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Eles acham que sabem dançar

O júri do concurso da SIC disse-lhes que eram maus, gordos ou não tinham idade. Não importa
13 de Junho de 2010 às 00:00
Sérgio Alegria largou a enfermagem pela dança. Não tem importância que o júri não tenha optado por ele
Sérgio Alegria largou a enfermagem pela dança. Não tem importância que o júri não tenha optado por ele FOTO: Mariline Alves

Depois de apresentar a coreografia "de jazz misturada com danças latinas" no casting do programa de televisão ‘Achas que Sabes Dançar?’, André Marques não estava preparado para as gargalhadas que o júri não controlou durante a avaliação ao seu desempenho – mas diz que achou justo o veredicto. Aquilo que para muitos podia ter sido uma humilhação pública não desarmou o jovem de 18 anos, do Montijo, antes o incentivou, por estranho que pareça aos olhos dos outros. "Fiquei entusiasmado depois do programa e vou lutar pelo meu sonho, agora quero aprender clássica para ganhar bases". Se lutar pela dança como aprendeu a combater o desemprego dos pais – com dois trabalhos que lhe ocupam o dia e parte da noite, tem de se lhe tirar o chapéu.

"Sou animador sociocultural durante o dia e à noite estou na caixa de um supermercado. Desde os 16 anos que trabalho". Há dois anos entrou para um grupo de danças de salão mas desistiu porque o tempo não esticava. No programa passou dois pré-castings – não mostrados – mas tropeçou no terceiro, onde teve de ouvir ‘não te enquadras, não mostraste nada’. Para o psicólogo clínico Hugo Santos, "neste fenómeno frequente a que assistimos na televisão, é importante ter em conta o ganho socialmente muito valorizado que existe em ter uns minutos de fama, mesmo que seja pela negativa. Diversas experiências demonstraram que nos afectos é preferível ter atenção do que ser esquecido".

Carlos Romano, de 25 anos, natural do Cacém, ponderou a participação mas decidiu avançar, embora não para muito longe porque cedo foi eliminado. "As pessoas acharam injusto, mas eu estava à espera de não ficar porque nasci com influências românticas do século XIX e que não são reconhecidas: devia ser barroco ou renascentista para ter mais sorte", revela o também pintor, que dançou com uma rosa na boca – traço do tal romantismo que lamenta mas não consegue ignorar de forma alguma.

MENOS UM ENFERMEIRO

Sérgio Alegria não conseguiu censurar o chamamento da dança que ouviu há apenas dois anos. "Joguei futebol durante dez anos mas larguei por causa de uma lesão. No início não tinha jeito nenhum para dançar. Treinei muitas horas até conseguir ver algum fruto", confessa sem pudor o barreirense de 19 anos, professor de hip-hop no bairro do Vale da Amoreira.

A participação no programa levou Sérgio à audição final – foi eliminado no seu próprio estilo, o que o deixou "muito desiludido" – e mostrou-lhe um caminho a não seguir. "Desisti do curso de Enfermagem porque percebi que ser bailarino é o que tem a ver comigo. Estou a ver se entro na Escola Superior de Dança para investir a sério. Não tenho medo do futuro porque acho que para os bons bailarinos vai haver sempre lugar, mesmo que seja no estrangeiro. Os meus pais ficaram apreensivos mas sabem que eu seria um frustrado se não corresse atrás do sonho". Se a dose televisiva se repetir já tem planos: "dormir uma semana no local do casting para ser o primeiro".

Salomé Morais, da mesma idade, promete fazer-lhe concorrência nesse intento. "Se houver mais edições vou chegar a finalista, fecho os olhos a tudo". O tudo é o curso de Psicologia que vai no 2º ano mas não a preenche de igual forma. "Tenho estado a balançar: custa muito não poder dedicar-me a 10o%". No palco chegou às audições finais mas foi eliminada.

