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Emigrantes das oportunidades

Os mitos que levava na bagagem foram forçados a ficar no aeroporto. Luís Valente cedo percebeu que "certos factos que dizem sobre Londres" estão longe de favorecer a verdade. "É uma cidade cinzenta mas não chove assim tanto e os transportes no Reino Unido não são assim tão pontuais". Deitada por terra a pontualidade britânica mas consolada a alma portuguesa pouco adepta de molhas, o estudante de doutoramento, 29 anos, estava livre de pesos extra. Luís chegou motivado pelo trabalho laboratorial no Cancer Research UK London Institute. A possibilidade de "estudar num dos melhores institutos da Europa" aliou-se ao facto de Londres ser "a cidade onde é mais fácil ter acesso a outras culturas".
30 de Agosto de 2009 às 00:00
Emigrantes das oportunidades
Emigrantes das oportunidades

A distância não foi impedimento à altura da vontade, até porque 'é possível vir do Reino Unido para Portugal de avião, gastando menos do que do Porto a Lisboa de carro'. E o trabalho diário, sem desprimor para o equivalente em solo nacional, permitiu-lhe 'estar num instituto com uma capacidade financeira impressionante'. Difícil foi a adaptação à luminosidade matutina: 'Infelizmente em Inglaterra não se usam persianas'. Mas o quotidiano foi-se deixando organizar segundo o relógio londrino e hábitos houve que se tornaram regra. 'Às sextas, ao final da tarde, cumpro a tradição britânica e vou ao pub conviver com os colegas de trabalho'.

 

Desde que aterrou na Finlândia que na agenda de André Serranho a rotina passou a incluir uma ida à sauna, 'pelo menos uma vez por semana'. A primeira impressão tuga do nórdico país foi um misto de sensações: 'que ruas tão limpinhas e asseadas. Mas quando cheguei a casa e me serviram o jantar foi: Isto é que é o jantar? Bem, se é sempre assim vou-me já embora'. O designer de marketing e gestor de projectos internacionais, natural de Santarém, contornou o culinário desgosto cozinhando 'pouco à finlandesa e mais à Sul da Europa'. Quanto ao 'dia-a-dia, comparado com o que oiço de Portugal, é uma pasmaceira. São necessárias poucas horas extraordinárias mas o trabalho aparece bem feito. Somos eficientes e orgulhosos disso, focamos as energias em questões de trabalho e não em miudezas de carácter relacional'. Bem menor é o único aspecto a que garante não se conseguir adaptar. 'O café. É horrível'. Nada que não se ultrapasse na companhia 'de uma loira espectacular' com quem vive, e de 'duas filhas' que entretanto nasceram. 'As pessoas pagam altos impostos mas vê-se o retorno nos infantários municipais a cada quilómetro quadrado, na educação grátis até ao mestrado, no SNS local', entre outros factores, como o das oportunidades que por cá dificilmente teria. 'Acabei por entrar activamente na gestão de projectos internacionais na área do ambiente, onde a Finlândia está anos-luz à frente de Portugal'.

 

Carla Pinto trabalhava numa consultora internacional quando tomou 'uma das maiores decisões' da sua vida. Moçambique foi a porta escolhida para 'começar do zero, deixar para trás uma vida confortável' e perceber que tipo de bagagem carrega os sonhos. Os dela, cinco anos e meio depois de abalar de Oeiras, traduzem-se em metros de tecido tradicional africano, as capulanas, que vestem ideias originais que a ela, sem formação em moda, se devem. Carla trabalhava em marketing, agora é empresária da Ideias a Metro. Ganhou mais do que perdeu no caminho pela independência. Lembra-se que, num primeiro olhar, achou Moçambique 'pobre, sujo e caótico'. Começou por ficar num quarto alugado longe do então namorado, agora marido. Foi quando se mudou para Cuamba que o tempo livre lhe deu corda às mãos delicadas para fazer roupa.

