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Correio da Manhã

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Os portugueses que olharam pelo Papa João Paulo II

As histórias daqueles que seguiram os passos do sumo pontífice em Portugal.
Marta Martins Silva, José Carlos Marques e Vanessa Fidalgo 1 de Maio de 2011 às 22:00
Em Maio de 2000 Alexandre Figueiredo pilotou o Santo padre no voo Lisboa-Fátima-Lisboa
O padre Feytor Pinto ajudou o Papa a falar português em 1982
Gamito comandou 2000 agentes da PSP na visita de 1982
João Rucha Pereira foi responsável pela segurança de João Paulo II desde 1986
A irmã Noémia arrumou e limpou o quarto de João Paulo II em 2000
Jorge Van Zeller na joalharia de família que fabricou a jóia, símbolo da instituição dos mistérios luminosos no jubileu de João Paulo II
Francisco Figueiredo levou a imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Vaticano em 1984
A anestesista fez parte da equipa médica que acompanhou o Papa em 2000
Antigo motorista de Ramalho Eanes conduziu o Papa na primeira visita a Portugal
Em 1991 Paulo Lagarto tocou a rebate o sino do Mosteiro dos Jerónimos durante 3 horas
Almeida Bruno era o comandante-geral da PSP em 1982 e controlou a segurança de proximidade
Vassalo foi escolhido para conduzir o Papa na Madeira mas só viria a fazê-lo em Angola
Em Maio de 2000 Alexandre Figueiredo pilotou o Santo padre no voo Lisboa-Fátima-Lisboa
O padre Feytor Pinto ajudou o Papa a falar português em 1982
Gamito comandou 2000 agentes da PSP na visita de 1982
João Rucha Pereira foi responsável pela segurança de João Paulo II desde 1986
A irmã Noémia arrumou e limpou o quarto de João Paulo II em 2000
Jorge Van Zeller na joalharia de família que fabricou a jóia, símbolo da instituição dos mistérios luminosos no jubileu de João Paulo II
Francisco Figueiredo levou a imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Vaticano em 1984
A anestesista fez parte da equipa médica que acompanhou o Papa em 2000
Antigo motorista de Ramalho Eanes conduziu o Papa na primeira visita a Portugal
Em 1991 Paulo Lagarto tocou a rebate o sino do Mosteiro dos Jerónimos durante 3 horas
Almeida Bruno era o comandante-geral da PSP em 1982 e controlou a segurança de proximidade
Vassalo foi escolhido para conduzir o Papa na Madeira mas só viria a fazê-lo em Angola
Em Maio de 2000 Alexandre Figueiredo pilotou o Santo padre no voo Lisboa-Fátima-Lisboa
O padre Feytor Pinto ajudou o Papa a falar português em 1982
Gamito comandou 2000 agentes da PSP na visita de 1982
João Rucha Pereira foi responsável pela segurança de João Paulo II desde 1986
A irmã Noémia arrumou e limpou o quarto de João Paulo II em 2000
Jorge Van Zeller na joalharia de família que fabricou a jóia, símbolo da instituição dos mistérios luminosos no jubileu de João Paulo II
Francisco Figueiredo levou a imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Vaticano em 1984
A anestesista fez parte da equipa médica que acompanhou o Papa em 2000
Antigo motorista de Ramalho Eanes conduziu o Papa na primeira visita a Portugal
Em 1991 Paulo Lagarto tocou a rebate o sino do Mosteiro dos Jerónimos durante 3 horas
Almeida Bruno era o comandante-geral da PSP em 1982 e controlou a segurança de proximidade
Vassalo foi escolhido para conduzir o Papa na Madeira mas só viria a fazê-lo em Angola

A minha filha ainda guarda o autógrafo do João Paulo II", recorda João Serra, o homem que conduziu o Papa na sua primeira visita a Portugal. Sargento-mor do Exército, estava ao serviço do Presidente da República Ramalho Eanes quando foi escolhido. Hoje, aos 74 anos, recorda o percurso percorrido a 12 de Maio de 1982: "Do aeroporto à Sé, guiei o Rolls-Royce, que está no Museu do Caramulo. Depois, da Sé para a Presidência da República, já se usou um carro fechado, o Mercedes da Presidência da República, que ainda era do tempo de Américo Thomaz", lembra João Serra, um dos portugueses que cuidaram do Papa que hoje será beatificado.

