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"Era soldado, cozinheiro mas tive de ir para atirador", diz militar

Achei que escapava à guerra, mas fui chamado para ir para Moçambique, onde perdi cinco camaradas num ataque.
24 de Fevereiro de 2019 às 11:00
Militares
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Nunca imaginei que ia para a guerra e muito menos o que lá ia encontrar. Comecei a minha vida militar em Aveiro, onde fiz a recruta, e ensinaram-me que quando fosse para a carreira de tiro não devia mandar nenhuma bala ao alvo, pois assim não ia "lá para fora".

Mas um dia a esposa do segundo comandante perguntou-me o meu número, que era o 15247, e ela disse: "Olha que o teu número é um bocado baixo, e estás sujeito a ir lá para fora. Mas pode ser que não!" E a verdade é que um dia cheguei da Barra, viraram-se para mim e disseram: "Ó Sebastião, vai ali ver a lista."

Lá veio assim a notícia de que estava convocado e ia então juntar-me à companhia 1618, em Setúbal, que pertencia ao Regimento de Infantaria 1 da Amadora, onde me puseram a aprender a cozinhar, porque não tinha qualquer especialidade. Não sabia cozinhar mas lá comecei a aprender...

Parti a 16 de novembro de 1966 no navio ‘Império’ e só regressaria 25 meses mais tarde, a 19 de janeiro de 1969. No barco eram camas e mais camas de soldados, um calor infernal, tantos homens e tão pouco espaço.

À chegada, após a terrível viagem de barco, estivemos em Lourenço Marques e depois seguimos para o norte de Moçambique. Passámos um dia na Beira e fomos na direção de Porto Amélia, onde estivemos um mês.

Sem dinheiro, sem nada. Ate que o capitão lá conseguiu arranjar crédito num barzito qualquer, um maço de tabaco para cada um até chegar o avião com o dinheiro. Depois houve uma altura em que havia tabaco mas para comer só arroz e atum, arroz e atum, durante dois ou três meses. E ali não havia nada. Éramos 160 homens.

Depois fomos para a zona mais perigosa de Moçambique, a Mutamba dos Macondes, onde só havia duas casas em pedra. Nós dormíamos em abrigos debaixo da terra, estivemos lá sete meses e sempre debaixo do chão, com cobras, baratas e ratazanas, não admira que tenhamos ficado conhecidos como os ‘Toupeiras da Selva’.

Eu era soldado, um soldado básico que se tornou cozinheiro e que a certa altura, quando morreram cinco camaradas num ataque a uma coluna de 26 soldados – o que fez com que a companhia deixasse de ter homens suficientes –, teve de ir para o terreno. O capitão pediu um voluntário para ir para o lugar daqueles que morreram e lá fui eu para atirador... até me rebentaram umas minas à frente.

Outro dia que não esqueço foi o 27 de outubro de 1967, estava eu a fazer o exame da quarta classe. Lá na tropa perguntaram quem queria fazer o exame, e eu disse que queria. Então nesse dia estava a fazer o exame e houve um grande ataque ao nosso acampamento.

Tivemos sorte porque eles não sabiam dirigir a artilharia, senão matavam-nos a todos e não sobrava ninguém. Lembro-me de que as granadas caíam para a esquerda e para a direita. Tenho colegas que ainda trazem estilhaços no corpo.

Futebol e caça
Depois, mais para o fim da comissão, jogávamos futebol de salão e até já tínhamos uma equipa de futebol. Praticamente todos os dias íamos jogar e o dono de um restaurante pagava-nos uma jantarada de vez em quando. Era um entretém que nos distraía nos últimos meses, quando já estávamos quase de partida e os dias eram menos pesados.

Chegámos a ganhar três torneios, tanto de futebol de onze como de futebol de salão. Findo o período mais difícil íamos também duas vezes por semana ao safari e à caça à gazela, tínhamos que ocupar o tempo que passava tão devagar.

Não se volta igual de uma experiência assim. E também nunca se esquece o que por lá vivemos, todos juntos. E é por isso que, desde que regressei de França, onde estive emigrado, faço questão de ir todos os anos aos convívios de ex-combatentes: nós éramos uma verdadeira família.

NOME: Sebastião Santos
COMISSÃO: Moçambique (66-68)
FORÇA: Companhia de Caçadores 1618, as Toupeiras da selva
+INFO: 74 anos, casado, dois filhos e cinco netos

A Minha Guerra Moçambique soldado cozinheiro atirador
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