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Correio da Manhã

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Emigrantes são vítimas da saudade

Portugueses vivem o calendário ansiosos por voltar a pisar a terra, mas pressa de chegar a casa mata nas estradas.
8 de Maio de 2011 às 00:00
Paula Miranda (lado esq.) e a irmã Goreti e o namorado, Manuel
Paula Miranda (lado esq.) e a irmã Goreti e o namorado, Manuel FOTO: Miguel Pereira da Silva

A dor causada pelas lembranças sufoca o peito e a tristeza aumenta quanto mais prolongada é a ausência. As recordações que mais parecem ser a de uma vida passada surgem a todo o instante, embrulhadas no imenso desejo de voltar à terra que um dia abandonaram. Pelos quatro cantos do Mundo, muitos são os portugueses que ainda choram as saudades.

Forçados a sair do país que um dia os viu nascer, deixaram para trás os amigos e família e partiram em busca de uma vida melhor. Em terras distantes vivem para o dia do regresso. Mas a pressa é inimiga do homem e tal como os seis portugueses oriundos do Minho, que há mais de uma semana foram vítimas de uma tragédia na A10, entre Paris e Bordéus, muitos outros são vítimas da saudade, ao não conseguir travar a viagem do carro, a tempo .

"A culpa é da pressa, do desejo de ver a família. Cada minuto a mais sem vermos aqueles que amamos é uma tortura. Faço a viagem para Portugal de olhos bem abertos, ansiosa de ver a casa dos meus pais. Para Bordéus regresso a dormir, não me importo se chego três horas mais tarde do que o previsto", contou Goreti Miranda, de 48 anos, natural de Barcelos e que emigrou para Bordéus há 24 anos.

A saudade mora há muito pelas ruas de Bordéus. Nos cafés, nos restaurantes, nos recantos mais escondidos, os milhares de portugueses que ali vivem reúnem-se praticamente todos os dias. A cidade é-lhes estranha; as ruas que agora percorrem não são aquelas onde um dia aprenderam a andar, mas com o passar dos anos ali construíram uma extensão do país onde um dia esperam retornar, definitivamente. É na casa Miranda, um restaurante mesmo situado no centro da cidade e inaugurado há dez anos, que muitos portugueses se juntam para partilhar alegrias e tristezas. Ali quase não entram franceses e a comida é tipicamente portuguesa.

"Viemos para cá trabalhar para outros. Mas passados três anos inaugurei o restaurante com os meus dois irmãos e o meu marido. A saudade de casa era muita e eu sentia necessidade de ter um espaço onde todos os dias me pudesse recordar do país onde vivi", explica à Domingo Paula Miranda, de 37 anos, que nasceu em Silveiros, Barcelos.

Dentro da casa Miranda o português é praticamente a única língua falada. Os sotaques do Norte do País misturam-se com os do Centro, do Sul e até das ilhas. Ali esquecem-se as quezílias regionais. A única disputa que não desaparece é a do futebol.

"Mesmo em França procuramos frequentar cafés portugueses, comer comida portuguesa, estar com os nossos compatriotas. Tentamos ao máximo tornar este país um pouco menos estranho. A felicidade é grande quando ouvimos alguém falar a nossa língua, quando comemos um bacalhau ou uma feijoada à portuguesa", afirma Paulo Meira, de 43 anos, cuja família vive em Famalicão.

Os dias, as semanas, os meses são passados a pensar na hora em que vão regressar a casa e à família. Quando acabam o trabalho, muitos emigrantes não esperam nem mais um minuto e de malas feitas partem de imediato para uma longa viagem que dura, no mínimo, meio dia.

"No dia em que sei que vou partir ponho logo as malas no carro de manhã e no final do trabalho arranco para Portugal. Não me importo de fazer a viagem de noite. Quero é chegar cedo a casa para poder ver a minha mãe e os meus vizinhos", conta João Manuel, de 40 anos, natural da serra da Estrela e que está em França há oito anos.

As histórias de portugueses vítimas de tragédias na estrada são muitas. Poucos são aqueles que não têm um amigo, um familiar , um conhecido que não sofreu um acidente. Muitos sentiram na própria pele o medo de perder a vida.

"Há cerca de dois anos estava a regressar a casa, na Covilhã. Já era de noite e faltavam poucos quilómetros para chegar a casa quando o sono tomou conta de mim. Ainda pensei parar um bocado, mas tinha tantas saudades dos meus pais que resolvi continuar. Acabei por adormecer e cai por uma ribanceira. O carro ficou desfeito e eu sofri muitos ferimentos", recorda Mário Lopes, de 49 anos, que está emigrado há sete.

Emigrado com a esposa há 49 anos em Bordéus, João Carneiro, de 78 anos, natural de Paços de Ferreira, foi também um dos portugueses que escapou por pouco à morte no regresso a Portugal. O reformado, que todos os sábados se dirige à feira de Bordéus para vender alguns produtos que cultiva no quintal de casa, sofreu há quase 20 anos um violento acidente alguns quilómetros antes de conseguir passar a fronteira para Portugal.

"Ia em excesso de velocidade para tentar chegar a casa o mais rápido possível e naquela altura as estradas não eram tão boas como hoje. Numa curva não consegui controlar o carro e despistei-me. Não morri por um triz, naquele dia sei que Deus esteve do meu lado", conta o idoso.

Os emigrantes são unânimes e apontam a pressa e a saudade como os grandes causadores dos acidentes. Tanto que, hoje em dia, muitos começaram a fazer o regresso de avião. Célia Rodrigues, de 35 anos, e o marido Armando Neto, de 40, naturais de Miranda do Douro, vendem produtos tradicionais portugueses nas feiras, e sempre que regressam à terra natal evitam a todo o custo o carro. "As estradas são muito perigosas. Queremos chegar a casa, não morrer no caminho", explica Célia.

A 27 de Abril, na A10, entre Bordéus e Paris, a viagem das duas famílias minhotas acabou no choque com um camião-frigorífico. A fama daquela estrada ser o cemitério de portugueses foi novamente confirmada.

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