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Correio da Manhã

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ELES FORAM CHAMADOS

Têm dúvidas e convicções iguais às nossas, mas decidiram dedicar a vida à Igreja, trocando a família, o sexo e a liberdade pela sua ideia de Deus. Cinco histórias que retratam bem os jovens clérigos em Portugal, na semana em que chega até nós a polémica adaptação ao cinema de ‘O Crime do Padre Amaro’, de Eça de Queiroz
8 de Novembro de 2002 às 20:39
Parece irónico mas é verdade: Portugal, um País que passou séculos a evangelizar o Planeta, vê-se agora na contingência de perder os seus próprios evangelistas. De acordo com o Patriarcado de Lisboa, os 250 padres da Capital portuguesa estarão reduzidos a metade em apenas dez anos. Só com “um golpe de graça” a situação mudará, afirmou recentemente um porta-voz da Igreja, pedindo que se rezasse pelas vocações. Mas haverá solução? O que tem a Igreja, hoje em dia, para oferecer aos jovens portugueses em troca da entrega total da sua vida?

“As pessoas já não têm gosto na Igreja”, lamenta Filipa Alexandre, freira dominicana. A situação portuguesa torna-se ainda mais grave quando comparada com aquilo que se passa no Brasil e em Angola, onde todos os dias surgem mais jovens – homens e mulheres – para habitar seminários e conventos. Nesses países, defendem alguns, a Igreja está próxima das pessoas, enquanto aqui isso não acontece. Mesmo assim, acredita Filipe Rodrigues, frade dominicado, “as coisas mudaram muito, para melhor, nos últimos 40 anos”. Mas uma instituição tão pesada segue necessariamente devagar. E não correrá o risco de chegar demasiado tarde para acompanhar a ‘correria’ do mundo?

Cinco representantes de diferentes ministérios eclesiásticos falaram ao Domingo Magazine sobre a sua vocação, as suas convicções e as suas dúvidas. Frades, freiras e padres juntaram-se numa análise pessoal que procura, em última instância, compreender o mundo contemporâneo à luz da fé.

“Se tivesse uma mulher, passava a vida a traí-la”

José Carlos Almeida
Frade
Natural de Vila Nova de Tazém, Gouveia
34 anos
Ex-professor de Religião e Moral

O frei José Carlos só agora decidiu que era necessário estar mais livre para ajudar os outros. Fez os votos há um mês e diz que esta escolha tem algo “de inexplicável”. Sabe apenas que quer ajudar os homens e, aí, encontrar a felicidade. Um dia, quando nem era muito crente, deu por si a ler uma passagem do Evangelho e a olhar para um crucifixo – e então percebeu que estava ali um homem morto por um conjunto de ideais que era necessário pôr em prática. “Porque é que ele há-de estar ali sozinho?”, perguntou-se. Nunca se arrependeu, mas já passou por momentos difíceis. Sobretudo ao nível da comunidade, porque são muitas maneiras de ser diferente, o que origina tensões. Superado isso, compreendeu o que é ser-se irmão e colmatou a impossibilidade de constituir família. Quando se lhe pergunta como lida com o impulso sexual, encolhe os ombros e sorri: “Sabemos que somos chamados a amar. Se não o podemos fazer procriativamente, fazêmo-lo de outro modo.”

Deixa a questão do final do celibato ao critério de cada um mas optou por não dirigir a sua afectividade a uma pessoa só: “Parece-me que se tivesse uma mulher, andaria sempre a traí-la com outras! Farto-me depressa… É melhor não ter nenhuma.” (risos).

E se fosse mentira? Se Jesus Cristo nunca tivesse existido? “O que importa é esse amor e essa felicidade que posso dar às pessoas e elas a mim. Esse amor existe de certeza”, garante.

