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ERROS DE MORTE

Rudolph, que sempre se afirmou inocente, é o 23º condenado à morte que se vê inocentado desde 1973, no solarengo Estado da Florida
31 de Janeiro de 2003 às 19:24
Rudolph Holton tem 49 anos e passou os últimos 16 no corredor da morte numa dessas prisões de alta segurança dos Estados Unidos. Este senhor, condenado à morte pelo assassinato de uma jovem de 17 anos, em 1986, vai ser agora libertado, depois de se ter concluído que não há material suficiente para a sua condenação. A ausência de provas materiais e a infiabilidade das testemunhas – uma delas confessou que tinha prestado declarações falsas - travaram uma sentença que não permite erros nem dúvidas. Em caso algum.

Rudolph, que sempre se afirmou inocente, é o 23º condenado à morte que se vê inocentado desde 1973, no solarengo Estado da Florida.

A pergunta é: se neste caso, e nos outros 22, a verdade acabou por chegar a tempo, quantas outras histórias terão sido arquivadas no passado com uma pérfida sensação de incerteza? Quantas pessoas terão entrado no túnel da morte com os olhos arregalados não de medo mas de incredulidade, como se esse momento em que se consuma o fim condensa-se os anos que passaram no dito corredor, à espera de um castigo que não lhes pertencia?

A filosofia e a história estão cheias de teorias sobre a importância do erro na aprendizagem humana. Muitas vezes, aliás, são os erros, os fracassos e a raiva que lhe sucede que impelem às grandes mudanças. Mas há limites para arriscar. Se eu escrever uma crónica ou uma notícia e cometer um erro (ortográfico ou de precisão) é grave, com certeza. Porque coloca a nu a minha ignorância – ou distracção – e, em consequência disso, fragiliza o meu papel de comunicadora. Mas quando um erro médico mata uma pessoa ou transforma a sua vida em algo penoso – recordo a história de uma paciente a quem foi detectado um cancro na mama e que depois de se submeter a uma cirurgia para extrair um peito descobriu que, afinal, os seus exames tinham sido trocados com os de outra pessoa – o erro tem, obviamente, outro peso. Da mesma forma que quando um tribunal condena um réu a uma pena de morte, e mais tarde se coloca perante a evidência de que a culpa deste não é evidente, o erro não é só amargo. Sabe a fel.

Quando um inocente é condenado – mesmo que seja a cumprir uma pena de prisão perpétua – há tempo, há esse fluxo de dias , de meses e de anos em que muita coisa pode acontecer; existe a esperança de que o pesadelo acabe e a vida possa não retomar, mas ao menos ensaiar o curso da normalidade. E quando não há tempo?; quando nunca mais há nada que não seja a descarga, o fio de líquido que se entranha no corpo para anunciar o fim de tudo? O que sentirão esses homens ou mulheres?

Bem sei que a vida, muitas vezes, se revela injusta e cruel e nos deixa a pensar no raio de sentido fará tudo isto. Mas esses a quem amputam a possibilidade de esperar ou procurar por uma resposta válida para viver, o que pensarão eles?

Dezasseis anos são uma vida. Como é que se reaprende a liberdade de deambular pelas ruas, de rir a plenos pulmões ou de chorar baixinho de comoção, quando há esse tempo roubado à má fila? Mais: quantos outros anos serão necessários para esquecer que um simples erro hipotecou esse tempo, que poderia ter sido o mais feliz de uma vida?
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