"Nem dormi antes dos castings de tanto entusiasmo, mas foi horrível quando me disseram que não continuava, nunca me senti tão mal na minha vida, estava a viver um sonho". Um sonho que nasceu "há muito tempo. Andei no balê durante muitos anos e sempre fiz desporto. Para mim a dança é um comprimido relaxante". Há três anos, depois de ver filmes como ‘Dirty Dancing’ e ‘Dancing with Me’ – que lhe atiçaram ainda mais a vontade – inscreveu-se com o par numa escola de danças de salão mas enfrentou a oposição inicial dos pais. "Como em Altura não havia escola íamos para as aulas em Tavira de transportes".

FÍSICO ATRAPALHOU

Quando um dos membros do júri, depois de a ver dançar, lhe disse: ‘o nome deste programa – ‘Achas que Sabes Dançar?’ – tem uma interrogação’, Maryline Pavoeiro percebeu a deixa e assumiu a falta de formação na área. Defeito que não a impediu de, em França, onde nasceu filha de pais portugueses, ter dançado "com artistas portugueses como Tony Carreira e Ágata, nos concertos". Isto antes de passar por duas gravidezes. "Em Portugal é preciso ter corpo e eu neste momento não tenho, sei disso. Mas a dança sempre foi um sonho". A técnica de vendas internacionais, de 31 anos, pertence, em Alcobaça, a um grupo com quem faz apresentações de dança contemporânea e hip-hop.

Já Bela Ribeiro, de 18 anos, não lembra bem o estilo de música que dançava nas "festas da aldeia" – baralha-se entre o jazz e o hip-hop – mas diz que foi aí que tudo começou. Há um ano dedicou-se às danças de salão e sente que encontrou um futuro risonho. O facto de dançar há tão pouco tempo não a desanima: "dizem que eu tenho talento por isso deve ser verdade". A prima, Ana Rita Santana, um ano mais nova, concorreu com ela mas chegou mais longe. "Fui eliminada na audição de jazz, estilo que nunca tinha dançado, mas estou nas danças de salão já há oito anos".

Enquanto Bela se prepara para ingressar na faculdade, em Desporto, Ana Rita congelou a matrícula na escola e agora toma conta de bebés. "Mas apesar de ser babysitter quero ser bailarina; até costumo ir a campeonatos no estrangeiro".

ESTRANHAS PROFISSÕES

Entre os milhares de candidatos a bailarino favorito dos portugueses – como apregoa o slogan – estavam concorrentes com as mais diversas profissões que foram tentar a sorte noutros passos. Cátia Antunes, a stripper de Loulé, foi das mais surpreendentes. Sandra Sobral, que imitou a colombiana Shakira, ficou conhecida como uma das grandes "cromas" do programa e terá tido uma depressão depois de falhar no casting, também. Houve quem fosse com o cunhado, quem tenha dançado à moda das tribos africanas, quem tenha escolhido ser diferente. Bianca Chica, de 17 anos, levou as danças ciganas que aprendeu na Roménia natal – de onde saiu há quatro anos – mas foi tramada pelo tornozelo. "Na coreografia não aguentei as dores e saí". A lesão não a preocupa porque tem planos diferentes do palco. "Quero seguir Direito ou entrar nas Forças Armadas" – é a excepção do lote sonhador.

Ia Bekauri também chegou a Portugal há poucos anos. Veio da Geórgia, onde casou e teve a primeira filha, mas o marido a trabalhar em Portugal foi mais forte do que as raízes. "Lá dançava profissionalmente, ganhava muitos campeonatos e também estudei Psicologia e Representação. Agora não estou a fazer nada; Portugal não tem nada para mim". Há sete anos que não dançava quando viu o anúncio do programa na TV e tamanha paragem não impediu que chegasse aos 53 finalistas – viu a luz ao fundo do túnel. "Achei que era uma oportunidade de voltar ao mundo da dança, foi pena não ter conseguido", diz a jovem de 26 anos.

