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Correio da Manhã

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ESCURECER

Cheguei para sempre a este jardim. Estou como se olhasse à minha volta. Vejo este jardim como se recordasse o jardim de outrora e como se visse este jardim. Este era o lugar onde havia uma luz que se estendia entre as plantas e que era o último início da luz.
17 de Janeiro de 2003 às 18:06
Depois, ficávamos de mão dada, e tu eras uma noiva de negro, e eu sabia que, no tempo a passar, a luz mudaria a cor das plantas e das árvores, porque a luz crescia para o seu fim. E o negro absoluto do teu vestido escurecia ainda mais durante aqueles fins de tarde. Os teus cabelos longos e negros escureciam. Os teus olhos ficavam sobre o mundo da mesma maneira que a tua mão ficava sobre a minha. Os teus olhos sabiam o lugar dos mortos sob esta terra que, para mim, era apenas o seu brilho. Tu sabias mais do que eu. Não estendo as mãos para tocar as ervas que cresceram e secaram entre as flores mortas, entre os canteiros, entre as pedras que o tempo trouxe à superfície. Não estendo as mãos para tocar a brisa. É a brisa que vem ter com as minhas mãos.

Como a solidão, este jardim abandonado anoitece. Guardo derrotas, um erro final, como se guardasse segredos. Anoiteço sobre este jardim. Agora, entre as ruínas, sou igual a estas árvores que morreram no instante em que tudo deixou de fazer sentido. No momento em que partiste, deixei de fazer sentido. O sangue, dentro de mim, é como esta terra seca. A noite não será suficiente para lhe devolver a vida. A noite será como veneno dentro desta terra e dentro de mim porque o céu da noite terá a cor dos teus cabelos, o negro absoluto do teu vestido. A noite será a certeza de que existes entre a multidão. Muito longe daqui, és uma sombra entre a multidão. Durante a noite, eu e esta terra morta, seca, estéril, conseguiremos imaginar-te parada entre pessoas que passam por ti. Houve dias, fins de tarde, em que pousavas a tua mão sobre a minha, em que pousavas o teu olhar sobre esta terra. Esses dias passaram. Existem trovões a dizerem estas palavras. Existem tempestades. O teu olhar, de certeza, continua a ser o curso de um rio. Aqui, este momento parado: agora. A certeza deste momento é estar dentro de um incêndio. As paredes de uma casa, a terra, as árvores, o tecto de uma casa negra, o céu, a arderem e a desabarem sobre mim na consciência de existir este momento, agora, parado. Agora, este momento parado: aqui. E tu, longe, és uma sombra entre a multidão, o teu olhar é o curso de um rio. E tudo isto é dito por trovões, pela voz das tempestades.

Neste jardim, acabam todas as viagens. Estou sentado na ponta do banco onde nos sentávamos. Sinto nos dedos a madeira, os caminhos que insectos percorreram enquanto roíam o nosso passado, sinto a madeira que apodreceu. Avanço lentamente com o olhar sobre este banco, o infinito, avanço lentamente com o olhar e, como uma sombra, debaixo do tempo, vejo-te. Não sei se este rosto és tu ou a imagem de ti na minha memória. Vejo--te. Não sei se te vejo. A luz escurece e essa é a cor do tempo a passar. Olho para os teus cabelos negros. O teu vestido negro. Na terra, nas ervas, nas árvores, o negro cobre superfícies cada vez maiores. A noite chega lentamente e estende-se sobre as coisas em pequenas poças de negro. E o negro absoluto do teu vestido escurece ainda mais. Os teus cabelos longos e negros escurecem. A tua pele é tão branca e, como o céu, anoitece devagar. Há uma brisa que passa pelo céu e pela tua pele. Dentro dos teus olhos, há o brilho de onde nascem as respostas, mas não vou perguntar-te nada. Tenho medo que a minha voz te faça desaparecer de novo. O silêncio é atravessado pelos nossos olhares. O silêncio é o lugar onde os nossos olhares se encontram. Não vou perguntar-te nada.

A noite chega ao teu vestido negro, aos teus cabelos, aos teus olhos, às tuas mãos. Sei que não conseguirei imaginar estrelas se olhar para este céu negro. Este céu que tem o tamanho do meu peito em todas as vezes que entrei nele para te procurar. Em vez disso, continuo a olhar para os teus olhos. Antes de anoitecer completamente, o mundo lança os últimos sons fúnebres do dia. Anoitece completamente. O som do mundo a existir, como um coro de silêncios. Para onde quer que olhemos, dentro e fora de nós, apenas a escuridão. Deixo de ver-te como deixo de ver a terra, as árvores ou o jardim. O mundo é todo da cor dos teus cabelos. Agora, neste momento que parou para sempre, poderia estender a minha mão devagar e, muito, muito devagar, podia levá-la ao encontro da tua, podia tocar a pele da tua mão. Agora, podia dizer uma palavra, podia dizer o teu nome como se caminhasse numa rua e perdesse uma flor. Permaneço. Imóvel. Em silêncio. Não sei se o rosto, o olhar, o brilho, que vi eras tu ou se era a imagem de ti na minha memória. Na última luz, vi-te. Não sei se te vi. Imóvel. Em silêncio. Tenho medo que não estejas aqui, neste banco negro, ao meu lado, dentro desta escuridão onde também estou. Mas eu sei que estás aqui. Se quisesse, podia dar-te a mão. Se quisesse, podia dizer o teu nome. Mas eu não sei se estás aqui. Permaneço. Imóvel. Em silêncio. Cheguei para sempre a este jardim e quero que esta noite negra continue para sempre e que nunca tenha de saber se este rosto, aqui, ao meu lado, dentro da escuridão, és tu ou a imagem de ti na minha memória.
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