"Sua Santidade teve um gesto que jamais esquecerei. Ao entrar no carro, cumprimentei-o e respondeu-me com uma vénia. Depois, à despedida, como estava fardado, fiz continência, e Sua Santidade estendeu-me a mão". Inspirado, João Serra ousou pedir um autógrafo para a filha de seis anos: "Peguei num jornal com a foto do Papa e como ele não sabia onde havia de posar o papel dei--lhe as costas para escrever. Mas foi no vidro traseiro do carro que o pousou e assinou".

Também a pensar na filha, o general Almeida Bruno - então comandante-geral da PSP - pediu a bênção ao Santo Padre: "Ela tinha acabado de nascer e também por isso quis falar com João Paulo II a sós. Tivemos uma conversa de cinco ou dez minutos e ainda guardo um certificado assinado por ele". O atentado que João Paulo II havia sofrido um ano antes na praça de São Pedro, em Roma, era motivo de "preocupações redobradas". Já o incidente em Fátima, quando Juan Krohn tentou atacar João Paulo II, foi considerado "esporádico". Para Almeida Bruno, o padre espanhol não foi motor de preocupação para a visita de quatro dias: "As pessoas queriam aproximar-se e o Santo Padre gostava de se aproximar das pessoas. A preocupação era com as normas de segurança".

Também o padre Feytor Pinto, coordenador da Acção Pastoral, esteve com o Papa João Paulo II em Maio de 1982. "O arcebispo disse-me:'O Papa quer falar contigo em português, quer treinar a língua para dizer as homilias; podes falar com ele?'". Assim foi e à mesa aproveitaram para conversar, nomeadamente sobre a viagem a Coimbra. "Disse-lhe que os jovens académicos e que toda a gente se tratava ali por malta. Quando chegou disse: ‘Olá malta!'"

Nesse ano, em Lisboa, mais de um milhão de pessoas acorreu ao Parque Eduardo VII. O superintendente Baltazar Gamito comandou dois mil agentes da PSP na primeira visita de Sua Santidade ao nosso País. "Depois do Papa sair do aeroporto, fui esperá-lo ao cruzamento da av. de Roma com a av. do Brasil. Vim a pé ao lado do jipe, até ao Parque Eduardo VII. Quando a visita acabou, tinha os pés em bolhas".

VIAGEM A ROMA

Dois anos depois da primeira visita a Portugal, era a vez de Francisco Figueiredo viver um momento que ainda lhe mareja os olhos - o 24 de Março de 1984, data em que partiu da Cova da Iria na comitiva que foi levar a imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Vaticano, a pedido de João Paulo II. O bispo de Leiria-_-Fátima, D. Alberto Cosme do Amaral, tinha estado em Roma e o Papa pedira-lhe que lhe levasse a imagem da Virgem, para a Consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Maria, tal como havia sido pedido aos pastorinhos nas Aparições.

"Quando se soube cá, já a imagem estava em Itália", revela Francisco Figueiredo, na altura presidente da Associação de Servitas de Fátima. "Quando colocámos a imagem na sua capela, ajoelhou-se a rezar e, segundo se disse, ficou ali toda a noite em oração". Antes do regresso a Portugal, o Papa entregou à comitiva a bala do atentado de 1981, depois cravada na coroa da Virgem Maria.

Entre a primeira e a segunda visitas de João Paulo II a Portugal, o Santo Padre conheceu um português. "Em Maio de 1986, sou chamado ao Vaticano pelo Papa. Fiquei muito admirado", recorda João Rucha Pereira, que era co-presidente de um organismo internacional de consultores de criminologia e segurança, com sede em Roma. Nesse encontro é convidado para ser o responsável pela segurança de João Paulo II. "Eu só chorava. Mas depois disse: ‘Há muita coisa a mudar. Uma delas é acenar à multidão em carros descapotáveis, pois foi assim que morreu o presidente Kennedy'. E surgiu a ideia do papamóvel blindado".

OS VOOS DO PAPA

Em 1991, foi num Airbus 310 da TAP que o Papa João Paulo II se deslocou aos Açores. José Fonseca, hoje com 59 anos, era responsável de cabina e o único com acesso ao compartimento criado para receber João Paulo II: "Sua Santidade esteve recolhido, quase sempre em oração. No final, tratava-me por José. Senti-me minúsculo".

