentro do estúdio.

Aí, transformo-me. Talvez pela responsabilidade que tenho, dentro do estúdio quero dedicação total, não permito que as pessoas falhem. Se eu não posso falhar em nada, porque é que uma pessoa que só tem que carregar num botão, no minuto de o fazer, falha?

Isso significa que já teve que despedir muita gente?

Não, eu nunca despeço muita gente porque, felizmente, tenho a capacidade de pôr as pessoas certas no sítio certo. Mas às vezes irrito-me porque, infelizmente, confronto-me com pessoas que negligenciam o trabalho.

Como é que selecciona as pessoas que trabalham consigo?

É difícil responder mas, na maioria das vezes, é porque as pessoas me foram recomendadas ou indicadas.

Um dia disse que a sua empregada doméstica percebia mais de programação do que a Maria Elisa. Actualmente, quem é que percebe de programação?

Tendo em conta a crise em que vivemos, acredito que os programadores das nossas três estações estão a fazer um óptimo trabalho.

Há quantos anos está em Portugal?

Desde 1994, ou seja, há nove anos.

O que é que (ainda) gostava de fazer?

Faço exactamente aquilo que gosto.

E um sonho por concretizar?

(risos) Nós sonhamos todos os dias. Cheguei a uma fase de maturidade da minha vida em que praticamente já fiz tudo o que tinha para fazer...

Sempre vai lançar um livro em Junho?

Se conseguir ter tempo para o escrever, em Junho estará pronto. É sobre a minha vida no mundo da televisão.

É uma espécie de biografia profissional?

Sim, são os meus erros e os meus acertos. Acredito que talvez seja um livro bom para ser consumido pelos estudantes de comunicação.

O “Super Sábado” foi um erro?

Foi, sem dúvida alguma... mas conto tudo no livro, se não acabava a surpresa.

Há diferenças entre o telespectador português e o brasileiro?

Não, nenhuma. Somos todos latinos, temos todos os mesmos gostos.

De que é que tem saudades do Brasil?

De nada. Absolutamente de nada!

Tem consciência que em menos de uma década construiu um pequeno império?

(risos). Não! A única consciência que tenho é que nos últimos nove anos trabalhei e trabalho muito.

O Ediberto é uma pessoa curiosa: é um grande apreciador de música clássica mas, simultaneamente, também gosta de géneros mais populares.

(risos). É a diferença entre o meu lado profissional e pessoal. A música clássica acalma; é uma música profunda, com compassos perfeitos e que trabalha o nosso interior. Na minha vida pessoal, não abdico da música.

Que outras características fazem parte do “Ediberto, lado pessoal”? Gosta, por exemplo, de teatro ou de cinema?

Adoro teatro! Sempre que vou ao Brasil vejo peças de teatro. E mesmo em outros países. É óptimo para “reciclar” a mente. Cinema? De vez em quando vou, mas tenho aquele defeito profissional em que me ponho imediatamente a ver os pormenores de realização, as imagens, a fotografia. Tenho uma vida profissional intensa e nas horas de lazer aprecio a tranquilidade do lar – é uma forma de recuperar energias.

E de preferência junto ao mar...

É verdade. Aos fins-de-semana, por exemplo, vou para perto do mar passear com os cães, ou fico em casa a ler ou a ver televisão. Confesso que sou telemaníaco! E corro cerca de 20 quilómetros por semana. Não é fácil chegar aos 50 anos assim sem barriga!

Como é que seria o seu fim-de-semana (em lazer) ideal?

Na praia, rodeado de todas as pessoas que mais amo no mundo.
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