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Emmanuelle: eventualmente chocante

O erotismo como filosofia de vida tornou-se um ícone da libertinagem.
João Pedro Ferreira 31 de Março de 2019 às 10:30

Para 350 milhões de espectadores em todo o Mundo, o rosto de ‘Emmanuelle’ será sempre o da atriz holandesa Sylvia Kristel na cena de sexo na casa de banho de um Boeing 747 da Pan Am, fazendo parar o trânsito nas ruas de Banguecoque ou sentada numa cadeira Pavão (desde então conhecida como ‘cadeira Emmanuelle’; a cena foi filmada em La Digue, nas Seychelles). Mas muito antes do filme de 1974 já o nome andava associado a "cenas eventualmente chocantes".

Em 1959, saiu em Paris uma edição anónima com aquele título. O manuscrito fora enviado de Banguecoque, assinado por Emmanuelle Arsan, pseudónimo da ‘socialite’ tailandesa Marayat Andriane (1932-2005), mulher do diplomata francês Louis Rollet-Andriane.

O livro – em grande parte autobiográfico e, segundo testemunhos de amigos, escrito a quatro mãos por Arsan e o marido – conta as aventuras eróticas de uma libertina numa utopia sexual onde a procura do prazer derruba tabus morais e sociais. Curiosamente, o mentor desta filosofia de vida (‘Mario’, interpretado no filme por Alain Cuny) é inspirado numa personagem real, o príncipe italiano Alessandro Ruspoli, figura do jet-set internacional e amigo de Arsan e do marido.

Em 1974, Just Jaeckin adaptou a obra ao cinema e realizou um filme de culto. Embora tenha morrido em 2012, com 60 anos, Sylvia Kristel ficou imortalizada como ícone da libertinagem feminina. A criadora, Emmanuelle Arsan, morreu em 2005, com 73 anos.

Do livro ‘Emmanuelle’, trad. da edição francesa das Ed. Éric Losfeld

"– Quer mesmo ser minha amante?

– Mas, Emmanuelle…

Ela cala-se, acaricia o cabelo solto, fica à espera.

As mãos de Emmanuelle afastam-lhe as longas pernas, roçam a abertura que as separa, penetram-na devagar. Bee suspira, deixa cair os braços ao longo do corpo, fecha os olhos. Emmanuelle aproxima a ponta da língua da fenda estreita e regular como um sexo de virgem. Ela humedece toda a extensão dos bordos da vulva, lambe o interior e depois procura o clítoris, estimula-o fazendo-o vibrar, amacia-o com a saliva, fá-lo ir e vir entre os seus lábios como se fosse um pénis minúsculo. Ao mesmo tempo, introduz na sua própria vagina o dedo médio dobrado. Com a mão livre, continua a estimular o sexo da amiga. Os seus dedos estão húmidos. Fá-los deslizar entre as nádegas. Estas levantam-se para que Emmanuelle possa penetrar mais facilmente pelo orifício mais apertado. O dedo enterra-se até ao fim. Só então Bee grita. Continua a gritar durante todo o tempo que Emmanuelle a lambe, a chupa e movimenta a mão entre uma e outra abertura do seu corpo. É Emmanuelle quem primeiro cede ao cansaço. Deita-se de novo sobre o corpo da sua amante, Nem uma nem outra parecem ter força para falar.

(…) – E… gostou da experiência? Está contente?

Bee tem o ar de quem tomou uma súbita resolução. – Desta vez, diz ela, sou eu que vou acariciar-te.

Emmanuelle nem tem tempo de responder. Bee agarrou-a firmemente pela cintura e obrigou-a a deitar-se. Beija-lhe o sexo como faria à boca. Inclina a cabeça de lado, para que os seus próprios lábios fiquem paralelos aos outros lábios. Desliza a língua pela fenda dócil até onde consegue atingir. Com um único sobressalto, Emmanuelle sente-se mergulhada, ao mesmo tempo, em amor e volúpia. Bee não pode experimentar outras carícias: surpreendida por este orgasmo repentino, começa por fazer um gesto de recuo. Mas quando vê que Emmanuelle continua a ser sacudida por estremecimentos, coloca de novo a boca e lambe minuciosamente o suco que escorre da sua amante. Quando se recompõe, diz, a rir: – Nunca pensei que pudesse um dia gostar de beber desta fonte! Pois bem, como vês, agora já gosto.  

(…) Estou a falar a sério, avisa Mario. O erotismo não é um manual de receitas para nos divertirmos em sociedade. É uma conceção do destino do homem, um padrão, um cânone, um código, um cerimonial, uma arte, uma escola. É também uma ciência – ou melhor (...), o último fruto da ciência. As suas leis baseiam-se na razão, não na credulidade. Na confiança, não no medo. E no gosto pela vida, em lugar da mística da morte. (…) O erotismo não é um produto da decadência, mas sim um progresso. Porque ajuda a dessacralizar as coisas do sexo, é um instrumento de salubridade mental e social. E defendo que é um elemento de promoção espiritual, porque supõe uma educação do caráter (…). Gostaria que a virtude suprema fosse a paixão pela beleza. Aí está tudo. O que é belo é verdadeiro, o que é belo é justificado, o que é belo impede a morte de vencer."

Berço de ouro

Marayat Bibidh nasceu numa família da aristocracia tailandesa, com ligações à família real. Casou-se com o diplomata francês Louis Rollet-Andriane.

Colégio na Suíça

Fez o Ensino Secundário no famoso colégio interno suíço Institut Le Rosey, considerado "a escola mais cara do Mundo", onde a propina anual é de 111 000 euros.

Junto a Steve McQueen

Marayat Andriane contracenou com Steve McQueen no filme ‘Yang-Tsé em Chamas’, em 1966. Correu o rumor de que tiveram uma relação.

Sylvia Kristel arrasadora

‘Emmanuelle’ esteve 13 anos em cartaz em Paris. Sylvia Kristel voltou em
‘A Anti-Virgem’, ‘Adeus Emmanuelle’ e, 19 anos depois, em ‘Emmanuelle 7’.

Sequelas e imitações

O filão foi explorado nas sequelas 4 (com Mia Nygren, na foto), 5 e 6. Houve ainda cerca de 30 filmes porno com ‘Emanuelle’ (só com um ‘m’) no título.

A revista do prazer

À boleia do filme, foi lançada em setembro de 1974 a revista ‘Emmanuelle’. Subtítulo: ‘A revista do prazer’. Saíram 22 números, até agosto de 1976.

Literatura erótica
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