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Escola de gestores e economistas

O que pensam os novos caloiros, que tiram da crise no País lições para um futuro melhor
7 de Outubro de 2012 às 15:00
Numa aula do Iseg, o professor João Duque acompanha os novos alunos
Numa aula do Iseg, o professor João Duque acompanha os novos alunos FOTO: Pedro Catarino

É numa sala com vista sobre o casario de Lisboa e o rio ao fundo que Andreia, Alexandra, Rodrigo, Jessica, Ana Catarina, Aihoor, Octávio e Cassandra começam a aprender conceitos e modelos que podem ajudar a mudar o Mundo. Na idade dos sonhos, estes caloiros de Economia e Gestão no ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão) perspectivam um futuro melhor. Estão na área que muitos dizem ser de futuro e outros acusam de causadora da crise. Para uns, o salto após a licenciatura pode passar pelo negócio da família, outros forjam o destino na batalha diária que travam para se sustentarem numa cidade a vários quilómetros de casa, e outros há para quem o limite é um planeta onde se fala inglês. Todos acreditam, no entanto, "que em Portugal há futuro, mesmo que depois de uma experiência lá fora".

Diz o professor João Duque, presidente do ISEG, que os estudantes chegam cada vez mais bem preparados e, por essa razão, não se espanta ao vê-los tentar resolver a equação matemática avançada por Black e Scholes em dois artigos de 1972 e 1973, que muitos dizem ser causadora do crash que levou à crise actual, "pois partia de paradigmas errados, em que tudo se mantinha constante".

A viver um momento de viragem, o desafio é grande para estes alunos. "Talvez este ano estejam mais alerta e comecem a olhar mais para os intervalos de confiança do que para o valor central. Começam a pôr em causa os parâmetros dos modelos, a ver com olhos críticos e a desconfiar um bocadinho", explica o professor. "A economia portuguesa é das grandes lições, e eles vão ser chamados à atenção para as grandes oscilações pelas quais o País vai passar."

MOVIDO PELAS NOTÍCIAS

O constante noticiário sobre a crise, dívida e dificuldade de financiamento levou Rodrigo Casinha, 18 anos, a trocar a licenciatura em Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico por Economia no ISEG. "Ao fim de três meses, percebi que não era aquilo que queria para a minha vida. Sei que esta área me abre perspectivas, ajuda-me a perceber a realidade, a aprender novos conceitos", diz. Aluno aplicado, com média de 16, estudou sempre no ensino público. Vive no Barreiro, paga 60 euros mensais de passe, mais mil anuais de propina, e admite que o custo pesa no orçamento familiar. "O rumo tem de ser alterado, sinto-o na pele, pois o meu pai, vendedor de materiais de construção, teve de emigrar para Angola." Para já, Rodrigo prefere acreditar num futuro em Portugal, mas admite sair se não encontrar alternativas. "Não ter trabalho na minha área é um receio, mas ainda estou na fase de acreditar."

Porque a história tende a repetir erros e vitórias, o professor João Duque lembra que, ao concluir a sua licenciatura, a falta de emprego era "brutal". O refúgio foi "o serviço militar. Depois fui dar aulas, fiz outras coisas". Neste momento, frisa, "assistimos a oscilações brutais nas variáveis de comportamento. Por exemplo, pegar num lote de 750 mil pessoas, funcionários públicos, e tirar-lhes dois subsídios é uma experiência única. Nunca houve uma alteração de imposto que retirasse dois ordenados de uma vez só e, quando se faz isto, temos uma experiência histórica. Isso vai afectar centenas de milhares de pessoas. Qual é o resultado?", questiona.

Jessica Gaspar, 19 anos, abre os olhos mas não ousa ainda responder. A política inspira a futura economista, que acredita no papel do "empreendedorismo. Temos de fazer alguma coisa por nós", diz a aluna, cuja média de 16,6 lhe valeu entrada no ISEG. Filha de um mecânico e de uma doméstica, com uma irmã já licenciada em Psicologia e "sem problemas de emprego" e um irmão no Básico, estudou no Externato Alberto Faria, de Vila Franca de Xira, onde reside, e vê o futuro com olhos risonhos. Experimentou Gestão no ISCAL (Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa) e melhorou a nota a Matemática A para garantir entrada no instituto da Lapa. "Mesmo neste contexto, em que o mercado é cada vez mais competitivo, acredito que estudar num estabelecimento de ensino de referência nos abre portas e estou satisfeita por ter mudado. Não valia a pena estudar o que não queria." A preferência é por "ficar em Portugal, mas, se tiver de ir para fora, porque não?"


