Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

Encantadoras de golfinhos

Conhecem os animais como se fossem da própria família, por via de uma profissão que nem sempre é fácil de exercer
21 de Agosto de 2011 às 00:00
Um momento de coreografia subaquática com a tratadora
Um momento de coreografia subaquática com a tratadora FOTO: Pedro Catarino

Quando Vicky, Kobie, Soda e Neo, os quatro golfinhos do zoo de Lisboa, mergulham no tanque raramente vão sozinhos. São nove os tratadores que todos os dias lhes asseguram as cócegas na barriga, o peixe cortado e lavado e também os espectáculos de apresentação ao público em que homem e animal quase se igualam nas proezas subaquáticas. Sem luta e com risos de crianças felizes em fundo.

Ser tratador/treinador dos golfinhos pode ser, pelo menos à primeira vista, a profissão de sonho para quem gosta de água, da Natureza e, sobretudo, destes animais. Mas por detrás da pitoresca aldeia piscatória que serve de cenário aos shows o dia começa cedo e quase nunca com ligeireza.

Às 8h00 da manhã, lá do lado que o público não vê, lavam-se e cortam-se "muitas dezenas de quilos de peixe" que tanto os golfinhos como os leões-marinhos ingerem por dia, em quantidades variáveis conforme o peso corporal e a época do ano (no caso dos golfinhos vai dos 3 aos 8 por cento do seu peso).

São centenas de arenques, cavalas, lulas e outras espécies não comercializáveis que os tratadores deixam a descongelar de véspera e que depois conhecem os preparativos finais também nas suas mãos.

Em dia de reabastecimento é ainda preciso descarregar o pescado, às toneladas, das carrinhas para as câmaras frigoríficas. Servido o ‘pequeno-almoço, seguem-se rotinas de limpeza e cuidados veterinários. Apesar da presença do veterinário, são os tratadores, por estarem mais familiarizados com os animais, que deitam meigas mãos à obra quando é preciso "incomodar um pouco mais", em colheitas de sangue, por exemplo.

CARTA DE CHAMADA

Às 11h00 acontece o primeiro de três espectáculos públicos diários, faça sol ou chuva, calor ou frio. É o momento de ‘suas excelências' os leões-marinhos e as quatro estrelas de barbatanas brilharem. Agora os tratadores têm um protagonismo diferente dos primeiros shows de golfinhos que se fizeram em Portugal, há quase 20 anos. Fazem parte das acrobacias aquáticas, a lembrar excertos de coreografias de natação sincronizada, pese embora a grande distância entre o aparelho motor e respiratório de uns e de outros.

Maria Manuel Oliveira, a veterana tratadora da Baía dos Golfinhos, explica como os mais novos aprendem tais proezas: "Ou conseguem ou... afogam-se!", adianta com um sorriso divertido a rasgar-se no rosto tingido pelo sol.

Aos 43 anos, Maria Manuel não trocava esta profissão por nenhuma outra, desde o dia - e já lá vão 19 anos - em que viu uma apresentação de golfinhos e resolveu enviar o currículo para o zoo de Lisboa. Antes trabalhava como empregada de escritório e nem queria acreditar na sorte quando lhe chegou às mãos a carta de chamada.

Mantém o entusiasmo desses tempos mesmo no pico do Inverno, quando o frio aperta e é preciso entrar na água gelada e passar o resto do dia com o corpo molhado entre shows, treinos e cuidados. E guarda das filhas (um par de gémeas, de nove anos) o melhor epíteto sobre maternidade e profissão: ao entrarem numa peixaria, concluíram "que cheirava muito bem, cheirava ‘à mamã'".

De vez em quando leva trabalho para casa, como noutra qualquer actividade: "Às vezes vou daqui a pensar neles. Trabalhar com animais significa observá-los muito e perceber que, por mais amistosos e amigáveis que sejam, são sempre animais selvagens. Eles também tem os seus dias, dinâmicas de grupo, namoros, liderança, ciúme... e é essa observação, esse instinto, que nos ensina. Depois é preciso perceber o que é que eles gostam de fazer, porque isto para os animais é uma brincadeira e é precisamente isso que os torna tolerantes", descreve.

