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Entre a aventura e o poder

A história da espionagem é uma parte substancial da nossa história política
Francisco José Viegas 25 de Agosto de 2019 às 01:30
Christopher Andrew
Christopher Andrew FOTO: Direitos Reservados

Antes de escrever ‘romances policiais’ eu quis escrever ‘romances de espionagem’ – fiz uma coisa, não fiz a outra. A história do pequeno mundo da "espionagem lusitana" é comovente e, no seu amadorismo e forma de jogar à defesa, merecia entrar num romance de John Le Carré. Não haveria melhor homenagem, e merecida. Estaria fora de hipótese, pelo que sei, um herói português para figurar na galeria de assassinos profissionais de Daniel Silva, embora existam dois ou três operacionais de antanho que conheceram os subterrâneos que os levaram entre a ilegalidade e a aventura.

Uma das vantagens do nosso cenário periférico é essa: a espionagem deve decorrer em colinas áridas mais do que no calor das batalhas. Talvez por isso nas vésperas da II Guerra, e durante o confronto, Portugal tenha sido palco de excelentes movimentações, disputas e encontros. Há sobre isso boa bibliografia, de José António Barreiros a Irene Flunser Pimentel, passando por um romance (imagine-se) de David Leavitt (‘Dois Hotéis em Lisboa’).

Mas uma coisa é a matéria romanesca, outra a espionagem como "grande arte" e como espelho das poderosas estratégias da diplomacia, da política e da economia. Sobre estas, a autobiografia de Kissinger é tudo o que recomendo, para falarmos do século XX, e obras avulsas de Niall Ferguson (biógrafo de Kissinger) – sobre a história da "grande arte", a obra de Christopher Andrew é indispensável. O primeiro volume levava-nos a percorrer os caminhos que iam da história do Egito até à criação das modernas potências europeias; o segundo volume, que acaba de sair, ajuda-nos a compreender as grandes linhas da espionagem da I Guerra até ao 11 de Setembro e as suas consequências. Andrew, que escreveu também sobre "os abusos da espionagem", é magistral e claro. E, sendo a espionagem território minado, é um "trabalho sujo" imprescindível, propício para aventureiros e jogadores. Este livro ajuda a perceber que há constantes abissais na história dos impérios e dos conflitos – chamam-se "operações secretas", que estas páginas dão ideia de estarem sempre muito bem planeadas. Bom, a verdade é que não estão. Mas isso é o que faz os romances.

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