GERIR EMOÇÕES

O psicólogo Hugo Santos considera que após uma expectativa gorada "todos nós temos estratégias de auto-regulação emocional e de ultrapassar essa frustração que vamos desenvolvendo ao longo da vida. Poderemos até ultrapassá-la com ganhos positivos". Tatiana Veríssimo sucessivamente conheceu desilusões no que à dança respeita. "Fui recusada duas vezes no Conservatório e, dois anos depois de ter conseguido entrar, mandaram-me embora dizendo que eu nunca seria uma bailarina. Quer pela minha altura quer pelo meu peso – nunca fui gorda mas também nunca fui magra". Tatiana chegou aos 35 finalistas e, apesar de não ter entrado para o top 20, a participação reservou-lhe uma boa coreografia: substituiu uma das bailarinas escolhidas para o programa, numa revista do Parque Mayer. Tem 22 anos mas o prazo de validade não a preocupa: "agora vou dançar, depois ensino e coreografo".

A coreógrafa Olga Roriz admite que "as carreiras dos bailarinos em Portugal não são lineares – há muitas companhias mas que não têm capacidade financeira. E dançar é mais difícil do que cantar: é preciso o corpo todo e ter a máquina bem afinada".

Márcio Pereira e Filipa Gaio sabem disso: ele dança há cinco anos, ela há onze. Participaram juntos e foram eliminados na mesma audição: a de hip-hop. Ela estuda Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica, ele Engenharia Biomédica mas têm uma escola onde ensinam danças de salão. Márcio admite que sustenta a formação em dança com "espectáculos e shows em casamentos". Porque os bailarinos que não pertencem às companhias têm de agarrar oportunidades em televisão, digressões de cantores ou acções comerciais como os flashmobs.

"Quem dança para o La Féria é que tem mais possibilidade de ganhar melhor, um pouco mais de 1000 euros", revela sob anonimato um bailarino. Mesmo assim, as gémeas Ana Sofia e Ana Paula, de 20 anos – eliminadas em momentos diferentes – sonham com um futuro na arte. Dançam há sete e respondem de forma semelhante ao gosto: "a liberdade de expressão". Estudam Desporto para terem uma alternativa. "Como não é fácil esperamos conciliar com o ensino da Educação Física".

Carolina Gomes, que chegou aos 53 finalistas, tem 16 anos mas convicções de gente grande. "Quando acabar o 12º quero entrar na Escola Superior de Dança e ir para o estrangeiro: é mesmo isto que eu quero fazer da minha vida". Os pais apoiam a única filha embora nunca tenham acreditado que passasse o primeiro casting. "Estamos cá para a apoiar no que ela decidir no futuro. Antes é que ser doutor ou engenheiro dava garantias, agora qualquer área mete medo aos pais", explica a mãe, Bárbara. E sonho que é sonho não desiste de dançar. 

"ELES DISSERAM QUE TU NÃO ÉS BAILARINO?!"

A mãe de João Pereira foi uma das protagonistas dos castings pela indignação que demonstrou pelo facto de o filho não ter passado o casting. Portugal inteiro [melhor, os portugueses que vêem o programa] lembrar-se-ão com certeza da deixa desta mãe: ‘eles disseram que tu não és bailarino? Se não és bailarino és o quê?’.

Teresa, a mãe, assume o orgulho que tem no filho. "Apoio todos os sonhos dele e gosto muito de o ver dançar. É pena a dança ser um desporto para ricos praticado por pobres" – acusa, admitindo os preços elevados das aulas de dança. A esta mãe custa muito, está desempregada desde Outubro e é visível o esforço que faz para que o filho continue as aulas de danças de salão. O júri não teve a mesma opinião da mãe sobre a performance do filho mas ele não se foi abaixo.

"Participo em competições e já ganhei alguns primeiros prémios", diz o jovem de 18 anos, a concluir um curso de técnico de marketing. "Gostava muito de ir para Inglaterra dançar porque aqui, nós os artistas, não somos muito valorizados. Quero cumprir este sonho de vida e vencer lá fora". Teresa, a mãe, estará sempre lá para o apoiar. "Vai ver todos os meus espectáculos e sem ela lá nem me sentia tão seguro. É uma grande apoiante e sempre me incentivou". Só lamenta não ter ido mais além no concurso: "fiquei desanimado mas já passou".

NOTAS

IDADE

"O ideal para a profissão é começarem a dançar com 10, 11 anos", explica Olga Roriz.

CARREIRA

Bailarinos em Portugal sobrevivem nas companhias, nos programas de TV, nas acções comerciais e em digressões com cantores.

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