Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
4

Estão os pais a proteger demasiado as suas crianças?

Superproteger não é educar e o excesso de zelo pode criar adultos mimados e inseguros, diz o psicólogo espanhol Javier Urra.
Marta Martins Silva 13 de Outubro de 2019 às 01:00
O psicólogo espanhol Javier Urra fotografado em Lisboa, no dia 7 de outubro
Rosário Cunha e Silva, mãe e professora
Nuno Lobo Antunes, neuropediatra, que recorda a infância - com muita liberdade - que passou em Benfica, Lisboa
O psicólogo espanhol Javier Urra fotografado em Lisboa, no dia 7 de outubro
Rosário Cunha e Silva, mãe e professora
Nuno Lobo Antunes, neuropediatra, que recorda a infância - com muita liberdade - que passou em Benfica, Lisboa
O psicólogo espanhol Javier Urra fotografado em Lisboa, no dia 7 de outubro
Rosário Cunha e Silva, mãe e professora
Nuno Lobo Antunes, neuropediatra, que recorda a infância - com muita liberdade - que passou em Benfica, Lisboa

Aquele email fez a professora Rosário Cunha e Silva levar as mãos à cabeça: uma mãe de um aluno pedia à diretora de turma para mudar a ementa da escola porque o filho já tinha experimentado a ementa mediterrânica e a vegetariana e não gostava de nenhuma.

"Isto leva a que as crianças não saibam ouvir um não, a que não aceitem uma frustração, não tenham regras, não sejam cumpridoras", acredita a professora de uma escola do concelho de Sintra. Também ela, mãe de três adolescentes, admite que protegeu os filhos na infância e continua a ampará-los "para que não sofram". "Dou por mim a protegê-los. Dou opinião sobre amizades, o que devem comer para se alimentarem melhor, como devem estudar..."

"Fazemos coisas que eles poderiam fazer, não exigimos deles coisas banais e depois são adolescentes pouco desenrascados. Não vão despejar o lixo porque nunca se sabe o que pode acontecer, vou buscar a minha filha mais velha, porque andar até casa a pé por apenas cinco minutos é arriscado...", confessa também Sílvia Tomás, de 39 anos, secretária de direção e mãe de duas meninas de dois e 13 anos.

"Eu tento dar à minha filha a mesma educação que tive, mas acabo fugindo um pouco, principalmente quando dou por mim e não a deixo ser independente (comer sozinha) e livre ( brincar na rua). O pai diz que a protejo demais, evitando que toque no chão, que ande na terra a mexer em bichos! E até quando cai no chão não a deixo levantar-se   sozinha", partilha por seu lado Joana Rodrigues, auxiliar de educação na ilha de São Miguel, nos Açores, e mãe de uma criança com três anos.

"O ano passado fui com ele inscrevê-lo na universidade, apesar de ser na cidade onde moramos, porque tive receio que não conseguisse preencher a papelada sozinho", confessa, envergonhada, a administrativa Ana Nunes, mãe de um jovem de 19 anos.

"É inegável que as crianças nascidas a partir dos anos 90 nos países desenvolvidos são as que mais atenção receberam dos pais ao longo da História. Não me atreveria a falar de uma epidemia de superproteção, mas não estamos longe e isso traduz-se em crianças muito medrosas, com fobias, pois não se lhes permite enfrentar nenhum risco", escreveu o pedagogo espanhol Javier Urra no livro ‘Deixe-o crescer ou o seu filho será um bonsai em vez de uma árvore forte’ (da editora A Esfera dos Livros).