GENTE DE FIBRA

Mas nem todos são feitos da mesma fibra. "Muita gente não se habitua. Geralmente chegam aqui como voluntários, com o sonho de virem a ser tratadores dos golfinhos, mas assim que percebem que isto não é apenas o que se vê de fora desistem. Há uma ilusão em relação à profissão".

Nem todos são "um peixe fora de água" - descrição da mãe de Mafalda Magalhães, 22 anos, e uma das mais jovens dos nove tratadores. "Fui para a natação com três anos e desde os cinco que quero fazer isto", afirma para justificar o enlevo maternal.

Tem um golfinho e um leão-marinho tatuados na pele e na alma, como marca indelével da sua profunda dedicação à profissão que escolheu na infância. Por isso chegou ao Delfinário com apenas 15 anos, mas foi das que não se vergou, talvez porque a paixão por aqueles animais sempre falou mais alto do que outros valores...

"Quando era adolescente e comecei a trabalhar aqui só falava disto aos meus amigos. Hoje fiz uma festa à Vicky, ontem estive a ver o Neo treinar... enfim, eles achavam-me uma seca. Mas no início a única coisa que fazia era as limpezas, dava apoio ao público nos espectáculos e, como bónus, deixavam-me alimentá-los de vez em quando", recorda.

Para se ser tratador de mamíferos marinhos só é preciso o 12º ano e saber falar inglês. Mafalda ainda chegou a pensar em tirar o curso de Biologia Marinha mas como os livros não são o seu "forte" o projecto ficou adiado.

Depois de algum tempo no Delfinário, e caso o recrutado siga mesmo a carreira de tratador, então aconselha-se o curso de mergulhador.

O resto da formação é feito ‘in loco' no Delfinário de Lisboa e só com "aulas" práticas, que começam pela aprendizagem das formas de manutenção de higiene nos ‘aposentos' dos golfinhos e dos leões-marinhos (os segundos requerem especial cuidado por serem animais que tanto se movem no meio aquático como em terra) e os cuidados básicos.

Se o candidato demonstrar, como Mafalda, paixão e vontade, "então é feita a apresentação das pessoas aos animais (e não o contrário!), a aprendizagem dos sinais e das técnicas de reforço, e por último a introdução das técnicas de treino", explica Maria Manuel, sobre um processo de formação que, tal como numa universidade, nunca está concluído em menos de três ou quatro anos.

COMPORTAMENTOS NATURAIS EM CATIVEIRO

Neo (macho, sete anos), Vicky (fêmea, 15 anos), Kobie (fêmea, 18 anos) e Soda (fêmea, 37 anos) são os quatro golfinhos do zoo de Lisboa. Nenhum nasceu em terras lusas, mas parecem sentir-se em casa, ao reproduzirem, nos espectáculos, muitos dos seus necessários comportamentos naturais, como comunicar, transportar objectos e, claro, brincar na água, elevando-se no ar. Tudo isto se deve também à chamada inteligência dos golfinhos, que segundo os cientistas estará algures entre um cão e um chimpanzé e que lhes permite, por exemplo, "falar".

Os golfinhos usam uma linguagem que soa a qualquer coisa parecida com assobios, dez vezes mais rápida que a nossa fala e dez vezes mais alta em frequência. Outra particularidade na comunicação dos golfinhos é o sonar, que lhes permite determinar as reacções internas de outros golfinhos, humanos ou peixes, e detectar coisas tão fascinantes como perceber se alguém está ferido.

NOTAS

GULOSEIMA

Os golfinhos adoram gelo (sobretudo com sabor a peixe!) e essa é uma das guloseimas que lhes são dadas no zoo de Lisboa.

ALIMENTO

Existem empresas que se dedicam em exclusividade à captura de peixe para delfinários.

IDADE

A esperança média de um golfinho é de 40 anos. A mais velha do zoo de Lisboa tem 37, ou seja, está na idade de avó.

CARINHO

A razão porque os golfinhos gostam de festas está na sua pele que, tal como a dos humanos, está repleta de terminações nervosas.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)