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“Eram uns 50 e foram enterrados numa vala comum”

Depois de uma mina levar quatro dos nossos, revoltados, fomos à sanzala e trouxemos a população para o quartel.
25 de Julho de 2017 às 17:57

Assentei praça como voluntário, a 11 de abril de 1960, no 2.º Grupo de Companhias de Saúde, em Coimbra. Embarquei para Angola, no navio ‘Moçambique’, a 15 de junho de 1961. A minha unidade, a Companhia de Automacas 197, esteve três semanas perto do Hospital Militar de Luanda, antes de ser dividida em 15 secções – cada uma com um sargento, três cabos e três soldados condutores -, depois enviadas para vários batalhões operacionais. À minha calhou o Batalhão de Infantaria 109, que se destinava a Ambrizete, no Norte de Angola.

Fomos para a zona de Bessa Monteiro – uma zona perigosa do Norte de Angola, onde estivemos seis meses. Todas as noites éramos atacados, mas não sofremos baixas. Já nas patrulhas era diferente. Houve mortos e feridos. Certo dia, vinham ter connosco militares, quando a 50 metros dos abrigos foram atacados. Respondemos, os guerrilheiros fugiram, mas ainda tivemos cinco baixas.

Recordo, ainda, uma patrulha que partiu de Ambrizete com mantimentos. Era comandada por um sargento imprevidente que colocou o carro mais pesado e com soldados inexperientes no último lugar da coluna. Numa subida íngreme, a viatura mais pesada e lenta perdeu o contacto com as da frente e foi atacada a metralhadora. O cabo, que ia ao lado do condutor, morreu logo. Isto deu alarido. O comandante do batalhão mandou formar as tropas e avançar o sargento. Em voz alta, para que todos ouvissem, disse-lhe que o mandava embora do batalhão, mas o que lhe apetecia era arrancar-lhe as divisas.

Episódios violentos

O Batalhão 109 regressou a Ambrizete e foi mandado para o Sul, onde quase não havia guerra. A minha secção acabou por seguir mais para Norte, para São Salvador do Congo. Nesta zona, onde os combates eram violentos, andava o Batalhão de Cavalaria 345, comandado pelo então tenente-coronel Spínola.

Em São Salvador tive a infelicidade de conhecer um major que, vim a saber mais tarde, era filho do ex-presidente da República marechal Craveiro Lopes. O major Craveiro Lopes entrou certo dia na tenda do posto de socorros, onde me encontrava de serviço. Queria que eu lhe desse uma injeção – e mais ninguém precisava saber, disse-me. Argumentei que não o podia fazer, pois teria de levar o caso ao médico.

O major saiu disparado e eu contei o episódio ao médico João Cura Soares. Passada uma semana, chegou uma participação com origem no major Craveiro Lopes. Dei conhecimento ao médico e foi anulada. Outras duas tiveram o mesmo destino, mas o major sempre conseguiu que me aplicassem um castigo e foi assim que, já com 22 meses de serviço, fui transferido para o Batalhão 156, em Santo António do Zaire, onde uma vez em patrulha, vi rebentar uma mina e morrer quatro militares. Foi em julho de 1963. Tinha 24 meses de comissão e só pensava no regresso. Fomos à sanzala mais próxima e levámos a população para o quartel. Mulheres e crianças foram para local seguro, mas os homens foram postos no meio da parada sentados no chão e espancados por cada militar.

Eu fui para a enfermaria, onde ainda tratei de alguns. Disse ao segundo-comandante que, se o destino deles estava traçado, o que fazia eu na enfermaria? Ele respondeu-me: "Tens alguma razão, mas eu não te dou". Então disse-lhe que não tratava de mais ninguém. Na manhã seguinte, ainda havia quatro ou cinco vivos, mas muito maltratados. O oficial de dia mandou abrir a porta de armas e ele saíram a rastejar para serem abatidos a tiro. Não escapou nenhum e eram uns 50, que foram enterrados numa vala comum dentro do quartel.

Depoimento de:
António Gregório
Angola 1961-63


A minha guerra Angola
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