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“Era uma alegria enorme vê-los chegar vivos”

Logo à chegada ao Hospital de Luanda vi o lema que segui toda a comissão: ‘Salvar da morte os que à Pátria dão a vida’
Marta Martins Silva 22 de Setembro de 2019 às 10:00

Iniciei  o serviço militar aos 21 anos e ingressei no Regimento de Caçadores nº 6, em Castelo Branco, em 21 de outubro de 1969, onde fiz a recruta e o juramento de bandeira. Meses depois fui transferido para o Regimento de Saúde de Coimbra, onde   frequentei o curso para enfermeiro militar e fui promovido a 1º cabo.

Entretanto, já tinha concluído o curso de enfermagem na escola de enfermagem de Castelo Branco onde tinha ingressado aos 18 anos. Em 1970, fui colocado no Hospital Militar Principal, em Lisboa, onde permaneci até novembro do mesmo ano. Nesse mês fui mobilizado para Angola, com mais três camaradas. Fomos em "rendição individual", não integrados numa companhia.

Embarcámos no navio ‘Amélia de Melo’, que ia realizar um cruzeiro, a fazer escala em Cabo Verde, na cidade de Mindelo. Em dezembro, desembarcámos em Luanda.  

À chegada ao Hospital Militar, deparei-me com o lema da Instituição: ‘Salvar da morte, os que à Pátria dão a vida’. Esta inscrição iria ser a minha motivação ao longo de toda a comissão. Eu levava a indicação de que ia render um camarada no Banco de Urgências, que tinha terminado a sua comissão.

Alvo a abater
As emboscadas aos nossos camaradas eram frequentes. No Natal de 1970 houve uma evacuação de feridos e algumas ‘baixas’, pelo que depois do ocorrido planeei como iria ser a minha atuação nessas situações. Comprei alguns livros sobre saúde, com o objetivo de me manter atualizado, e passei a   oferecer-me como voluntário para fazer as evacuações de feridos, o que acabei por fazer muitas vezes.

Recordo a primeira evacuação: havia uma clareira no mato, um círculo formado por camaradas, e quando saltei do helicóptero, o alferes gritou-me: "Tira a bata, és um alvo a abater." Serviu-me de lição: nunca mais utilizei a bata nas evacuações.

Devo referir que, nas emboscadas, também os ‘residentes’ que colaboravam com as forças inimigas, quando sofriam ferimentos, eram evacuados para o hospital. Depois de dignamente assistidos eram internados numa enfermaria designada por ‘Prisão’. Houve um casal nestas circunstâncias que tinha um filho de três anos, chamado Malaca, que deambulava pelo hospital. Tornou-se meu amigo incondicional: procurava-me frequentemente e eu oferecia-lhe o pequeno almoço na cantina.

Tempos depois, os pais recuperaram e tiveram alta hospitalar, levando o filho consigo. Nunca soube qual o seu destino e perdi para sempre o rasto do meu amigo Malaca.

Durante a comissão houve episódios de que ainda hoje me recordo: certa noite, acorreu ao Banco de Urgências um oficial de alta patente, que se opôs a que um 1º cabo enfermeiro lhe verificasse os parâmetros vitais. O cirurgião de serviço, um capitão miliciano, interveio e explicou ao oficial que eu era "baixo no posto, mas conhecedor na matéria".

Eu era de  facto conhecedor, o que contribuiu para que fizesse a evacuação de feridos e era uma alegria enorme vê-los chegar com vida ao hospital.

Mantive bem viva a inscrição que tinha lido quando cheguei ao hospital, anos antes, pautando-me sempre pelo espírito de sacrifício, abdicando muitas vezes de horas de repouso para ocorrer a necessidades de serviço ou ajudar a socorrer feridos, o que fiz com toda a dignidade. No final da comissão fui louvado pelo diretor do Hospital Militar de Luanda.

Regressei a Portugal a 31 de dezembro de 1972, a bordo de um avião da TAP. Na guerra houve situações que nos marcaram para sempre e que contribuíram negativamente para a nossa conduta futura e modo de estar na vida.

O que nos aconteceu irá acompanhar-nos até ao fim das nossas vidas.

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