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Correio da Manhã

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“Era difícil habituarmo-nos à sede”

O meu primeiro contacto com as operações deu-se em Junho de 1968, quando fui enviado para destacamentos em Canjadude e Che-che
11 de Julho de 2010 às 00:00
Operação na zona do Burmuleo, em 1969
Operação na zona do Burmuleo, em 1969 FOTO: Direitos reservados

Fui mobilizado em rendição individual, destinado à Companhia de Caçadores nº 5, uma unidade da Guarnição Normal do CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné), que tinha cabos e Soldados da Metrópole de diversas especialidades. Cheguei no dia 2 de Junho de 1968 (embarquei em Lisboa a 28 de Maio) a bordo do NM Alenquer.

O barco transportava material de guerra e outros materiais para as tropas em serviço na província. Antes, estava no Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2, em Torres Novas. Tinha sido promovido ao posto de 1º Cabo Miliciano, com a especialidade de Transmissões de Infantaria, no dia 18 de Abril de 1968. Fui informado da mobilização, teatro de operações e unidade de destino perto do final desse mês.

A par da preocupação da chegada a um teatro de guerra, havia a expectativa de tomar contacto com realidades, até aí desconhecidas. A ida para a guerra já era como que uma certeza, que se desenrolava desde 1961 , contrariamente ao que o Regime pretendia deixar transparecer que o conflito era um assunto já resolvido, o que a realidade desmentia uma vez que se procedia à formação de mais soldados para aumentar a presença militar nos teatros de operações.

Quando cheguei à Guiné em 1968, com seis anos de guerra já decorridos, havia a expectativa de, no terreno, viver o que já me tinha sido relatado, apesar de muito pouco explícito, como eu próprio o faria ao regressar, como defesa e tentativa de esquecer esse passado recente e sempre presente.

ADAPTAÇÃO DIFÍCIL

Para mim como para todos, mas todos, apesar de muitos quererem mostrar o contrário, estávamos numa terra que, apesar de a sentirmos como Portugal, não era o nosso cantinho, na nossa cidade ou na nossa aldeia. Numa unidade africana, como a minha, o número de metropolitanos era reduzido (seríamos no máximo 50 europeus). Também a rotação do pessoal era frequente, o que poderia originar, um sentimento de não integração, dada a alteração ser cíclica, com a partida de camaradas e a chegada de novos, até que chega a nossa vez. O clima também provocava alterações sensíveis no nosso comportamento, com consequências físicas e psicológicas.

A unidade para a qual fui enviado tinha a sede e o comando em Nova Lamego (actual Gabu) e os grupos de combate a guarnecer os destacamentos de Canjadude, Cabuca e Che-che, todos na Zona Leste.

O meu primeiro contacto com as operações deu-se, ainda no mês de Junho de 1968, quando fui enviado para visitar os destacamentos da companhia instalados em Canjadude e Che-che, aproveitando a coluna que iria retirar as nossas tropas do destacamento de Béli e colocá-las em Madina do Boé (evacuada, posteriormente, em Fevereiro de 1969). Ao longo do percurso, viam-se viaturas destruídas por minas, as crateras abertas pelas mesmas minas e ouvíamos o rebentamento das bombas lançadas pelos aviões, tentando limpar os possíveis locais de esconderijo das forças adversas. Era difícil habituarmo--nos ao novo tipo de refeições (as célebres rações de combate) e à sede constante que nos afligia a todos.

Deixei o destacamento de Canjadude, para onde fora destacada a Companhia em Agosto de 1969, no dia 28 de Maio de 1970, exactamente dois anos após ter largado do Tejo. Regressei no ‘Rita Maria’, um barco civil , que partiu de Bissau a 2 de Junho de 1970. Aportámos em Lisboa no dia 10 desse mesmo mês.

PERFIL

Nome: José Marcelino

Comissão: Guiné (1968/70)

Força: Companhia de Caçadores nº 5

Actualidade: Tem 63 anos, é casado e tem três filhos e dois netos. Vive em Odivelas e é técnico oficial de contas

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