“Apaixonei-me por Jesus Cristo”

Filipa Alexandre
Freira
Natural do Quanza Norte (Angola)
36 anos
Ex-catequista

A irmã Filipa já passou quatro meses dos seis anos que planeia estar em Portugal. Vem em serviço à casa-mãe da congregação e para estudar na Universidade Católica. Já era catequista aos 13 anos, aos 15 entrou para o convento, e aos 21 fez os votos. Agora, tenta valorizar-se espiritualmente. Ao princípio, a sua família via com bons olhos a ida para um lar religioso. Mas, quando a sua mãe faleceu, tinha ela 12 anos, o pai já pensava de outro modo. Contudo, Filipa “sentia que qualquer coisa inexplicável”, que a “queimava por dentro”. E era-lhe impossível recuar. Gostava do carinho e da atenção das freiras e, com o tempo, apaixonou-se por Jesus Cristo.

Sobre a ideia de um chamamento, é clara: “Eu era a mais nova daquelas 24 meninas e nenhuma delas sentia aquilo que eu sentia. Fui a única que se tornou irmã. Elas casaram e são felizes, mas eu também sou.”

Não tem pena de não saber o que poderia ter sido a sua vida noutras circunstâncias. “Isto é uma opção tão pensada que já não conhece dúvidas.” Como outros, diz que tenta sublimar os seus desejos e torná-los em amor, para partilhar com aqueles que ajuda. A ordenação das mulheres também não é a sua luta, porque, de momento, há funções para homens e mulheres e essa ideia deve ser amadurecida.

Em Angola, diz, a Igreja é muito aberta, vai ao povo e o povo a ela. No fundo, há receptividade para as questões morais e éticas, porque tudo é novo. Quanto mais o sistema marxista proibiu as pessoas de irem à missa, mais elas foram. Foi a paz possível, no meio da guerra.

“Já me arrependi várias vezes”

Marco Gomes
Padre
Natural de Santa Maria, Açores
30 anos
Ex-estudante de Eng. Electrotécnica, no IST

Marco Gomes ganhava vinte contos por dia a dar um curso de Informática, estudava e tinha uma namorada de quem diz ainda gostar. Até uma noite em que, entrando para um táxi no Campo Grande, em Lisboa, perguntou a um amigo padre: “Achas que conseguiria ser padre? Que aguentava seis anos de seminário? Não, nem pensar!” Conforme o disse, viu justamente o contrário. Acabou o namoro e diz que, ainda hoje, ele próprio não compreende bem porquê. Foi ganhar 750$00 por hora em explicações de Matemática, para se sustentar, e entrou no seminário. Era o dia do seu vigésimo segundo aniversário. “Não se trata de escolher, mas de aceitar ter sido escolhido.” Viria a ordenar-se no ano 2000.

“Já me arrependi várias vezes”, confessa. Mas tudo aquilo por que optou é uma aventura, com dissabores e coisas extraordinárias: o contacto com as pessoas e a forma verdadeira como elas o abordam. É por isso que não perdeu nada: ganhou. “Sou mais livre e mais feliz. Realizo-me. Eu ‘sou’ padre, não é apenas algo que ‘faça’.”

Não é só a Igreja que está descaracterizada, segundo ele. Há uma falência de todo o homem contemporâneo, causada pelo neo-liberalismo. “O tempo em que vivemos traz consigo uma série de funerais: o da família, o da palavra, da honra, dos sentimentos”, explica. Mas há coisas a mudar: a organização universal a partir do Vaticano, a organização local, a organização paroquial e o facto de tudo estar assente sobre os clérigos. Marco é a favor da ordenação das mulheres, mas acha que nada é mais contrário ao ser padre do que a possibilidade de eles se casarem.

Com a mesma sinceridade, diz que já sentiu pena de não poder ter uma família. “Desde o dia em que entrei que o sinto. Mas as coisas são assim mesmo: vêm com o pacote. O modelo que comprei não traz essas modalidades.”

