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“Estamos a exibir cólera”

Especialista de expressão facial diz que com a crise a configuração muscular do rosto dos portugueses mudou
9 de Setembro de 2012 às 15:00
Freitas-Magalhães; Laboratório de Expressão Facial da Emoção, sorriso, Universidade Fernando Pessoa
Freitas-Magalhães; Laboratório de Expressão Facial da Emoção, sorriso, Universidade Fernando Pessoa FOTO: Luís Vieira

É reconhecido como um dos especialistas no estudo da expressão facial da emoção, tendo sido distinguido, recentemente, como investigador na área pela Enciclopédia Mundial do Comportamento Humano de Oxford pelo artigo científico ‘Facial Expression of Emotion’. O professor Freitas-Magalhães é director do Laboratório de Expressão Facial da Emoção, da Universidade Fernando Pessoa, no Porto.

É corrente dizer-se que os olhos, o rosto, são o espelho da nossa alma. É mesmo possível saber quem é a pessoa que está à nossa frente só pela expressão facial?

Em primeiro lugar, tenho sérias dúvidas que os olhos sejam o espelho da alma. Porém, não tenho qualquer dúvida em dizer-lhe que são o espelho do cérebro. Assim, nesse sentido, é possível identificar e reconhecer os movimentos faciais de quem está à nossa frente. Por exemplo, o facto de determinada pessoa sorrir muito e muitas vezes, tal não é sinónimo de alegria incontida e que se trata de uma pessoa feliz. É necessário verificar a veracidade desse sorriso. A face humana é capaz de emitir mais de dez mil expressões. No âmbito dessas mais de dez mil expressões,  é possível encontrar o perfil de personalidade de uma pessoa. É por isso que digo que quem vê caras, vê emoções e, por isso, corações! É preciso é saber ver...

 

As suas investigações começaram pelo estudo da psicologia do sorriso humano e depois evoluíram para o estudo do rosto humano. É algo de indissociável?

O fenómeno do sorriso humano foi o meu primeiro código a desvendar, há mais de 25 anos. Naquela época, havia pouco mais de uma centena de estudos científicos consensuais, a juntar à particularidade do fenómeno na face humana, vim a descobrir que o sorriso é um dos principais organizadores do psiquismo humano, a par do choro e da amamentação. Apesar de já ter estudado o sorriso ao longo do ciclo vital exterior, dedico-me, agora, a estudar o sorriso do feto humano. O objectivo do projecto é perceber a natureza funcional daquele fenómeno, monitorizando o maior número de grávidas, com recurso, entre outras, a tecnologia 4D. O sorriso é um fenómeno indissociável para quem estuda a expressão facial da emoção e um exemplo de curiosidade científica porque quanto mais se sabe sobre o fenómeno, mais apetece saber e descobrir. O sorriso encerra, em si, todo o mistério que atrai a investigação. O meu filho disse-me, há dias, que eu era um coleccionador de faces.

Que valor  tem o sorriso para o ser humano ao longo da vida?

Sorrimos mais na idade reprodutiva, que pode ir até aos 40 ou 45 anos, e menos na velhice. Tem a ver com o desenvolvimento hormonal, com a disponibilidade mental e psicológica das pessoas para se envolverem quando são jovens. A partir dos 65 anos, há um declínio na frequência e na intensidade do sorriso e isso está também relacionado com a perda da estrutura estética e muscular, mesmo ao nível dentário, o que inibe o sorriso. O sorriso é vida: nasce, desenvolve-se e morre connosco; é uma assinatura de face que nos acompanha a vida toda. O sorriso é sempre o mesmo, o que muda é a frequência e a intensidade da sua exibição. O sorriso é uma matriz que reforça o exercício da autoestima e das relações interpessoais., sendo que contribui de forma decisiva para o desenvolvimento afetivo e cognitivo do indivíduo como sinal de meta-comunicação que é.

O sorriso dos portugueses é semlhante ao dos outros povos ou apresenta pormenores  particulares?

O sorriso dos portugueses não é diferente do dos outros povos. As diferenças situam-se ao nível da intensidade e frequência da sua expressividade e da variável contexto social. As regras de exibição, isto é, a cultura, por exemplo, moldam a expressividade do sorriso humano. Os últimos dados do estudo "Uma Década de Sorriso em Portugal" (2003-2013) revelam uma diminuição acentuadíssima da expressividade do sorriso e isso está directamente correlacionado com o actual contexto social e económico. A inibição do sorriso pode levar a sintomatologia grave e a prejuízos de saúde.

 

A expressão facial muda com a idade? 

Em desenvolvimento normal, o que muda a é a configuração de intensidade e frequência. A nossa expressão facial muda porque faz parte do processo da vida. A face é o palco da nossa vida e esta não é sempre a mesma. Até naquelas pessoas que mostram aparentemente quase sempre a mesma expressão, tal não passa disso mesmo – aparência. Enquanto se vive, a face é o espelho desse movimento.

