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Correio da Manhã

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"Era proibido dar beijos na boca e usar isqueiro sem licença"

Uma viagem às proibições do antigo regime. Os leitores nascidos em democracia poderão até duvidar de algumas mais absurdas.
Marta Martins Silva 23 de Junho de 2019 às 06:00

Num Portugal não muito distante, os namorados que fossem apanhados com a ‘mão na mão’ (um do outro, entenda-se) pagavam dois escudos e cinquenta centavos, multa que aumentava consoante a audácia dos pombinhos. Rezava a portaria 69 035 da Câmara Municipal de Lisboa, datada de 1953, que com a "mão naquilo" a coima era de 15 escudos (7,5 cêntimos de euro); com "aquilo na mão" de 30 escudos (15 cêntimos); com "aquilo naquilo" o valor a pagar era 50 escudos (25 cêntimos); com "aquilo atrás daquilo" tinham de desembolsar 100 escudos (50 cêntimos) e "com a língua naquilo" não só tinham de pagar 150 escudos (75 cêntimos) como eram presos e fotografados.

Há coisas que nunca mudam, seja qual for o regime político e uma delas é que os apaixonados perdem facilmente o amor ao dinheiro em prol da pessoa amada. Para se ter uma ideia do desaire financeiro – e do quanto representavam na altura estes flagrante para a carteira, em 1955, um funcionário do comércio ganhava por dia, em média, 84 escudos (42 cêntimos) e um aprendiz 17 escudos (8,5 cêntimos) .

Naquele tempo, o mesmo Salazar que proibia os avanços apaixonados em público também impediu a entrada da Coca-Cola em Portugal – temia a invasão do ‘american way of life’ -, de forma que o contrabando da bebida era punido pela polícia das alfândegas, o que fazia com que uma carica no mercado dos colecionadores fosse uma espécie de tesouro.

"Esta é a proibição que surpreende mais os jovens com quem falo nas escolas sobre o período da ditadura. Eles sabem, ou esperamos que saibam, que as coisas corriam mal, que havia guerra, que havia fome e analfabetos, mas não sabem em que consistia o dia a dia de um jovem naquele tempo e de que forma o regime interferia no quotidiano", partilha António Costa Santos.

O jornalista fez uma viagem às proibições do tempo da outra senhora, capaz de surpreender aqueles que nasceram em democracia como de recordar aos que conheceram a ditadura de como era ter de possuir uma licença para usar isqueiro, não poder dormir nos bancos de jardim nem jogar às cartas no comboio.

Mulheres (mais) penalizadas

O próprio autor, nascido em 1957, deu por si surpreendido durante a pesquisa para o livro ‘Era proibido’ (Ed. Guerra & Paz/Livros CM).

"Conhecia as proibições de uma forma geral, mas surpreendeu-me o requinte de malvadez de algumas, designadamente as que dizem respeito à mulher: as professoras precisarem de autorização do Ministério da Educação para poderem casar ou os maridos terem o poder de ir ter com o patrão da mulher e dizer para a despedir", enumera. Já as enfermeiras estavam proibidas de casar e nenhuma mulher, fosse qual fosse a profissão, podia viajar para o estrangeiro se fosse casada ("os ditadores são como os pais coruja das donzelas de antanho", diz o autor na página 71), proibição só revogada após a morte de Salazar pelo decreto-lei nº 49 317, do tempo de Marcelo Caetano.

Também era proibido usar biquíni e, a propósito, António Costa Santos conta a história de uma inglesa que, interpelada por um agente da Polícia Marítima aos gritos de "just one piece", no sentido de cobrir a barriga, referindo-se ao fato de banho de uma só peça - nada cá de sutiã e cuecas -, terá entendido menos bem o inglês da autoridade e tirou a parte de cima do biquíni. "Se é só uma peça fico com a de baixo, ok?"

Era ainda proibido uma mulher andar na rua sozinha à noite e as raparigas não podiam ir de minissaia para a escola. "Em muitos liceus femininos havia mesmo uma contínua, na portaria, a zelar pelo bom trajar das adolescentes", escreve o autor. As jovens, mesmo no verão, estavam impedidas de assistir às aulas com os braços à mostra – só podiam arregaçar as mangas até ao cotovelo nas aulas de laboratório de Química. No liceu Maria Amália, em Lisboa, as adolescentes não podiam usar cores como vermelho e preto ou laranja, e preto porque uma certa vice-reitora entendia que tais combinações de cores excitavam os homens.

Nesse Portugal não muito distante era proibido andar de bicicleta sem licença e sacudir o pó à janela. Mas do que o autor se lembra bem é de aos 15 anos ter ido parar ao posto da guarda oito vezes no mesmo mês por atentado à moral pública, que é como quem diz, por causa de uns beijos no jardim. Felizmente, não teve de esperar muito para poder beijar em liberdade: tinha 16 anos na revolução de abril.

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