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Entrevista de emprego

“Ela acorda e ele foi-se embora. (...) no escritório, ele age como se nada tivesse acontecido”
Tiago Rebelo 20 de Novembro de 2011 às 00:00
O homem estátua
O homem estátua

Assim que o conhece, decide que não gosta dele. Acha-o presunçoso, demasiado seguro de si. É atraente, mas a sua atitude deixa-a pouco à-vontade. Em contrapartida, ele não se apercebe que provoca esse efeito nela. Pergunta-lhe coisas da vida dela, quantos anos tem, que curso tirou, a sua experiência profissional, porque deixou o emprego anterior. Porque me pagavam mal e não gostava do que fazia, responde-lhe. E o que é que ela gosta?, pergunta-lhe num tom jovial. Sente-se a corar e odeia-o por isso. Remexe-se na cadeira, entrelaça os dedos no colo.

A pergunta soa-lhe demasiado inconveniente, nem sabe bem porquê. Não pode dizer a verdade, ou pode? Que quer simplesmente um emprego, não interessa o quê. Será que vai achá-la estúpida, sem ambição? Neste momento, diz, como as coisas estão, um emprego que pague as contas já é suficiente. Ele faz um sorriso que lhe parece constrangedoramente condescendente. Mas, no fim, oferece-lhe um lugar de secretária. Ela aceita, embora vá para casa contrariada. Contudo, no decorrer de duas semanas a embirração inicial foi-se atenuando e já o vê com outros olhos. Ele trata-a bem, gosta dela e não o esconde. É solteiro, não tem namorada, nada fixo, pelo menos.

Ficam a trabalhar até tarde, ele leva-a a casa, beija-a, passam a noite juntos, mas de manhã ela acorda e ele foi-se embora. Mais tarde, no escritório, ele age como se nada tivesse acontecido. Nos dias seguintes, sente-se incomodada com o seu comportamento, pois parece evitá-la o tempo todo. A relação deles torna-se estranha, até que ele parte numa viagem de negócios.

Uma semana mais tarde, ao regressar, fica a saber que ela se despediu. Quando partiu de viagem, sentiu--se aliviado, mas depois teve saudades dela, da sua presença, de a ouvir rir... Descobriu que gostava mais dela do que quis admitir.

Ela está na sala, a ler um livro depois do jantar. Tocam à campainha, olha para o relógio, admirada, vai ver quem é tão tarde. Olá, cheguei hoje, diz ele quando lhe abre a porta, e disseram-me que te foste embora. Ela sente as pernas fraquejarem. O que é que vieste aqui fazer? Vim saber porque te foste embora. Porque tu não me querias lá, responde. Tenho pensado em ti todos os dias, diz ele, ignorando o comentário, e hoje, quando cheguei ao aeroporto, fui directo ao escritório para te ver. Foste?, espanta-se.

Fui, trouxe-te um presente. Tira uma caixa do bolso, abre-a, é um anel com pequenas pedras brilhantes. Ele segura-lhe a mão, enfia-lhe o anel no dedo. Ela tem o coração num alvoroço. Eu pensei que..., começa a dizer, mas ele abraça-a, beija-a e pede-lhe que volte amanhã, voltas? E então ela abana a cabeça, volto, diz, quase sem voz, amanhã volto.

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