PORTO DE ABRIGO

É de idas e vindas que se escreve a história das famílias de Aihoor Kayoom Aleem e de Alexandra Santos Domingos.

Aihoor nasceu em Portugal, onde os pais chegaram com a família, que, após a revolução de 1974, foi obrigada a deixar Moçambique. Alexandra veio ao Mundo na Suíça, onde os pais estavam emigrados. Chegou a Portugal aos quatro anos, viveu em Viseu e, desde a adolescência, em Cascais. Para Aihoor, Portugal cheira a pátria. O mesmo cheiro que impele Alexandra a poder partir para outro lado. Aihoor viveu em Coimbra até ao 10º ano, quando mudou para Lisboa. "Como sou muçulmana, estudei no Colégio de Palmela, em inglês, e falo também indiano memon. Pensava seguir Ciências Farmacêuticas, mas a dificuldade nas equivalências trouxe-me a Economia, e não me arrependo." Aos 18 anos, com média de 16,2, Aihoor admite que o curso pode ajudar o negócio da família, dona de vários armazéns. "Não era o que eu queria, nem o que os meus pais querem, mas pode ser uma hipótese para começar e ganhar experiência que me ajude a partir depois para outro negócio."

A situação financeira da família garante-lhe folga para suportar os custos de uma vida universitária e abre portas para estudar em Londres. Para já, quer ficar "perto da família".

Viver num país estrangeiro, "enquanto experiência, "é uma ideia que agrada a Alexandra, 18 anos, aluna com média de 17. "Não é um objectivo, mas admito, pois falo bem inglês e francês." A experiência dos pais, donos de uma empresa de construção e de mediação imobiliária, sector em crise, moldou-lhe o gosto pela Arquitectura e Engenharia Civil; a idade e a conjuntura levaram-na à Economia. "Fiz o Secundário em Ciências, mas, como optei pela Economia, candidatei-me aos exames por minha conta e risco e tive bom resultado", admite. Ambiciosa, com objectivo traçado, Alexandra gostava de trabalhar no mercado bolsista, na Euronext Lisbon, e candidatou--se a uma empresa do ISEG. "Essas experiências são muito importantes e, se puderem ser feitas durante o curso, ajudam a adquirir novas competências."

É também para melhorar as suas ‘soft skills’, como gosta de dizer, que Andreia Lopes, 18 anos, caloira com média de 17,7, apostou na Economia. Antiga aluna do Externato Cooperativo de Alcobaça, estuda pela primeira vez no ensino público. As poupanças do pai, técnico de gruas, e da mãe, actualmente desempregada, permitem pagar as propinas e a casa que arrendou com três amigas. "É caro, mas nada que não possam suportar. E estar fora de casa é uma boa experiência, ganhamos independência e aprendemos a fazer as coisas por nós próprios", diz. Andreia acredita que "o País vai melhorar. Lá teremos de nos ajustar, mesmo a ordenados baixos."

Cassandra Marie Custódio, 18 anos, ostenta no ruivo do cabelo e das sardas os genes de outras paragens. Filha de mãe americana, empregada de escritório, e pai português, mediador de seguros, estudou na Secundária de Albufeira, Algarve, e cedo mostrou queda para a Matemática, tal como o irmão, de 20 anos, estudante de Informática. A média de 16,5 não lhe valeu entrada na primeira escolha, Matemática Aplicada à Gestão e Economia. "Entrei na 2º fase em Gestão e, pelas aulas que já tive, não me arrependo, estou até a considerar ficar em Gestão, pois se o curso for à base de Matemática estou bem e obviamente terei oportunidades de trabalho na área de que gosto". Fluente em inglês e português, "gostava de trabalhar fora, reter outras culturas, e voltar. Tenho dupla nacionalidade, acho que trabalhar no estrangeiro traz sempre vantagens a quem regressa", diz.


