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Correio da Manhã

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Encontros de 4 minutos

É uma nova moda importada directamente dos Estados Unidos. Bastam quatro minutos para fazer uma amizade. Ou algo mais. Para os mais tímidos. Ou para quem não tem tempo a perder.
24 de Julho de 2005 às 00:00
Encontros de 4 minutos
Encontros de 4 minutos FOTO: Pedro Catarino
As mulheres foram as primeiras a chegar. Começaram a aparecer num bar do Parque das Nações, em Lisboa, a partir das 20h30, hora prevista para o check-in do primeiro encontro ‘Speedparty’ realizado em Portugal.Algumas foram sozinhas, mas outras preferiram ir acompanhadas por uma amiga ou um amigo. Faltavam poucos minutos para as 21h00, hora prevista para o início do evento, quando os homens foram surgindo, um a um, para grande alívio das participantes.
A primeira coisa a fazer, depois de lançar um breve olhar em redor para avaliar a aparência de todos os participantes, foi fazer o check-in. Confirmar a presença, reservada através de inscrição prévia feita através do ‘site’ na internet (www.speedparty.net).
Foi entregue um cartão e uma esferográfica, para apontar o nome e o número dos participantes do sexo oposto e as observações sobre a pessoa. Cada participante era identificado pelo nome próprio e um número, a constar num autocolante para colar no peito.
Sérgio 3, a rondar os 25 anos, aproxima-se do bar. Senta-se num banco de pé alto, copo na mão, e faz uma abordagem directa. “Estamos aqui para nos conhecermos todos e não gosto de beber sozinho.” Simpático e comunicativo, admite que não quis parecer ansioso. “Cheguei pontualmente às oito e meia mas preferi dar uma volta lá fora e esperar um pouco antes de entrar”.
Ao correr do balcão do bar perfilam-se as mulheres, sentadas e voltadas de costas para o centro da sala. Vão cavaqueando com a vizinha do lado, parecem descontraídas. Um homem de terno escuro, a rondar os trinta e muitos, encosta-se ao balcão virado de frente e vai apreciando em seu redor. De vez em quando fixa o olhar penetrante.
No piso superior, onde estão dispostas as duas filas de mesas, seis de cada lado, onde os participantes se irão sentar, está uma mulher, só, virada de costas para todos. Os cabelos compridos escondem-lhe o rosto. Parece reservada e abstraída, não toma uma bebida, como todos os outros, não esboça uma expressão. Nisto chegam alguns jovens e ficam um pouco de lado, também a observar.
O organizador pede então a atenção de todos e avisa que um participante está atrasado. Pede a compreensão para a sua espera. Passam uns 25 minutos e a expectativa vai aumentando na sala à medida que os olhares vão sendo trocados entre uns e outros.
Às 21h30 o organizador entende não fazer esperar mais os presentes. Dá breves explicações sobre os encontros, as mulheres ficam sentadas na mesa com o número respectivo, e ao fim de quatro minutos soa um sino que indica que o encontro terminou. Os homens devem passar à mesa seguinte. A luz ambiente cria uma atmosfera envolvente, mas a música está um pouco alto e faz elevar um pouco o tom de voz.
Mário 11 senta-se à mesa e dá um sorriso charmoso. “Olá, queres fazer tu primeiro as perguntas ou faço eu?”. Para não parecer um inquérito opta-se por um estilo de diálogo. Bom conversador, simpático. Soa o sino num ápice e nem se dá pela passagem dos quatro minutos. Dança das cadeiras e senta-se o Ricardo 10. Cara afogueada, a revelar uns dias de praia. “Olá, sou o Ricardo 10. O que é que fazes? Eu trabalho na Tabaqueira”, diz ele enquanto se estica um pouco em cima da mesa para se aproximar mais. Parece avaliar cada centímetro de pele. “Gostas de ler? Qual foi o último livro que leste?”, soam a perguntas aconselhadas no site da organização. Próximo, segue-se o Luís R. 9. Veste um pólo laranja a fazer sobressair o tom moreno, é atraente. Deve rondar os 26 anos. “Que é que fazes? Sou gráfico”. Deixa a conversa correr e parece escutar atentamente as palavras dela. Fala pouco. Mais tarde sabe-se que, afinal, é jornalista.