Um Santo Padre nunca anda sozinho. Henrique Mota, responsável da editora Principia e um dos mil peregrinos que em 1983 foi a Roma agradecer a 1ª visita do Papa a Portugal, acompanhou João Paulo II após o seu encontro com a Irmã Lúcia, na Casa de Nª Sª das Dores. "Marcou-me muito. O organizador geral da visita, o padre Tucci, jesuíta, disse-me: ‘Agora acompanhas tu o Santo Padre até à próxima sala onde ele vai estar'. E o tema da conversa foi a minha família e o meu terceiro filho, que tinha um mês".

Nesses voos foram servidas refeições num serviço de porcelana ornamentado com o brasão de armas de João Paulo II e com as cores do Vaticano, oferecido pela Vista Alegre. Fernando Mouzinho, responsável pela manufactura da fábrica, recorda: "Não houve horas extraordinárias para criar o serviço" mas estiveram envolvidos "entre 30 a 40 funcionários".

O PAPAMÓVEL

Enquanto o serviço nascia na Vista Alegre, o fabricante de jipes UMM construía um primeiro papamóvel, em 1991, para a visita à Madeira, e outros dois no ano seguinte para uma visita a Angola. João Trincheiras Torres foi o responsável pela produção: "Começou tudo à portuguesa. Ninguém sabia o que fazer e ‘alguém' tinha que ser o responsável pelo projecto. Então eu disse que o fazia". O carro da Madeira foi desenvolvido em cinco semanas e vendido por dez mil contos (50 mil euros).

O piloto de testes da UMM, João Vassalo  que mais tarde se tornou piloto de competição foi o escolhido para conduzir o Papa João Paulo II na ilha. Mas a Polícia Judiciária preferiu substituir Vassalo por um elemento da segurança. "Recordo-me de o presidente do Governo Regional ir ver o papamóvel ao episcopado e ao descobrir que tinha um microfone na cabina entrou e disse: ‘A luta continua, Alberto João para a rua!'". Vassalo acabou por conduzir o Papa mas em 1992, em Angola.

Paulo Lagarto tinha 25 anos quando, em 1991, foi incumbido da missão de tocar a rebate o sino do Mosteiro dos Jerónimos desde o momento em que o Papa aterrasse na Portela até à sua chegada ao Estádio do Restelo, onde celebrou uma missa. "Foram três horas a tocar o sino. Quando ouvi a comitiva corri para o telhado dos Jerónimos e João Paulo II acenou-me". Em 2001, Paulo Lagarto era então porta-voz da empresa de gestão de tráfego aéreo Nav-Portugal e coube-lhe a leitura da mensagem de boas-vindas.

À espera do Sumo Pontífice estava também uma delegação do INEM, para zelar pelo Papa na chegada a Lisboa e depois no helicóptero que o levaria a Fátima. Enquanto isso, a anestesista Fernanda de Jesus aguardava-o na Cova da Iria. "Andámos sempre ao lado da segurança, do papamóvel e, inclusive, estivemos no quarto ao lado do dele". Ramiro Figueira, a quem João Paulo II perguntou_se_costumava_ir_à missa, era nesse mês de Maio de 2000 director dos Serviços Médicos do INEM. "O que nos preocupava era o estado depauperado em que se encontrava".

CASA REDECORADA

No mesmo ano, a antiga directora do Museu Gulbenkian Teresa Gomes Ferreira encontrava-se no Santuário de Fátima a trabalhar no Museu de Ofertas à Virgem quando redecorou os aposentos - quarto, wc e sala - da Casa de Nossa Senhora do Carmo. "Um arranjo muito sóbrio. O mobiliário, cama e duas mesas de cabeceira de madeira em estilo antigo, já pertenciam ao Santuário. Mandei colocar uma poltrona, imagens e flores [rosas] junto ao oratório".

A Casa de Nossa Senhora do Carmo recebeu o Papa nas três visitas a Portugal. Poucos lá entraram, mas a irmã Noémia, recepcionista, tinha mesmo de o fazer, como responsável pela limpeza e arrumação. "O Papa era muito arrumadinho, não era difícil cuidar do quartinho dele".

A 13 de Maio de 2000, o coronel piloto-aviador Alexandre Figueiredo, então comandante de Esquadra dos Puma da Base do Montijo, fez o trajecto de Lisboa/Fátima/ Lisboa com João Paulo II. "Já estava muito debilitado. Foi necessário construir uma escada de madeira para que conseguisse entrar no helicóptero e, curiosamente, quem se lembrou disso foi a minha mulher, Paula", recorda. "Três dias antes da chegada, ela perguntou-me como é que o Papa ia entrar no helicóptero". Os carpinteiros da Base do Montijo construíram em dois dias duas pequenas escadas, para Lisboa e Fátima.

