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ELES SOBREVIVERAM AO TERROR

São as últimas testemunhas de um tempo em que a maior preocupação não era pagar a próxima prestação do carro, mas sim chegar vivo ao dia seguinte. De 23 de Abril de 1936, data em que Salazar cria o campo de concentração do Tarrafal, até à revolução de 25 de Abril de 1974: pouco mais de uma mão-cheia de homens podem dar testemunho do que significou expiar crimes políticos e atravessar o longo túnel do Estado Novo.
27 de Abril de 2003 às 00:00
Uma voz bem articulada, de timbre forte, atende o telefone. Será o filho, o neto? A pessoa que procuramos tem que ter mais de 85 anos: Armindo Amaral Guimarães, um dos 300 presos políticos que estiveram no campo de concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago em Cabo Verde. "Sou eu", confirma e escuta atentamente. "Sobre o Tarrafal?", pergunta, a voz de repente um pouco trémula. Uma pausa. "Não quero falar sobre isso. Passei lá 15 anos da minha vida." Nova pausa. "Talvez mais tarde, qualquer dia". Uma última e longa pausa e o fim do telefonema "não posso falar consigo".
Há muitos livros sobre o Tarrafal a amarelecer em bibliotecas. Descrevem as privações, os espancamentos e a tortura de uma prisão sem prazo fixo, pelo "crime" da opinião contrária à ideologia do Estado Novo. Há livros com tabelas com os nomes da vítimas, com plantas do campo, desenhos e fotografias. Mas quem ouviu as pausas de Armindo Guimarães ao telefone, entende. O silêncio diz tudo.
No silêncio Deitado sobre um colchão de palha, um jovem de 17 anos chora às escondidas. Está preso preventivamente a alguns milhares de quilómetros de casa, na ilha de Santiago. Numa dúzia de barracas de lona, o chão de madeira ainda cheira a tinta, 150 homens acabam de estrear a "colónia penal" criada por decreto a 23 de Abril de 1936. O jovem não sabe que vai continuar preso, a aguardar julgamento por actividades políticas subversivas, durante mais nove anos e meio no mais temível campo de concentração português. "Era terrível ver o tempo passar sem saber se algum dia voltaria a ser livre. Entrei com 17 anos, saí com 27". Hoje, Edmundo Pedro tem 84 anos e nem o tempo nem qualquer um dos seus carcereiros (depois do Tarrafal ainda passou mais sete anos em prisões do Estado Novo), conseguiram tirar-lhe a lucidez. Entrou na prisão quando era aprendiz na oficina de máquinas do Arsenal da Marinha, filho de uma família de activistas políticos. O pai foi enviado com ele para o Tarrafal, a mãe esteve nas Mónicas; João, o irmão mais novo, morreu depois de ter sido espancado pela polícia num comício proibido. "Quando oiço hoje alguns historiadores de televisão falar da lenda do Tarrafal e fingir que não houve fascismo em Portugal... apetece-me ir-lhes à cara".
Foi no Tarrafal que completou a aprendizagem política e adquiriu a sua vasta cultura geral. Curso e pós-graduação tirados numa universidade clandestina, encurralada entre arame farpado, metralhadoras e o mar. "Passado um ano no Tarrafal retiraram-nos tudo. Mas conseguimos esconder alguns livros que enterrávamos em esconderijos na horta". Aprendeu inglês, francês e alemão, matemáticas, física e filosofia. Depois de uma fuga do campo acaba por ser recapturado e severamente castigado pelos carcereiros. O PCP, a operar na clandestinidade, louva-lhe o heroísmo perante o inimigo. Mas aplica-lhe uma pena de dois anos de suspensão do partido, "por termos tentado a fuga sem autorização". Suspensão por indisciplina, "a mesma pena que o PCP aplicou recentemente a Carlos Brito". Há coisas que nunca mudam.
"Foi o ensino intensivo que me valeu quando saí". Fez traduções, foi correspondente comercial de uma empresa, mais tarde deram-
-lhe sociedade. Permaneceu um resistente e opositor activo até ao 25 de Abril. Depois, foi deputado, dirigente do Partido Socialista e presidente da RTP. Os que estiveram presos com Edmundo Pedro no Tarrafal atestam-lhe invulgar coragem e integridade; mesmo que tenham seguido percursos políticos diferentes. A maioria evitou militância e o risco de voltar à prisão.