As temperaturas 'quentes e amenas em San Jose, tão semelhantes a Lisboa', dão alento diário a Miguel Sousa, designer de tipos de letra e programador de fontes, que depois de experiências na Alemanha e em Inglaterra aterrou na Califórnia, EUA, em 2006, contratado pelo gigante Adobe. 'Viver em San Jose significa estar no coração de Silicon Valley, onde grandes empresas estão sedeadas, como a Apple, Google, Oracle e Yahoo. O que representa oportunidades ao mais alto nível. Significa aprender e trabalhar com pessoas extremamente talentosas e ter acesso privilegiado a algumas das melhores tecnologias'. O rol de vantagens é quase tão extenso quanto os quilómetros que o separam da mãe. Há dois anos ele deu uma fortíssima razão para os mais próximos embarcarem para os EUA. 'Casei-me'. Semanas depois, a vida colocou a distância à prova quando o padrasto sofreu um acidente de viação que lhe tirou a vida. 'Foi um momento traumatizante, pela dor e pelo sentimento de impotência de não conseguir estar com a minha mãe tão depressa como desejaria'. Nunca fez planos a longo prazo. 'Vejo a vida como um aglomerado de incertezas e oportunidades, por isso apenas faço os possíveis por tomar as melhores decisões a cada passo que dou'.

À chegada a Marselha, Nuno Cláudio, 24 anos, receou o estereótipo do emigrante português em França. 'Tive medo de sentir o estigma, principalmente quando estava à procura de casa'. Foi o doutoramento na área da Imunologia no Centre de Imunologie de Marseille Luminy que o trouxe ao país com prazo definido de emigração qualificada: quatro anos. O dia-a-dia é passado a olhar pelas células dendríticas (importantes na orquestração do sistema imunitário). 'Cultivo-as in vitro a partir da medula óssea de ratinhos'. O minucioso trabalho é pautado 'por tempos de espera passados a ler artigos'. Mais difíceis de controlar são as saudades 'da namorada e dos amigos', que surgiram em força 'passados sete, oito meses' e que o telefone ajuda, a custo, a atenuar.

 

No início, há dois anos, Sofia Vieira 'não entendia nada' do que diziam os espanhóis, porque 'falavam muito rápido'. Cedo percebeu que a velocidade não era antipatia e inclusive alterou a opinião sobre a personalidade da vizinhança. 'São muito simpáticos e o país é muito desenvolvido'. Também no desporto. O que lhe permite, desde então, vestir mais a sério a camisola da competição. Primeiro no Mostoles e agora no Atlético de Madrid, uma transferência de gigante que aconteceu no início do Verão e que lhe vestiu o número nove. É também pelo clube madrileno que se vai estrear no futebol de onze, depois de anos a fintar no futsal. 'Em Espanha posso competir a um nível mais elevado. A nível profissional também há mais oportunidades na minha área, Ciências da Actividade Física e do Desporto', nome da licenciatura que a ocupa na Universidade Autónoma de Madrid.

 

Ana Agostinho, 25 anos, ponderou 'bastante' antes de preterir Portugal à Austrália, embora o Erasmus no passado a tivesse mordido com o bichinho do estrangeiro. Chegou à terra dos cangurus na ideia de 'ter um gap year [ano de pausa, muito usado em alguns países] e viajar'. Abandonado o ritmo frenético lisboeta descobriu em Sydney 'um espírito cosmopolita mas relaxado, com praias e muitos parques' onde o tempo, longe de se esgotar, estica e serve para tudo. Até para um part-time num café, a par dos estudos em Accounting e Financial Services, das idas ao ginásio e das viagens, possibilitadas pela remuneração 'compensatória'.

 

Paulo Cardoso desenvolve em Reiquejavique, na Islândia, aplicações informáticas para entidades públicas e privadas. A ideia era ficar um ano fora, 'para ter contacto com uma cultura diferente', mas, quase sem se ter dado conta, passaram doze. Talvez tenha ajudado ter descoberto na Islândia 'um país com uma elevada qualidade de vida' pautado pela igualdade. E ter tido o incondicional apoio da família, que visita duas a três vezes por ano mas com quem fala diariamente. Começou por ser estudante, mas cedo surgiu uma oportunidade de emprego que nem a barreira do idioma derrubou. O quotidiano é hoje 'repartido entre o trabalho, o desporto' e o blogue onde recorrentemente escreve: www.islandia.com.pt. Na Islândia, Paulo conheceu muitos outros portugueses, embora o desemprego tenha terminado com o sonho de alguns. Esporadicamente organizam 'uma festa ou um encontro para ver um jogo de futebol' e, sentindo-se em casa, a língua tem ordem de soltura.