Logo à chegada de Sua Santidade a Lisboa, o primeiro-ministro António Guterres ofereceu-lhe um rosário em ouro e topázio fabricado nas oficinas dos antigos joalheiros da coroa, Leitão & Irmão. Foi ali que, em 2003, por ocasião do Jubileu - 25 anos de pontificado de João Paulo II - foi feita a jóia que simboliza a instituição dos Mistérios Luminosos.

A peça foi enviada a Sua Santidade a 18 de Outubro de 2003. "Seleccionámos o cristal da rocha para as contas. O Pai-Nosso tem gravado na órbita frases da oração. A medalha em ouro tem numa das faces as armas de João Paulo II e na outra a imagem de Nª Sª de Fátima", descreve Jorge Van Zeller Leitão. A sua joalharia também fabricou a coroa de Nª Sª de Fátima, para a coroação, a 13 de Maio de 1946. É aí que está depositada a bala que quase matou João Paulo II.

PORTUGAL POR DEVOÇÃO A FÁTIMA

As visitas do Papa foram marcadas pela fé em Nossa Senhora, a quem consagrou o Mundo.

João Paulo II dizia que o seu pontificado durara três anos, de 1978 a 81, o restante foi milagre de Fátima. "Visitou Portugal por três vezes, sempre centrado em Fátima, em cujo mistério e mensagem dizia ter sido introduzido pela carne e sofrimento, ao ter sido alvo do atentado na praça de S. Pedro, Roma, a 13 de Maio de 1981", frisa Aura Miguel, única jornalista portuguesa creditada no Vaticano, que acompanhou 51 das 104 viagens apostólicas.

Logo em 1982, João Paulo II pisou solo português pela primeira vez. Visitou Lisboa, Porto Braga, Évora e Fátima. "Foi claramente uma visita destinada a agradecer o milagre de Nossa Senhora lhe ter salvo a vida. O grande objectivo era estar, no dia e à hora a que sofreu o atentado, na capelinha", diz. Na data, o Papa colocou a bala do atentado na coroa de Nossa Senhora, onde ainda se encontra.

A DESPEDIDA

Para a vaticanista, esse foi o ponto de viragem no pontificado de João Paulo II, que ainda no hospital pediu toda a documentação sobre Fátima para "aplicar o que faltava, nomeadamente a Consagração do Mundo ao seu Imaculado Coração".

Em Maio de 1991, dez anos após o atentado, o Papa regressa. "Por se celebrarem os 500 anos da Evangelização iniciada com os Descobrimentos, houve missa no Restelo, visitou Açores e Madeira, mas não esqueceu Fátima", conta Aura Miguel. A terceira visita, em Maio de 2000, foi dedicada exclusivamente a Fátima, "para revelação do terceiro segredo e para a despedida".

Do Papa João Paulo II a jornalista recorda a "grande dimensão humana e o olhar penetrante, como se lesse a alma. Enfrentou os velhos regimes comunistas e percebeu onde a fé vivia com maior frescura, na América Latina e Ásia, o que explica as suas viagens. Era um ‘fura-esquemas', capaz de pôr na cabeça as penas dos índios, nunca deixando de ser quem era por ter sido eleito Papa. Era tão fascinante a sua maneira de viver que vivi seguindo os seus passos. De certo modo, João Paulo II ajudou-me a crescer".

ENTREVISTA A JUAN KROHN

Juan Krohn, o espanhol que em 1982 atacou João Paulo II em Fátima, tem 61 anos e vive na Bélgica. Diz que ninguém esqueceu o crime.

Em 1982, João Paulo II estava em Fátima a agradecer ter escapado ao atentado do ano anterior. A 13 de Maio, o padre espanhol Juan Krohn atacou-o em pleno Santuário, com um sabre de espingarda. Foi manietado e não chegou a atingir o Papa. Condenado a sete anos de prisão, cumpriu três anos e meio da pena em Portugal. Vive na Bélgica há cerca de 20 anos e diz-se um homem perseguido.

Em 1982 atacou o papa por considerar que este colaborava com os comunistas. Ainda mantém as críticas?