"Não vim cá para curar ninguém. Estou aqui para passar certidões de óbito", dizia Esmeraldo Prata, o médico do Tarrafal que em Outubro de 1936 dava assim as más-vindas aos primeiros 150 presos. Destes, 34 eram marinheiros, condenados a penas de 16 a 20 anos de degredo e trabalhos forçados. Um mês antes (naquele que ficou conhecido como o 8 de Setembro, a revolta dos marinheiros) tinham-se sublevado em protesto contra os castigos aplicados na Marinha a colegas seus e contra o apoio de António Salazar ao seu homólogo Franco do país vizinho. Os restantes presos eram anarquistas e comunistas – entre eles os principais dirigentes do partido. Mais tarde juntou-se um terceiro grupo, os republicanos, combatentes da guerra que se travava em Espanha.
Um em cada dez presos não sobreviveu aos primeiros 12 anos no Tarrafal. Os sucessivos directores do "campo da morte lenta", como ficou conhecido, não
escondiam as intenções do regime:
"Quem vem para o Tarrafal vem para morrer", "Julgam que vão sair daqui vivos?", "Hão-de cair como tordos" diziam sem rodeios a quem não os queria ouvir. Bento Gonçalves, líder do PCP, morre no Tarrafal em 1942.
Pela mesma altura, os campos de concentração alemães, como Auschwitz e Dachau, matavam com precisão e em grande série. O Tarrafal matava ao acaso, assassinava aos poucos: por desgaste, maus tratos, subnutrição, recusa de assistência e tortura. Mas na Alemanha de Hitler, nascido a 20 de Abril de 1889, ou em Portugal de Oliveira Salazar, nascido a 28 de Abril do mesmo ano, o princípio era o mesmo. O homicídio não é menos temível quando aplicado de forma subtil.
Um ano e meio depois da estreia do Tarrafal, as barracas de lona estão feitas em farrapos. A humidade e o calor, o vento e o sol encarregaram-se de destruir o acampamento provisório. Os colchões estão podres. O chão de madeira foi arrancado e usado como lenha para ferver água (outra das formas de tornar a água potável era filtrá-la através das pedras porosas de origem vulcânica). Em regime de trabalhos forçados, são construídas casernas de cimento e pedra, uma vala é aberta em redor do campo e um muro levantado. O campo é constantemente patrulhado por homens armados. E é também construída a Frigideira, o tenebroso castigo do Tarrafal.
Cândido de Oliveira jornalista, técnico de futebol e fundador de "A Bola", também foi vítima do degredo em Cabo Verde. No testemunho que deixou, "Tarrafal, o Pântano da Morte", descreve a Frigideira, um cubículo de cimento sem janelas onde os reclusos eram isolados em castigo: "O preso tem de dormir sobre cimento cru, granitado e mordente". Sem rede mosquiteira, explica Cândido de Oliveira, ir para a Frigideira significava ficar-se "condenado à contaminação pelo paludismo" e a um calor que "subia acima dos 50°".
Gabriel Pedro passou ao todo 135 dias na Frigideira. Um dia cortou as veias dos pulsos, mas foi encontrado ainda com vida num charco de sangue. O seu filho Edmundo esteve 70 dias no degredo. Fernando Alcobia saiu da Frigideira uma semana antes do Natal de 1939, dois dias depois estava morto. Mais de um terço dos presos foram encarcerados na Frigideira, por uma razão ou outra. Ou por nenhuma.
Joaquim Faustino Campos cumpriu 108 dias na Frigideira. Um dos sobreviventes, Josué Martins Romão, sentado na sua pequena sala cheia de recordações, conta a história: "O guarda Seixas passou uma carta por baixo do queixo do Faustino e disse-lhe: ‘Tu não mereces isto’". Isto, era a correspondência, muitas vezes destruída, sempre censurada. Faustino, que tinha recentemente recebido a notícia da morte da sua mulher, descontrolou-se e pregou um tabefe no guarda "com tamanha força que este cambaleou". "Só não apanhou um tiro porque o soldado do portão se recusou a dar a arma ao Seixas, mas foi enfiado na Frigideira e espancado por seis homens". Josué, por sua vez, cumpriu uma pena de dezasseis anos e perdeu a juventude no Tarrafal. Recorda-
-se como ficaram sem mesas porque tiveram que arrancar a madeira para fazer caixões. Quando saiu da prisão não tinha emprego, mas teve mais sorte que muitos outros. "A família quotizou-se e abri um café aqui em Alverca".