“O desejo sexual permanece”

Filipe Rodrigues
Frade
Natural de Lisboa
26 anos
Ex-animador social em Chelas

Quando aos 18 anos Filipe entrou para o convento, havia já um conjunto de circunstâncias na sua vida que levavam a que se impusesse dar este passo: a educação dada pela família, a missa ou os grupos de jovens, entre outros. Por isso, hoje, com os votos perpétuos feitos há três anos, Frei Filipe Rodrigues não encontra o momento exacto em que tenha decidido ser religioso. “É um corolário. Chegamos a um ponto em que pensamos: ‘Porque é que não faço uma consagração plena?’”
Isso significava ser um sinal de Cristo, tentar viver o Seu exemplo, ser Seu testemunho. O que tanto podia ser executado numa paróquia como num convento. E o que o atraiu num convento, mesmo, foi a vida em comunidade. Filipe não queria ser padre e estar sozinho numa paróquia. “Era-me difícil estar só. Não era uma coisa que quisesse para toda a vida”, confessa.

Hoje, Filipe afirma que não perdeu nada ao tomar esta opção. Foi ele que a quis, não uma imposição. Os votos que fez – pobreza, castidade e obediência – servem também para dar um sinal às pessoas de que existem coisas superiores a uma família ou a uma carreira. Este frade dominicano não nega que o desejo sexual permanece sempre. Mas diz que há que sublimá-lo e, em vez de ir a correr satisfazê-lo, conduzi-lo a outras realizações, embora com a consciência de que dois mil anos de história da Igreja mostram que nem todos o conseguem. “Não podemos pensar que, tendo feito os votos, estamos livres de tudo, que os votos não são um guarda-chuva”, brinca.

Se o fim do celibato vier, Filipe não se opõe, visto que os apóstolos eram todos casados. Mas também não acredita que isso traga mais jovens para os seminários. “Ninguém está nisto para ter vidas duplas, porque não consegue. A outra pessoa nunca o suportaria. O contrato que nós fazemos não se rescinde: é um compromisso entre nós e Deus.” A solução pode, antes, passar pelos ministérios laicais, isto é, leigos que ficarão à frente das comunidades, libertando os padres apenas para os sacramentos.

“O meu namorado chorou”

Rosilene Linares
Freira
Natural do interior de S. Paulo, Brasil
35 anos
Ex-estudante num convento

Entrou para o convento aos 18 anos, fez os votos aos 21 e chegou a Portugal há um mês, para apoiar a congregação e fazer um doutoramento. A irmã Rosilene veio pelo caminho oposto ao que seria de esperar: contra a sua família e sem a pressão de outras freiras. Quando tomou a sua decisão, tinha um namorado que, conta, “chorou e não compreendeu” as suas razões. Mas para ela não era nada sério, ao passo que este chamamento não tinha forma de ser recusado.

No seu grupo, eram 34 meninas candidatas a freiras. Ela não o era. Mas quis o destino ironizar e fazer dela a única que, de facto, consumou esse projecto. Era o coração que lhe pedia. O que a atraiu diz, era “o estilo de vida, a capacidade que via nas irmãs de serem educadoras, atenciosas, mães.” E sabe que “não é possível casar com todos”, pelo que não tem pena daquilo que nunca poderá fazer. De resto, como as outras irmãs, Rosilene tem muitos filhos que adoptou: as crianças de quem cuida, os jovens com quem conversa… Todos terão tido uma mãe biológica, mas quem é, agora, a verdadeira mãe?
Acerca da descaracterização da Igreja, Rosilene diz que no Brasil não é assim. “Lá, a Igreja está mais próxima das pessoas. Há sempre muitos jovens nas comunidades”, explica.

Apesar de tudo, pensa que, mesmo em Portugal, a situação mudará, porque todo o ser humano sente a necessidade de estar ligado a algo maior. Mas alerta: “Se a Igreja se fechar ao questionamento individual, essa crise acontecerá. Se ficar entre as paredes do seu templo, não compreenderá as necessidades do mundo. Ela tem de caminhar ao lado das pessoas.” Acerca da ordenação das mulheres, diz, sorrindo, que “elas dariam conta do recado.”
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