No fundo sim. Eu evoluí e o mundo também. Já passaram quase 30 anos e vivi muitas coisas, mas continuo a pensar da mesma forma. João Paulo II  foi um actor político, era um cripto comunista como os que existiam nos anos 30, antes da II Guerra Mundial, e depois do conflito, na Polónia. Escrevi um artigo a que chamei ‘Karol Wojtyla, criatura de Wladislaw Gomulka', que foi uma figura muito popular na Polónia depois da Guerra. Descobri informações recentes que confirmam aquilo que eu já sabia: Karol Wojtyla é fruto de um acordo firmado nos anos de 1950 entre a igreja e o estado polaco, quando Gomulka era secretário-geral do partido comunista da Polónia. Ele acompanhou de perto a carreira eclesiástica de Karol, sobretudo nos anos em que ele foi cardeal em Cracóvia.

 

Arrepende-se do gesto que teve em 1982?

No fundo não me arrependo de nada porque eu não o queira matar. Fui condenado por um tribunal político, escandalizado por eu ter dito que queria matar João Paulo II. Um dos juízes que me condenou disse-o claramente - fui condenado por causa das minhas declarações. Mas eu não era um assassino e não o fui nunca. A justiça portuguesa tratou-me como o pior dos assassinos. Sempre fui uma pessoa normal, com posições e ideias próprias.

 

Qual era o seu objectivo ao atacar o papa com um sabre?

João Paulo II era um homem carismático e depois do atentado de 1981 transformou-se numa espécie de mártir em vida. O meu acto teve um impacto mundial e levou-me a ser conhecido em todo o mundo. Sofria com o ostracismo e o silêncio que nos era imposto. Mas fui mal interpretado e trataram-me como se eu fosse uma espécie de exibicionista.

O que fez quando terminou a sua pena de prisão?

Estive em França e Espanha  e vim definitivamente para a Bélgica em Março de 1987.

Abandonou o sacerdócio na prisão. Continua a ser um homem de fé?

Ainda me considero católico, mas sou um católico sem igreja. O catolicismo, Espanha e Portugal são conceitos inseparáveis, nesse ponto não mudei. Nunca fui excomungado e o cardeal português Dom António Ribeiro até me propôs uma reconciliação eclesiática, mas não aceitei. Desde então que estou à margem de qualquer igreja. Mesmo em relação à minha família, estive numa situação de ruptura durante muitos anos.

O seu pai nunca lhe perdoou pelo ataque a João Paulo II...

Efectivamente, não nos reconciliámos. Vivemos uma situação de ruptura. Depois de ele morrer, fiz as pazes com o resto da minha família. Chorei muito, mas nunca consegui fazer o mesmo com o meu pai. Ele era um católico devoto do Papa e não foi possível. Para mim isso foi o aspecto mais dramático de tudo isto, mais até do que ter sido preso.

Casou-se entretanto e tem um filho. Ainda vive com a sua família?

Estou divorciado. Casei-me pelo civil com uma mulher flamenga e divorciei-me há muito tempo. Tenho um filho de 20 anos

O que faz neste momento?

Estou a preparar desde o ano passado uma tese de doutoramento, que me foi suspensa. Mas tenho tido problemas com professores da Universidade Livre de Bruxelas, por causa do meu passado. Faço a minha vida na biblioteca real, investigo e escrevo no meu blog. A minha tese de doutoramento é sobre literatura espanhola, estou a fazer um trabalho sobre o escritor Francisco Umbral e a guerra civil de Espanha

O seu objectivo é chegar a professor?

Espero lá chegar, apesar de já ter 61 anos. Gostaria de ter uma via profissional que me foi negada nestes mais de 25 anos desde que saí de Portugal. Sinto-me como um pária internacional

Ninguém esquece o que aconteceu em 1982?

Fui condenado a uma pena de sete anos de prisão [da qual cumpriu cerca de metade] mas na prática estou a cumprir uma pena de infâmia ‘sine die' por culpa do Papa Wojtyla. Porque eu atentei contra o homem mais santo do mundo e essa mancha persegue-me até hoje. Nos estado democráticos, as penas por infâmia não existem, mas foi o que me aconteceu. Há quem me veja como o demónio, como se eu fosse o maior assassino de todos os século, e isso pesa-me muito.  

Alguma vez regressou a Portugal?

Estive em Portugal em 1993, para fazer uma entrevista para um canal de televisão espanhol. Estive em Lisboa e em Fátima, mas depois a reportagem não foi divulgada. Nunca mais voltei, mas gostaria de ver Lisboa, cidade de que gosto muito e que conheci em 1972.

 

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