Sérgio Vilarigues é um comunista da velha guarda. Depois do Tarrafal, passou mais de três décadas na clandestinidade. Aos 88 anos de idade ainda vai todos os dias à sede do PCP em Lisboa. "A Frigideira? Olhe que antes do Tarrafal estive em Angra do Heroismo. A Puterna, 22 degraus abaixo do solo com água a pingar pelas escadas mesmo no Verão, e o Calejão, infestado de ratazanas, não eram melhores que a Frigideira, garanto-lhe." Sérgio Vilarigues recorda os pormenores quase com distanciamento "a cinza dos cigarros que servia para desinfectar as feridas, porque não havia outra coisa". "Numa ocasião, juntámos pedaços de jornais que serviam de papel higiénico para ler notícias antigas, e fomos castigados por isso." Lembra-se do jovem Domingos dos Santos "que enlouqueceu no Tarrafal", tinha-se apaixonado antes de ser preso e passou os anos na prisão a sonhar e falar da sua Anémona.
Para a maioria dos presos do Tarrafal não houve sentença nem juiz. As funções de polícia, juiz e carrasco concentravam-
-se na mesma entidade: a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) mais tarde PIDE, siglas que mudavam para se manter o mesmo sistema. Manuel Alpedrinha, condenado a dois anos de prisão correccional, passou 12 anos e seis meses no Tarrafal. Mais de uma centena de presos estiveram anos a fio em prisão preventiva a aguardar julgamento.
José Barata nascido em 1916, está sentado numa esplanada em Oeiras de chapéu na cabeça. Bigode branco, a cara redonda com rugas de riso, o antigo marinheiro vive num lar com vista para o mar e parece um pouco o avô simpático das telenovelas. Dos 16 anos a que foi condenado, cumpriu 11 no Tarrafal, o resto da pena terminou-a em Lisboa. Como quase todos os seus colegas de degredo, tem um riso fácil e um sentido de humor contagiante. "Sabe, ao longo dos anos na prisão pensava de vez em quando: qualquer dia olhas para trás e ris-te de tudo isto". E assim é. "Enganei o Salazar: pôs-me lá para eu morrer e não morri", diz com um sorriso malandro. Foi vendedor da Electrolux, moço para todo o serviço na Medicamenta, mais tarde chegou a ajudante de despachante. "No Tarrafal trabalhei na brigada do jardim, plantei muitas árvores, lindas acácias vermelhas".
Nas conversas com os sobreviventes voltam à luz do dia nomes obscuros que ninguém quer recordar. O Canelas, o Peniche, entre muitos outros, eram "rachados", presos que se tinham passado para o lado dos carcereiros para aligeirar a sua pena; o guarda Seixas, por todos os homens que maltratavam os presos no exercício das suas funções e muito para além delas. O director Manuel dos Reis, o "Manuel dos Arames" porque ameaçava constantemente os presos: "Vais para os arames!", um local de castigo antes de construída a Frigideira.
Mas o director mais temido do Tarrafal foi João da Silva. Sérgio Vilarigues não consegue conter um ligeiro esgar de satisfação quando fala do acidente de carro em que o ex-director do campo morreu. No cruzamento da Rua das Pretas com a Avenida da Liberdade, em Lisboa, "estampou-se com o carro e ainda matou alguém. Mesmo na própria morte conseguiu arrastar um inocente". "Houve ex-
-reclusos", recorda Vilarigues, "que foram à Avenida da Liberdade beijar o chão onde esse patife morreu".
Hoje, a praia do Tarrafal é um dos locais mais procurados pelos turistas que vão a Cabo Verde. Um quadro tropical com bungalows a poucos metros do mar, emoldurado por coqueiros e acácias vermelhas. No ar, a música alegre vinda dos altifalantes de um bar. Não muito longe fica o cemitério dos que morreram no campo de concentração. Aí reina o silêncio. Como o eco de um tempo que o velho marinheiro Armindo Guimarães tenta esquecer.
O CAMPO DA MORTE LENTA
Criada em Abril de 1936, a colónia penal do Tarrafal desde logo se revelou um dos instrumentos mais cruéis da políticado Estado Novo.
O campo de concentração foi inaugurado em Outubro com 150 prisioneiros recebidos com as palavras do director, Manuel Reis: "Quem vem para o Tarrafal vem para morrer!". Foram estes, em regime de trabalhos forçados que construíram as instalações e a célebre "Frigideira", lugar emblemático do suplício dos presos.
Em 1937 começam as epidemias de paludismo a fazer vítimas entre os presos. O campo adquire o seu aspecto definitivo com a abertura, ao seu redor, de um fosso com três metros de profundidade e a construção de um talude, sobre o qual soldados africanos vigiavam os prisioneiros. Num levantamento destes casos – efectuado por Cândido de Oliveira, preso em 1943 – num total de 220 presos, 101 não tinham sido julgados, 38 tinham a pena já cumprida, numa média, por pessoa, de quase seis anos além da condenação. O Tarrafal encerrou em 1954. Sete anos depois voltaria a abrir, para receber presos de Angola e da Guiné, ligados aos movimentos independentistas africanos.
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