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Correio da Manhã

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Estado, ricos e conhecidos

Maria Filomena Mónica vai mais além da sociologia. Este livro é uma introdução à história dos últimos 200 anos.
Francisco José Viegas 17 de Junho de 2018 às 12:00
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
Maria Filomena Mónica levou um ano a escrever o livro
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
Maria Filomena Mónica levou um ano a escrever o livro
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica
Maria Filomena Mónica levou um ano a escrever o livro
Há uma história exemplar contada por Maria Filomena Mónica a abrir o livro: a da disputa entre dois ministros de Margaret Thatcher, Alan Clark e Michael Heseltine. Dizia Clark que Heseltine "tivera de comprar a mobília quando se casara" – ou seja, não era verdadeiramente ‘gentleman’, ou ‘rico’, porque estes herdam a mobília. A investigação de Maria Filomena Mónica incide, muitas vezes, sobre esta distinção entre "ricos" e "ricos". "Para certas características – a mobilidade social, a taxa de desemprego, as escolas frequentadas – os estudos sociológicos são úteis, mas, quando queremos penetrar mais fundo, os métodos sociológicos não servem. Do que eu precisava não era de uma faca, mas de uma pinça."

Há, obviamente, uma forma de assinalar um "rico": a posse de dinheiro. Mas não é tudo. Há outras diferenças: "Não são tanto os carros que os distinguem, mas subtilezas, como o vocabulário." O leitor vislumbra aqui, certamente, a disputa cerrada entre os "novos ricos" e os "velhos ricos" – estes, herdeiros e titulares de uma genealogia secular; aqueles, sangue novo, mais proprietários do que titulares. Peço-lhe, por isso, que acompanhe o estudo de Maria Filomena Mónica, que começa pelos "fidalgos antigos" e pela revolução de 1820 (Duque de Palmela, Eugénio de Almeida, o banqueiro Burnay, a extraordinária D. Antónia Ferreira) até aos ricos e milionários que chegaram ao nosso século (Alfredo da Silva, os Mello, Champallimaud, Amorim ou Belmiro de Azevedo) e à instauração da democracia. O que Maria Filomena Mónica deteta é o prolongamento de uma relação privilegiada entre o Estado e os "ricos" e a ausência quase absoluta de independência destes em relação ao Estado. Mesmo em democracia "os apelidos contam, quando se trata de obter um bom emprego"; e, se a endogamia da antiga fidalguia cessou, não desapareceu a promiscuidade entre o Estado e os ricos, que marcou o constitucionalismo, a República e o Estado Novo. Mónica passa em revista 200 anos de poder, desde a Convenção de Évora Monte até às PPP. Uma história de oportunidades desfeitas.


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