 

Cristiana Miranda queria fugir a um caminho semitraçado. O funcionamento do 'sistema universitário inglês, mais apelativo' colocou-a aos 18 anos dentro de um avião rumo a Londres, ao curso de Media Studies na universidade de Westminster, e a uma experiência 'aterrorizadora' à chegada. 'Achava que não tinha muito em comum com os ingleses e tudo parecia um bocadinho negro, a começar pelo tempo'. Nos primeiros três meses enganou o estômago com Kit Kats numa casa fora do centro da cidade 'por não estar fascinada com nada', mas conseguiu reverter a situação quando mudou de morada. 'Londres precisa de tempo para gostarmos dela e isso torna-se um desafio'. Profissionalmente 'as coisas estão a correr muito bem' à jovem realizadora que filmou um videoclip na Nazaré para a cantora Dido e soma e segue em trabalhos publicitários, para a Ford, Johnnie Walker, entre outros nomes de peso no meio. Em Inglaterra, onde está há 8 anos, encontrou 'liberdade e estímulo para investir no sonho, porque existe uma indústria muito activa e acesso a situações que dificilmente teria em Portugal'. Cristiana nunca se sentiu estrangeira, 'apenas mais uma peça de puzzle'. E 'há medida que o tempo passa sinto-me cada vez mais portuguesa'. Porque a identidade, às vezes, também precisa de bagagem.

'CIÊNCIA MELHOR REMUNERADA' (Luís Valente, Reino Unido)

A preparar-se para regressar a terras lusas, onde se vai juntar a um grupo de investigação no Instituto Gulbenkian da Ciência, Luís Valente, de Vale de Cambra, assume que 'a ciência é bastante melhor remunerada no Reino Unido do que em Portugal, mesmo tendo em conta o custo de vida. Se estivesse a fazer o doutoramento em Portugal, o valor típico da bolsa rondaria os 12 000 euros anuais, menos de metade do que ganhei este ano'.

 

Vantagens: Sistema de Justiça mais célere, força da sociedade civil e maturidade da democracia.

 

Como passei a ver Portugal: 'Percebi que não somos individualmente menos produtivos que os outros, talvez o problema esteja nas lideranças'.

'NESTE PAÍS A PROGRESSÃO É MAIS RÁPIDA' (Ana Agostinho, Austrália)

Há quatro meses, antes de trocar a terra onde nasceu pela Austrália, Ana era bancária. Diz que o que mais mudou na sua vida foi o aumento do tempo livre, num país 'onde a progressão é mais rápida, a remuneração é melhor e onde existe a preocupação em equilibrar a vida profissional com a pessoal'. Para atingir a perfeição, a jovem estudante só precisava de conseguir 'passar um fim-de-semana em casa quando as saudades apertam'. Mas isso, pela enorme distância, é o desejo mais difícil. Mas não impossível.

Vantagem: Qualidade de vida.

Como passei a ver Portugal: 'Ritmo frenético sem tempo para nada'.

'CARINHO POR PORTUGAL' (Sofia Vieira, Espanha)

Já assinou pelo Atlético de Madrid mas, aos 21 anos, a atleta que passou pelo Benfica vestiu a camisola das quinas por 34 vezes. Natural de Rio Maior, Sofia viu no idioma a maior dificuldade em Espanha mas sentiu, “por parte das pessoas com quem contacta”, uma grande compreensão. “Aqui têm um grande carinho por Portugal”.

Vantagens: Mais oportunidades a nível desportivo e profissional.

Como passei a ver Portugal: “Comecei a dar mais valor às pequenas coisas que tinha e às pessoas que me rodeavam”.

'É FÁCIL FUGIR ÀS REGRAS' (Cristiana Miranda, Reino Unido)

Em Londres, Cristiana percebeu que a sua felicidade estava relacionada com fazer o que gosta: ser realizadora. A 'abertura cultural' – 'é mais fácil fugir às regras e ser aplaudido' – tornou o sonho possível. Oito anos depois, sobre a adaptação: 'São tão peculiares em relação ao chá que ainda hoje me sinto inútil sempre que preparo chá para um inglês'.

