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Embirrações de Novembro

Novembro instala, definitivamente, a melancolia em Moledo. Com a melancolia vem o frio e, com ele, a inclemência dos restantes elementos – chove nos pinhais em redor da casa, chove na serra, chove aquela chuva mansa e galega que vem nos romances de Camilo José Cela como uma ameaça sobre os homens.
António Sousa Homem 9 de Novembro de 2008 às 00:00
Embirrações de Novembro
Embirrações de Novembro

O velho Doutor Homem, meu pai, não acreditava em 'estados melancólicos', que atribuía a demasiadas leituras e à nossa poesia sentimental, uma 'fábrica de tristezas' assinada por vates que deviam ir à inspecção da tuberculose. Ele tinha uma certa embirração com o temperamento choramingas e com os sonetos sobre as folhas de Outono (à distância, compreendo--o), achando o entardecer na Foz o cúmulo de romantismo, seguido à distância dos parques de Londres da sua juventude.

Muito contra a ideia portuguesa de que temos quatro estações, e que serve geralmente para discutir questões gerais de meteorologia, o meu clima ideal é o do Moledo primaveril, sempre com a ameaça do Estio pendurada nas abas das serras em redor. Climas tropicais e climas invernais vão muito contra a estirpe ondulada e leviana da família, habituada a facilidades e já desajustada diante de contrariedades tão banais como a chuva fora de época ou o granizo nos pinhais. Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, diz que os Homem se julgam donos do Mundo e pensam em mandar nos Elementos, como se o senhor D. Miguel ainda fosse vivo. Não é assim; trata-se de puro comodismo e do desejo de embirrar com a mentalidade romântica, que acha que deve existir uma relação entre as estações do ano e as regras da gramática. Pessoalmente, a minha embirração com o Inverno deve-se a motivos práticos – prefiro aquilo que já defini ao leitor como a temporada do ‘glamour’, coisa que já existiu em Moledo quando se passeava nos pinhais em pleno Outono, de casaco de tweed e boné irlandês. O velho Doutor Homem, meu pai, dizia que o Outono era 'uma estação com estilo': não só se arrumava o velho litoral do Minho, libertando--o das hordas invasoras, como se podia vestir qualquer coisa decente e respirar o fresco das manhãs sem ser interrompido pela obrigação de participar na ‘época balnear’.

Nessas alturas, diante desse debate sobre a organização do universo e do guarda-roupa, Dona Ester limitava-se a recordar que o seu ideal de Verão era o de Biarritz, como nevoeiros pendentes sobre as escadarias dos hotéis. Ela sabia como meter a família na ordem.

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