 

Nos Estados Unidos entidades como o FBI utilizam estes conhecimentos para traçar o perfil de potenciais criminosos, que são admitidos em tribunal. Em Portugal isso ainda não acontece. Há preconceito?

 

A lei portuguesa actual não permite a utilização dos métodos e técnica de análise e avaliação da expressão facial da emoção. Há anos que defendo a adopção no sistema judiciário português daqueles métodos e técnicos por científicos e porque são um contributo probatório. Foi com esse propósito que apresentei uma proposta à Senhora Ministra da Justiça no âmbito da revisão dos Código Penal e do Processo Penal em curso e em discussão na Assembleia da República. O princípio foi adoptado, uma vez que passa a contar em julgamento o que fora dito em sede de interrogatório. Para isso preconizei a criação da Agência Nacional de Avaliação da Expressão Facial da Emoção para sustentar cientificamente a prática daqueles interrogatórios. Há anos que o defendo, e a Ciência o comprova. No próximo dia 21 de Setembro, arranca o pioneiro curso universitário mundial de Expressão Facial da Emoção, que funcionará como um requisito indispensável para quem quiser ser admitido naquela futura agência nacional. Esta Pós-Graduação vai privilegiar o ensino-aprendizagem prático e funcionará em regime presencial, e-Learning e b-Learning, sendo lançada à escala mundial em formato bilingue (português e inglês), e envolvendo as melhores universidades e os melhores investigadores na área, o que é, de facto, uma garantia de qualidade académica e científica.

 

Casos como os de Renato Seabra ou do desaparecimento de Maddie McCann poderiam ser analisados com recurso ao estudo da expressão facial?

Claro e foram analisados, de forma oficiosa. Como têm sido outros. No Laboratório de Expressão Facial da Emoção fazemos isso todos os dias.

 

Séries norte-americanas como ‘CSI’, ‘Investigação Criminal’ e ‘Lie to Me’, para além do sucesso que têm junto do público, mostram que boa parte da investigação recorre ao estudo da expressão facial e da postura física para traçar perfis. O que mostram corresponde à verdade científica?

A base científica está lá, é um facto, até porque é assegurada pelo meu amigo Paul Ekman, como também o digo no meu último livro "O Código de Ekman: o Cérebro, a Face e a Emoção". Portanto, esse é o melhor e fiável argumento. Porém, não nos podemos esquecer que se trata de um trabalho de ficção. A aplicação do método científico não é ficcional, é real, e é esse que se pretende aplicar no meio policial e judiciário português. A face é o grande atlas das emoções humanas.

 

Como é que a ciência consegue separar a verdade transmitida pela expressão facial e a que é encenada quando, por exemplo, o interrogado já está a ter orientações de um advogado?

A face não consegue apresentar duas emoções ao mesmo tempo, fá-lo de forma sequencial, e em milésimos de segundo, o que nos permite averiguar da presença ou não de incongruências emocionais, correntemente conhecidas por mentiras. Quando não se vislumbra movimento facial, a avaliação centra-se no olhar. A face não fala, grita, e grita muito. A face diz tudo, o que é necessário é ver com instrumentos rigorosos e aplicar a codificação científica disponível, tal como acontece com o ADN. A análise da expressão facial faz-se através de marcadores científicos, validados há anos. Por exemplo, uma decisão que está tomada no cérebro pode “ver-se” na face antes mesmo de ser revelada verbalmente. É esse o valor inquestionável da comunicação humana através da face – não se pode esconder nada. E quando se tenta, estamos a revelar ainda mais. A decisão está tomada: a face é a face da decisão.

 

Os estudos do Laboratório de Expressão Facial da Emoção poderiam detectar a mentira num interrogatório ou ajudar a traçar do perfil de um suspeito?

É claro que sim, e estou convicto que oficiosamente o fazem. São os próprios juízes de tribunais superiores a reconhecer a importância da avaliação da expressão facial da emoção na produção de prova. Desde 2003, que o Laboratório está de portas abertas e desenvolveu mais de meia centena de linhas de linhas de investigação empírica e mais de três dezenas de instrumentos de medição, tendo como referencial a expressão facial da emoção, sendo considerado, de acordo com essa configuração científica, uma referência mundial. Permita-me que lhe diga ainda que, há dias, uma das mais conceituadas revistas da Polícia Americana citou um nosso estudo sobre o efeito do olhar na detecção da mentira, o qual apresentado na Convenção Anual da American Psychological Association (APA).

 

Estudos indicam que o funcionamento do cérebro de um psicopata, ou de um criminoso violento é diferente de uma pessoa normal. É possível detectar essas diferenças com a análise da expressão facial?