A aplicação de Cassandra não é só nos números. Pratica futsal e natação e procura suportar as despesas: "Os pais pagam a casa e eu trabalhei no Verão como empregada de mesa e juntei dinheiro, agora estou à procura de um part-time."

Octávio Barros, 17 anos, veio da Madeira para estudar Gestão e acabou por se juntar a um dos dois irmãos, já em doutoramento no ISEG. Partilham casa, e a folha de Excel ajuda-o a fazer cálculos rigorosos dos gastos: "Neste momento, com casa, alimentação e despesas extras, como a compra da secretária, gasto uma média diária de 15 euros." Os custos e uma mesada são financiados pelos pais, empresário na área dos têxteis e marketeer de uma marca de especiarias, a que acrescem os tostões angariados num part-time de seis meses na área de consultoria. Octávio estudou num colégio religioso, era federado numa equipa de futebol e tem um objectivo claro: "Daqui a dez anos, vejo-me como gestor, líder de uma grande empresa a nível nacional ou internacional. Sou aberto a oportunidades no futuro, gostava de realizar Erasmus e depois ir para fora. Portugal está saturado, a nível de emprego e em várias áreas. Ir para fora é uma hipótese que considero. Há mais empregabilidade e melhores hipóteses a nível de rendimentos."

O GENE DOS PORTUGUESES

A fama que os portugueses têm de se adaptar a todas as situações cola-se a Ana Catarina Dias. Nascida e criada em Sousel, no "Alentejo profundo", escolheu no ISEG a licenciatura em Management (Gestão), leccionada em inglês. Aos 18 anos, filha de empresários da área da restauração, reside com familiares no Barreiro e admite que "o custo das propinas é elevado. Apesar de ter família perto, é pesado para os meus pais, porque somos dois irmãos a estudar. Em média, cada livro custa 60 euros e temos cinco cadeiras em cada semestre".

Mas não é de adversidade que se faz o trilho de Ana Catarina. Boa aluna, com média de 16,9, bastou-lhe o que aprendeu na escola pública para ser fluente na língua de Shakespeare, no castelhano e no francês. A miopia travou-lhe a ambição de entrar na Escola Naval, mas não se deu por vencida. Acredita que a licenciatura no ISEG lhe abrirá um mundo maior do que o mar e enquanto aguarda "as oportunidades espera adquirir experiência fora do País".

"Gostava de fazer estágios de seis meses, um ano. Estabelecer uma vida no estrangeiro, só em última instância. Gosto muito de Portugal, temos coisas boas, e só lamento que hoje em dia não seja possível usufruir de tudo." Para Ana Catarina, a solução é "sermos optimistas, exigentes connosco próprios e fazer já hoje o que se pode fazer amanhã. Uma vez que nos foram deixadas muitas dívidas, temos de arcar com elas, e esse é um desafio ainda maior do que aquele que teve a geração anterior, pois temos de arranjar um futuro. Acredito que Portugal tem futuro dentro da Europa. Há lugar para nós também."

"NÃO É A PRIMEIRA VEZ QUE ESTAMOS ASSIM"

Adaptar conceitos, modelos e até estudantes à conjuntura do momento é uma disciplina a que o presidente do ISEG, João Duque, se habituou. Numa aula, lembra que há 20 anos no Brasil a taxa de inflação era brutal. "Cheguei lá para ensinar e não conseguia trabalhar com o raciocínio deles, afectado por as taxas de inflação serem enormes. Essa experiência, esse conhecimento, eles perderam entretanto, mas foi muito importante na altura. Agora desvaneceu-se, mas é possível que regresse se voltar ao país um surto de inflação. São temas recorrentes, que de vez em quando entram no quotidiano, é normal", lembra João Duque.


Defensor da formação e da exigência, alerta que "os modelos se mantêm, a chamada de atenção para determinados factores é que é influenciada pela conjuntura. Mesmos os casos históricos são importantes para percebermos como os outros resolveram os problemas. Não é a primeira vez que Portugal está à beira da ruptura financeira, só que com o mal passado passamos nós bem". 

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