O Telmo 8 destaca-se de todos os outros homens. É baixo, magro, veste uma camisa branca, que lhe fica larga, calças pretas a combinar com os cabelos, desalinhados, e os óculos rectangulares. Sobressai ainda pelas suas gargalhadas, estridentes. Tem uma expressão simpática, mas atalha de imediato: “Sou informático, percebo bastante de computadores, mas não quero falar disso. Dizem até que sou muito bom, mas não me considero nenhum ‘hacker”. Porquê participar num evento deste género? “Porque não gosto de conhecer pessoas virtuais, mentem”, estende a mão e toca no braço da mulher à sua frente.
Soa mais uma vez o sino. Aproxima-se o homem do terno escuro e apresenta-se. “Olá”, o autocolante no peito identifica-o como Luís 7. A conversa gira em torno da profissão. É sociólogo e trabalha numa empresa de marketing. Fala baixinho, quase sussurra, e a música abafa-lhe por vezes as palavras.
Depois da simpatia de Daniel 6, informático, surge João O. 5. É arquitecto. Conta que o seu projecto actual é a construção de um jardim infantil e admira o projecto da Casa da Música, no Porto. “Os materiais que foram escolhidos e a forma como estão combinados é fantástica. Gostaria de um dia ter assim um projecto como aquele museu, vale a pena visitar”, aconselha. Chegou a hora de fazer um pequeno intervalo, que foi aproveitado pelos participantes se conhecerem um pouco melhor. Agora já há pequenos grupos, um ou outro participante não se junta aos outros e um deles vai lá fora fumar um cigarro, que não é permitido durante o evento.
Soa novamente o sino e são retomados os encontros. João C. 4 o jovem alto, bem parecido, barba por fazer a dar-lhe um ar um pouco selvagem. É jornalista e está desempregado há quatro meses. Talvez que estes encontros ultra-rápidos lhe dêem inspiração para um artigo pago à peça. Sorri, enigmático.
É estranha a passagem dos ponteiros do relógio, os quatro minutos parecem um ou dois, no máximo. Nisto soa novamente o toque a indicar que o tempo terminou. Próximo. E a conversa é terminada já a caminho da próxima mesa. Surge o Sérgio 3, o primeiro jovem a dar-se a conhecer no balcão do bar e que não gosta de beber sozinho. Depois de tantos rostos, já parece quase um velho conhecido o profissional da banca.
O Nuno 2 é químico, muito simpático, olhos azuis e um sorriso muito branco. Diz que fez, nessa noite, já uma amizade, com o camarada que se lhe segue, o José 1, e que dali irão tomar um copo juntos. É então chegada a hora da verdade, saber se houve atracção entre os participantes, se alguém sentiu aquela química inexplicável que faz dois seres desconhecidos sentirem-se atraídos um pelo outro, ou se houve apenas alguma empatia. Ou não. Os participantes devem, nesta altura, classificar no cartão os seus encontros com os respectivos nomes e números: amizade, novo encontro ou não quer ter nada a ver com o outro.
São entregues os cartões e o João O.5, corpo franzino, desabafa em voz alta aquilo que outros sentem: “Estou esgotado. Tantos encontros deixaram--me sem energia nenhuma.”
Não precisou sentar-se porque a informação que ia ser dada logo a seguir pelo organizador funcionou como um estimulante: os jornalistas estavam à porta e queriam entrevistas.“Não deixem entrar os jornalistas, digam para se irem embora, tenho direito a preservar a minha imagem”, quase que grita João O. 5, visivelmente bastante nervoso. Não é o único. Uma professora, a participante que no início parecia muito reservada, tem a mesma opinião.
Ao fim de alguns minutos os participantes lá acabam por sair para a rua, depois de saberem que os jornalistas se tinham ido embora. No exterior há quem troque e-mails uns com os outros, indo contra as regras do jogo. Agora é tempo de esperar pelo dia seguinte e aceder ao mail pessoal, para saber se, afinal, se conquistaram corações ou novas amizades. Ou não.
A ORIGEM DO FENÓMENO
O “Speed Dating” surgiu em 1999 na Califórnia, EUA, e foi uma fórmula inventada pela comunidade judaica daquela cidade, para que os seus membros se encontrassem. Desde então este conceito original tem vindo a ter bastante sucesso nas principais cidades de todo o mundo e já se converteu num verdadeiro fenómeno social.
É uma forma rápida e divertida de conhecer numa noite 12 pessoas do sexo oposto, num bar seleccionado. A pessoa tem 4 minutos para conversar com cada uma das pessoas e depois decidir quem quer voltar a ver. Se houver um interesse mútuo entre dois participantes, é fornecido a ambos os contactos de cada um. Neste momento os organizadores ponderam criar novas versões dos eventos, vocacionados para públicos específicos: não fumadores, profissionais liberais, gays.
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