Vantagens: Indústria do cinema e da publicidade mais organizada.

 

Como passei a ver Portugal: 'Desde que filmei na Nazaré [videoclip] ganhei curiosidade pelo espírito português'

'FORMA DE PENSAR AMPLA' (Paulo Cardoso, Islândia)

Os islandeses são 'mais reservados comparados com os portugueses', o que dificulta a integração na sociedade a quem chega de fora. Mas isso faz parte da experiência 'que ofereceu uma forma de pensar mais alargada' nos doze anos que entretanto passaram por Paulo Cardoso, que pensa voltar a Portugal em breve 'para contribuir para o desenvolvimento' do seu país de origem.

Vantagens: Equilíbrio entre classes sociais e entre homens e mulheres.

Como passei a ver Portugal: 'Descobri coisas que podem ser melhoradas'.

 

'GANHO OITO VEZES MAIS' (Miguel Sousa, EUA)

 

'O meu último trabalho em Portugal foi como designer gráfico e ganhava 1000€/mês. Hoje em dia, com benefícios: médico de família, dentista, oftalmologista, seguro de vida, conta de poupança reforma, bónus, acções da Bolsa, ganho cerca de oito vezes mais', explica Miguel, de Lisboa.

 

Vantagem: A Adobe é o sítio ideal.

 

Como passei a ver Portugal: 'Os portugueses deviam deixar de pensar que o problema está sempre nos outros'.

'AQUI SOU O ‘LE PORTUGAIS' (Pedro Rupio, Bélgica) 

Pedro Rupio é luso-descendente. Os pais abalaram para a Bélgica atrás de melhores condições de vida. Diz que se sente estrangeiro em todo o lado; 'Aqui serei sempre Pedro, ‘le portugais’, e em Portugal serei sempre ‘o belga’ mas isso só ajuda a consolidar o meu sentimento de cidadão do mundo'. Na Bélgica é conselheiro das comunidades portuguesas. 'Procuro sempre sensibilizar o governo para o potencial que está desperdiçado das comunidades portuguesas. Portugal poderia afirmar-se além-fronteiras através da sua emigração'.

'SALÁRIOS SÃO O DOBRO' (André Serranho, Finlândia)

André diz que 'os preços dos bens essenciais são o dobro de Portugal, mas os salários também'. 'Onde se ganha é nas viagens, electrodomésticos, combustível, etc., onde os preços são iguais. Os carros são mais caros em Portugal do que na Finlândia'.

Vantagens: Há um sentido de bem comum, onde pela via negocial se avança para o bem geral. Há muito poucas greves, pouca tensão social.

 

Como passei a ver Portugal: 'A falta de respeito pelo património, a falta de pontualidade e o chico-espertismo generalizado'.

'ISTO NÃO TEM PREÇO' (Carla Pinto, Moçambique)

'Em Portugal, há seis anos, ganhava 2500 euros, o que era excelente aos meus 27 anos. Presentemente, o que tiro da Ideias a Metro mal chega a metade desse valor, mas o ter um projecto só meu não tem preço'. Volta e meia, Carla tem saudades 'de viver num país sem falhas constantes de água, net e luz', como o é Moçambique.

Vantagem: Fez-me dar valor ao ser em vez do ter.

Como passei a ver Portugal: 'Deixou de ser a minha única referência. É demasiado pequeno para mim'.

 

'MUITO BOAS CONDIÇÕES' (Nuno Cláudio, França)

 

Após terminar o doutoramento em França, Nuno Cláudio, de Olhão, pondera regressar a Portugal 'se houver condições para tal'. Até porque considera que por cá há 'muito boas condições' embora se devesse investir mais na ciência. E é com uma ponta de ironia que Nuno observa: 'Quando se realizam os afamados roteiros da ciência confunde-se ciência com tecnologia'.

Vantagem: Há mais oportunidades após o doutoramento.

Como passei a ver Portugal: 'Nem tudo é mau mas está atrasado em muitas coisas'

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