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Elizabeth McNeill: Tira tudo, menos o chapéu

Kim Basinger interpretou-a em ‘Nove Semanas e Meia’.
João Pedro Ferreira 22 de Março de 2020 às 09:00
Ingeborg Day
Kim Basinger interpretou-a em ‘Nove Semanas e Meia’
Ingeborg Day
Kim Basinger interpretou-a em ‘Nove Semanas e Meia’
Ingeborg Day
Kim Basinger interpretou-a em ‘Nove Semanas e Meia’
Ingeborg Day (1940-2011), jornalista e escritora norte-americana de origem austríaca, usou o pseudónimo Elizabeth McNeill para assinar ‘Nove Semanas e Meia’, um livro erótico que chocou meio mundo. O subtítulo, ‘Memória de uma aventura amorosa’, levanta a ponta do véu sobre uma breve mas intensa relação, tão excitante quanto perturbada.

O motivo do escândalo prende-se com a descrição pormenorizada, feita na primeira pessoa, das práticas sadomasoquistas a que se entrega um casal de amantes, ambos profissionais de sucesso, ele corretor da bolsa e ela dona de uma galeria de arte, na Nova Iorque dos anos 70. O livro deu origem a um filme de culto com cenas escaldantes protagonizadas por Kim Basinger e Mickey Rourke, incluindo uma sessão de striptease em que ela tira tudo menos o chapéu, ao som de um dos maiores êxitos de Joe Cocker: ‘You Can Leave Your Hat On’. A obra inspirou uma série de seguidores, incluindo ‘50 Sombras de Grey’.

Por altura do lançamento do livro, em 1978, Elizabeth McNeill foi apresentada como uma executiva de uma grande empresa, mas em 1983 o editor Steven Aronson identificou-a como Ingeborg Day, editora da revista feminista ‘Ms.’. Nascida na Áustria durante a 2ª Guerra Mundial, foi para os EUA como estudante e ali casou e fez carreira. Ingeborg Day assinou com o seu nome ‘Ghost Waltz’, sobre o passado nazi da sua família. Porém, até à morte, em 2011, nunca assumiu a autoria do livro que lhe deu fama. 
Do livro ‘Nove Semanas e Meia’, trad. Olga Magalhães, ed. Sicidea
"Na primeira vez que fomos para a cama juntos ele segurou-me as mãos por cima da cabeça. E eu gostei. Gostava dele. Era taciturno, de uma forma que me parecia romântica. Era divertido, engenhoso, um conversador interessante, e dava-me prazer.
Na segunda vez, apanhou o meu lenço do chão, para onde eu o tinha atirado quando me despi, sorriu e disse:

– Deixas-me vendar-te os olhos?
Nunca me tinham vendado os olhos na cama, e gostei. Gostei dele, mais ainda do que na primeira noite e, depois, enquanto lavava os dentes, não pude deixar de sorrir: tinha encontrado um amante extraordinariamente habilidoso.

Na terceira vez, pôs-me repetidamente a ponto de me vir. Quando, pela enésima vez, estava pronta a explodir ele voltou a deter-se, ouvi flutuando desincorporada por cima da cama a minha voz suplicar que continuasse. Ele satisfez-me… Estava a começar a apaixonar-me.

Na quarta vez, quando estava excitada a ponto de perder o mundo de vista, usou o mesmo lenço para me atar os pulsos.

(…) E então ele abre-me as pernas (…). Os seus olhos estão a uns cinco centímetros dos meus, e algo se move muito suavemente, para cima e para baixo, ao longo do meu clítoris. Os seus dedos estão escorregadios de óleo, encharcados em óleo e, a meio grito, o meu corpo passa para os sons – não muito diferentes – que emite quando estou a ponto de vir-me, e então venho-me.

Ele desata-me, fode-me de pé, leva-me para a cama, lava-me a cara com uma toalhinha molhada em água fria de uma tigela branca.

(…) As minhas coxas abrem-se, aumenta o calor sob a sua língua e só registo uma ligeira alteração quando levanta a cabeça: põe a minha mão nesse lugar onde algo que me é tão familiar, e contra o qual não quero lutar, começou já. Os meus dedos indicador e médio começam a deslizar para baixo, como sempre, e eu venho-me.

– Adorei isto – diz ele. – Adoro olhar para o teu rosto. Ficas extraordinária quando te vens, deixas de ser bonita e transformas-te numa coisa voraz, com a boca aberta quase até se rasgar.

(…) As suas mãos descem pelo meu esterno até ao cinto de ligas. Segue os contornos em volta do meu corpo. E depois, uma por uma, as quatro ligas até onde começam as meias. Estamos quase na escuridão.

(…) Os meus olhos fecham-se. Escuto o rugido que atroa nos meus ouvidos; todo o meu corpo, até ao último centímetro quadrado, deseja ser tocado. Tentando clarear os meus ouvidos, sacudo a cabeça, o cabelo mete-se-me na boca. Por favor (…)

– Dá-me a vaselina que trouxeste – diz ele – e agarra-lhe as mãos. Estão a separar-me as nádegas, sinto a pressão do seu dedo no ânus, uma mão entre as pernas, um dedo escorregadio que desliza facilmente para o seu lugar entre lábios cerrados. Contraio todos os músculos. (…) as suas mãos acariciam-me até que o meu corpo sucumbe, desta vez muito mais rápido.
– Por favor, não aguento, por favor, faz com que me venha. (…)"
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