A comunidade científica comprova e defende que o processamento cerebral emocional do psicopata é diferente do da pessoa normal e, por isso, a consequente manifestação dos movimentos faciais também o é. Posto isto, é possível verificar a expressão facial e fazer-lhe corresponder um estado emocional e estabelecer as diferenças entre expressões normais e as incongruentes. O Laboratório de Expressão Facial da Emoção está a desenvolver o projeto sobre a psicopatia em Portugal, com o objectivo de compreender os processos cerebrais envolvidos nas reacções neuropsicofisiológicas da expressão facial da emoção, conhecer a razão pela qual o padrão de emocionalidade negativa é recorrente na psicopatia, se há diferenças de género e idade e procurar os motivos orgânicos e ambientais envolvidos e estabelecer um padrão que permita o tratamento e a profilaxia do crime. Interessa-me também avaliar a inteligência emocional.

 

No seu último estudo conclui que as emoções humanas são mais influenciadas pelas imagens do que pelos sons. Porquê?

Porque os olhos são o espelho do cérebro. As estruturas cerebrais responsáveis pela construção das emoções são mais, intensa e frequentemente, influenciadas pelas imagens porque, e como a emoção é uma resposta rápida, em milésimos de segundo, a construção imagética é mais desencadeadora por mais explícita com maior número de elementos que permitam uma resposta apropriada. O medo é um bom exemplo: a imagem do que nos pode provocar medo activa com maior intensidade todos os sistemas de alerta e que estão associados à sobrevivência.

 

Na época difícil que vivemos em que a crise económica afecta milhares de pessoas, encontra mais emoções de tristeza e de medo?

A configuração muscular, a intensidade e a frequência indicam que, de facto, a tristeza e o medo são as emoções básicas mais exibidas. A essas, acrescento a cólera. As pessoas manifestam expressividade de nervosismo e agressividade, o que é muito preocupante quanto ao desenvolvimento integral humano. Estamos a afastar-nos da configuração de felicidade e a face é uma prova irrefutável, como já escrevi no meu livro "A Psicologia das Emoções: o Fascínio do Rosto Humano".

 

Até 2019, propõe-se cartografar os movimentos e linguagens faciais e emocionais dos portugueses. Esse trabalho poderá ter aplicação nas várias vertentes da investigação criminal e no possível avanço na investigação da Psicologia e da Psicanálise?  

 

Trata-se de um projecto ambicioso e, ao mesmo tempo, fascinante. Conhecer cientificamente a face dos portugueses corresponde a deixar um legado pioneiro, para além de ser um contributo para que se conheça, com rigor, o estado emocional dos portugueses através da face. Tenho uma equipa de investigadores que, a cada dia, descobre mais um traço da emocionalidade facial dos portugueses. Será um retrato dos portugueses sem qualquer moldura.

Quando os políticos falam em debates, comícios, manifestações e em declarações aos jornalistas, consegue perceber se estão a mentir, ou se acreditam no que estão a dizer? 

É claro que sim. Porém, deixe-me dizer-lhe que o fenómeno da mentira é muito complexo quanto à sua construção e quanto aos seus propósitos e consequências. Acabo de terminar o artigo "A Anatomia da Mentira: o Cérebro, a Face, a Voz e a Emoção", que será publicado no quarto volume do livro "Emotional Expression: The Brain and The Face", e no qual abordo a problemática das incongruências emocionais e descrevo o quadro de identificação e reconhecimento das mesmas ao longo da sua construção neuropsicofisiológica e a influências das diversas variáveis moderadoras, como a idade,  género e o contexto social. Verifico, inúmeras vezes, a incongruência entre o discurso verbal e o discurso que se transmite pela face. A face não engana e, apesar de os políticos o saberem, não conseguem fazer passar uma mentira por verdade, porque há movimentos faciais que os mesmos não conseguem controlar voluntariamente quando em situação de incongruência. A face denuncia, em silêncio, a verdade da mentira.  Para melhor entendimento, o sorriso pode ser usado, por exemplo, como golpe de poder (político até). Discursar sorridente perante uma multidão dá um ar optimista, descomplexado, simpático. Mas será que a multidão se deixa “ludibriar”? Pois bem, viemos a comprovar na sequência de uma linha de investigação que desenvolvemos no que concerne “o efeito do sorriso na percepção das pessoas em função da actividade profissional. Estudo de caso com políticos portugueses” que quanto mais sorriem os políticos maior é a desconfiança das pessoas. A desconfiança é idêntica em todas as classes etárias, com incidência significativa nos jovens e nos adultos. Os participantes dizem desconfiar mais do sorriso nos políticos com mais idade do que nos mais novos. Os participantes consideram que os sorrisos exibidos são quase todos falsos (8/10). O sorriso faz parte do repertório de expressões faciais caracterizado por sinais sociais inatos ou tendência social ingénita no indivíduo. O sorriso nasce connosco. É, sem dúvida, um símbolo da personalidade de cada pessoa e denuncia a forma de estar perante a vida. Embora pareça linear, avaliar uma pessoa através do seu sorriso carece de conhecimentos específicos. Fomos feitos para sorrir e o sorriso é um elemento de um repertório de expressões herdado de um passado evolutivo comum.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

 

 

Freitas-Magalhães; Laboratório de Expressão Facial da Emoção sorriso Universidade Fernando Pessoa
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