Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

Em busca do cromo dourado

As colecções de cromos de caramelo são as mais raras e, como tal, as mais valiosas, podendo valer entre 150 a 2 mil euros.
27 de Junho de 2010 às 00:00
As colecções de cromos de futebol são as mais populares
As colecções de cromos de futebol são as mais populares FOTO: Tiago Sousa Dias

Ao som de música clássica Carlos Alberto Santos, pintor com 76 anos, abre-nos as portas do seu ateliê, situado em Lisboa, e recupera as memórias gastas de um percurso artístico autodidacta. As telas pintadas a óleo que hoje estão nas paredes do seu refúgio contam uma história que começou nos anos 50 com a primeira ilustração da colecção de cromos nacional: ‘A História de Portugal’, com dezassete edições oficiais até 1973. "Tinha 17 anos quando fui convidado para a ilustrar. O desenho era reproduzido em tinta da China nuns cartões azuis que não marcavam a cor e depois eram pintados".

Aquela que havia sido a colecção mais bem sucedida foi actualizada em finais de 1958 com um 204º cromo alusivo ao recém-eleito Presidente da República Américo Tomás e, dez anos depois, foi terminada com o 205º cromo referente a Marcelo Caetano, presidente do Conselho de Ministros.

À sua primeira colecção, seguiram-se outras oito, embora três delas tenham tido o fado do esquecimento. "Há três que não chegaram a sair: Os Três Mosqueteiros, cujos originais desapareceram na editora, o Robin dos Bosque e os Lusíadas, dos quais guardo alguns originais", agora resgatados à gaveta. É de lá que recupera o encanto dos cromos, do ‘molhinho para troca’ que tantas crianças alegrava. Hoje, crê, perdeu-se quase tudo. "É coisa que ficou ultrapassada. Naquele tempo a troca de cromos, a compra, até sair o mais complicado, tinha a sua razão de ser. Hoje haverá alguns miúdos que gostam de cromos mas tenho a impressão de que editorial ou comercialmente não resultaria". Será?

HÓBI RENTÁVEL

O fascínio natural pelos cromos de futebol e pelos grandes jogadores dos anos 60 e 70 despertaram em Américo Almeida, topógrafo e desenhador técnico na área de arquitectura e engenharia de 45 anos, a paixão pelo coleccionismo de cromos, facto que anos mais tarde o levou à criação do Fórum Troca Cromos (www.trocacromos.com), plataforma privilegiada no mundo cibernético e onde o futebol reúne a maioria das preferências dos mais de mil utilizadores registados e activos. Segundo um inquérito realizado no fórum, "a faixa etária dos 30/40 anos é a que parece ter maior incidência, seguindo-se as faixas de 21/25, 41/45, 31/35. Como tal, "a maior parte dos coleccionadores, principalmente de futebol, são os que foram crianças nos anos 70".

O seu espólio conta com mais de 400 colecções, de futebol e extra-futebol, entre as quais algumas relíquias bastante valiosas no mercado. "A venda de cromos e cadernetas tem sido rentável", defende. Embora não haja um valor definido, o estado de conservação, o ano e percentagem de preenchimento são factores preponderantes na hora de definir um preço, "algo que pode ir facilmente dos 150 a 600 euros". "Uma colecção de futebol, como a UEFA Champions League ou Futebol 2008/2009, poderá ficar entre 75 a 100 euros". Neste segmento de coleccionáveis, "são valorizados os chamados cromos de caramelos (que eram invólucros de um rebuçado ou caramelo açucarado). Hoje são raridades. Qualquer colecção de cromos de caramelos pode ir de 150 a 2000 euros ou até mais. Tenho uma ou outra colecção de cromos de caramelos que não vendo por menos de 500 euros".

ARQUIVO NACIONAL

João Manuel Mimoso, engenheiro mecânico de 58 anos, relembra os tempos em que as dificuldades da época determinaram um gosto especial.

"Comecei as colecções quando tinha para seis anos. Estava de cama e o meu pai, para me distrair, trazia-me uns pacotinhos de cromos de uma coisa chamada Raças Humanas. Foi a primeira colecção que fiz. Como a minha família era pobre, passei a fazer uma espécie de choradinho às minhas tias. Fui coleccionando até 1962, altura em que achei que era velho demais para estas coisas". Só 20 anos mais tarde, ao descobrir colecções antigas, voltou a coleccionar histórias. "Para mim não se trata de juntar, mas sim de ter elementos para se fazer um estudo sobre as origens e a evolução de algo que foi importante na História do século XX em Portugal", razão pela qual pretende reunir e ofertar o seu legado à Biblioteca Nacional "para que exista um testemunho gráfico do século XX, um arquivo onde as cadernetas possam ser conservadas e acessíveis para estudiosos".

A morte do seu pai em 2002 precipitou uma viragem na sua vida. "Queria uma coisa para me distrair, um desafio. Fui a um vendedor de papel antigo e disse que gostava de começar uma colecção destes cromos de rebuçados de caramelos. Ele disse-me que isso era impossível. Achei que isso já era um desafio e fiz vários contactos, coloquei anúncios em vários jornais, incluindo no Correio da Manhã. Em dois meses consegui reunir cerca de uma centena de colecções". O seu acervo pessoal, cujo limite temporal se situa entre 1928 e 1969, conta com 300 cadernetas. "Não se trata um passatempo. É uma investigação", diz, sempre em busca do cromo dourado. E não é uma utopia.

150 MILHÕES DE CROMOS EM PORTUGAL

A Caderneta do Mundial 2010, com 640 cromos, é já considerada de culto, com 150 milhões de cromos distribuídos em Portugal, sendo o de Óscar Cardozo um dos mais procurados. Apesar de contemplados na caderneta, João Moutinho e Bosingwa não constam na lista de seleccionados. Segundo a Panini, "as listas definitivas dos 17 jogadores são feitas em Janeiro, Fevereiro", pelo que, para reparar o erro, "é muito provável que sejam impressos novos cromos".

Ver comentários