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Elogio da melancolia e de um oboé perdido

“(...)numa paisagem verde e generosa, o oboé do Tio Henrique (...) era o próprio coração da melancolia”
António Sousa Homem 6 de Junho de 2010 às 00:00
Elogio da melancolia e de um oboé perdido
Elogio da melancolia e de um oboé perdido

O meu racionalismo – que percorre a família como uma maldição anti-romântica – não apagou o prazer de ver bandas de música percorrendo, ao calor do Verão, as ruas do Minho. No fundo, tanto o velho Doutor Homem, meu pai, como Dona Ester, minha mãe, nos educaram na presunção de que, embora tenha de existir uma vida depois da morte (caso contrário, nada disto valeria a pena), convém não desperdiçar o que esta nos providencia. A ideia é tão banal como haver estações do ano e uma finalidade para todas as coisas; uma das finalidades do Verão é uma vez por ano peregrinarmos até aos arredores dos Arcos de Valdevez, onde para visitar os escombros do que foi a vida do Tio Henrique, um virtuoso do oboé, instrumento que resumia toda a sua melancolia.

No calor de Verões antigos, quando as estradas do Minho eram estreitas e ocupavam pouco espaço numa paisagem verde e generosa, o oboé do Tio Henrique (um ex-militar que prezava Mouzinho e as campanhas de África, a que atribuía um papel civilizador largamente exagerado) era o próprio coração da melancolia. Nessa escala, comparava-se aos velhos discos de Anna Moffo, a soprano favorita do velho Doutor Homem, meu pai, que produziam nostalgia a rodos pelos corredores do casarão de Ponte de Lima.

A melancolia é coisa de gente civilizada. Não existe, aliás, civilização que se preze sem uma certa cultura da melancolia, que funciona como um freio à risota que nos deixa sem destino; ela acalma os sentidos, treinando-os e despertando-os, abrindo sulcos nas memórias e nas genealogias, perfumando de beleza as coisas que passam.

A minha sobrinha Maria Luísa, a assaltante mais assídua da minha biblioteca, ficou perplexa com a existência de um exemplar da ‘Anatomia da Melancolia’, de Robert Burton, com as suas 1500 páginas distribuídas pelos dois volumes de uma edição popular que o velho Doutor Homem, meu pai, trouxe de Inglaterra. Expliquei que a melancolia era uma matéria antiga e que o livro (que durante muito tempo foi apenas considerado um manual sobre doenças mentais) era de 1621.

Até a Tia Benedita, que nunca leu Shakespeare nem conhecia o nome de Burton, era inteligente o bastante para compreender que o medo da melancolia era o medo verdadeiro (tirando a República e o fantasma do dr. Afonso Costa, nada a atemorizava) – o medo de as pessoas ficarem um pouco diante de si mesmas, cultivando os gladíolos do jardim. O velho Doutor Homem, meu pai, detestava gladíolos, mas admirava a Tia Benedita, que nunca disfarçou a melancolia que lhe provocava o retrato do senhor Dom Miguel, resguardado da risota no casarão limiano.

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