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“Éramos um por todos e todos por um”

Ainda recordo o som dos helicópteros que levavam os mortos. Valia-nos a profunda interligação entre camaradas e os conselhos dos mais velhos
27 de Maio de 2012 às 15:00
Nas trincheiras de Mueda, para onde saltávamos sempre que havia sinais de ataque iminente do inimigo. Atrás estão ‘cubatas’ da aldeia
Nas trincheiras de Mueda, para onde saltávamos sempre que havia sinais de ataque iminente do inimigo. Atrás estão ‘cubatas’ da aldeia FOTO: Direitos reservados

Por minha opção, aos 18 anos fui comovoluntário fazer provas de admissão no regimento de Caçadores Pára-quedistas, tendo ficado apurado para todo o serviço militar a 28 de Agosto de 1973.

A 8 de Outubro de 1973, entrei para a recruta na companhia de alunos, tendo como comandante de pelotão o primeiro-sargento Pacífico, o segundo-sargento F. Marques (além de outro segundo-sargento do qual não me recordo o nome) e o cabo Rodrigues. Seguiu-se o curso de combate e o curso de pára-quedismo, sob o lema ‘Instrução Difícil Combate Fácil’. Tinha acabado de ganhar a boina verde quando se deu o 25 de Abril. Na véspera, mandaram-me embarcar de avião com destino a Lisboa.

Andei pelo Restelo; tentava-se prender alguém que ainda hoje não sei quem era. No dia 25 fui também para o aeroporto manter a segurança.

EMBARQUE TARDIO

Só depois disso fui mobilizado para Moçambique, para integrar o BCP 32 em Nacala. Embarquei no dia 7 de Junho de 1974 com escala em Luanda e chegada à Beira um dia depois. Após uma curta estadia no BCP 31, segui novamente de avião e cheguei ao meu destino. Feitas as praxes aos ‘checas’ – era normal, pois assim se cumpriam as tradições com quem chegava de novo –, fui parar à 2ª Companhia. Estava lá apenas há um dia ou dois quando fomos para a famosa Mueda, onde logo se dava conta de outra realidade, bem mais marcante na vida de quem a viveu.

Tenho de dizer que nos valia a profunda interligação entre camaradas, sobretudo os mais velhos, que nos ajudavam e nos aconselhavam. Existia uma verdadeira camaradagem nos ‘páras’ e o lema ‘um por todos e todos por um’ era uma verdadeira realidade. Ainda hoje o é.

A primeira missão não tardou. Na mata, em fila indiana, um de nós a abrir caminho com a catana. O silêncio total. Lembro-me bem de que nessa altura se dizia que já não havia guerra. Mas havia. E bem. Era matar ou morrer se sofrêssemos uma emboscada nas picadas. Éramos atacados quase todas as manhãs. Para se fazer 50 a 60 quilómetros demorámos quase 10 dias, por causa do rebentamento de minas ou de rajadas de tiros vindos de todos os lados.


Valeram-nos dois aviões, mas ainda hoje sinto o barulho dos rockets, dos helicópteros a fazer o transporte dos mortos e dos feridos. Não sei contar quantos. Apenas destacar dois ‘páras’ feridos: um do Algarve e outro, de nome Brites, que veio a falecer mais tarde, na Beira. Recordo ainda com especial reconhecimento um conterrâneo de nome Miguel Nave Lourenço, da Companhia de Comandos N2043, que estava em Mueda e, sabendo que estava em missão de combate, preocupava-se em ir ver chegar os feridos e os mortos para se inteirar de mim e do meu estado de saúde. Obrigada por tal acto!

Depois da ocupação, por parte de civis, da Rádio Clube de Lourenço Marques, fomos transportados de avião até lá para repor a ordem, tendo depois ficado ali alguns meses: ora a guardar o palácio do governador, ora no aeroporto, até à transição de soberania de Portugal para o povo moçambicano.

Mesmo em Lourenço Marques houve problemas, como a agressão a três ‘páras’ que passeavam à civil pelas ruas da cidade. Tragédias que não se apagam da memória de quem viveu aqueles tempos.

PERFIL

Nome: Mário Massano Abrantes

Comissão: 1974-1975

Força: BCP 32

Actualidade: Reside em Manteigas. Casado, duas netas

Guerra Colonial Guerra do Ultramar Moçambique
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