Em entrevista à ‘Domingo’ confirma: "Nos Estados Unidos e nos países nórdicos, os jovens com 18 e   19 anos são ‘empurrados’ para sair de casa e irem para a universidade, em Portugal e Espanha protegêmo-los muito, queremos que fiquem em casa. E isto começa na infância: a criança tossiu de noite e vai logo ao pediatra, dói-lhe o braço e os pais vão a correr para o fisiatra... É preciso deixá-los correr, fazê-los comer pescada com legumes mesmo que não gostem, andar na escola em vez de terem aulas em casa. As crianças devem ir a acampamentos para aprenderem a partilhar e a ter saudades, devem visitar hospitais de crianças doentes para perceberem que a vida não é justa, devem saber que é importante dar beijos à avó que tem Parkinson ou Alzheimer porque esse é o seu dever", defende o também psicólogo forense do Tribunal Superior de Justiça e do Tribunal de Menores de Madrid.

"Certo dia na Fiscalia (Ministério Público espanhol) estava um jovem que violou uma rapariga. Os pais dele quando chegaram começaram a culpar a vítima, tudo para defender o filho. Em vez de pedirem perdão pelo que ele fez, de chorarem pelo que ele fez, defenderam-no... Os pais não têm de dar sempre razão aos filhos", acrescenta Urra, enumerando vários motivos que explicam esta superproteção de que fala. "Os pais têm filhos cada vez mais tarde, têm muito menos filhos – sobretudo as mães têm a sensação de que não dedicam o tempo suficiente aos filhos e, por isso, tentam compensá-los desta forma", defende.

"[No consultório] assisto aos extremos. Pais com adolescentes de 20 anos que não os deixam ir de comboio para Lisboa porque pode acontecer alguma coisa e pais de adolescentes de 13 anos que os deixam fazer tudo, sem controlo e sem limites – abandonados à sua sorte", alerta a psicóloga Bárbara Ramos Dias, especialista em adolescentes.

"É verdade que todos somos diferentes e que os nossos meninos são também diferentes, mas temos de lhes   dar   liberdade   (controlada)   e adequada à idade e à maturidade, mas com muita responsabilidade, para que eles aprendam ‘a cair e a levantar-se’.   Se   não   os   deixarmos cair, eles não aprendem a lidar com frustrações, com os desafios do dia a dia. Se os deixarmos cair mas estivermos lá sempre para os amparar e apoiar, criamos adultos seguros e confiantes, que sabem lidar com a frustração e com grande capacidade de resiliência. Como aprendemos a andar de bicicleta? A vida é igual", acrescenta a especialista, alertando para a importância de dizer não. "É como deixar um alpinista solitário, sem kit de sobrevivência."

A modernidade, hoje
"Numa sociedade em que três em cada quatro casais vão separar-se é preciso educá-los para a rutura. Numa sociedade em que para os jovens vai ser muito difícil ter uma garantia económica e conseguir alugar um apartamento é preciso educá-los para a adaptação. Não podes dar um telefone móvel a uma criança de seis anos para que fiques mais tranquilo… Porque na maioria das vezes a angústia e ansiedade são dos pais, não são das crianças, e por isso as protegem exageradamente", continua o pedagogo   espanhol, alertando para a importância das conversas francas entre pais e filhos.

"É preciso dizer-lhes que o bullying e o sexting (troca de mensagens e/ou fotos com conteúdo sexual) existem e que é preciso prevenir. É preciso dizer-lhes: ‘Olha, vais encontrar páginas que favorecem a anorexia, que são perigosas, e gente que te vai dizer para te afastares dos teus pais e que há uma seita maravilhosa que protege do fim do Mundo. Os pais têm que os preparar para a vida, não é para a Disney. Isto não é um parque temático. E dizer-lhes sem medo quando eles pedem mais um pastel de nata: ‘Como gosto muito de ti educo-te com austeridade. E não faças birra porque assim em vez de um pastel de nata não te compro nenhum’", exemplifica.

"Digo muitas vezes: ‘Sou chata com prazer, digo que não porque gosto muito de ti. Se me estivesse nas tintas nem ligava e dizia que sim a tudo’", concorda a psicóloga clínica Bárbara Ramos Dias.

"Tenho uma teimosa ao mais alto nível e chega a ser desesperante fazer algo com o choro, gritos e toda a gente a olhar, só porque quer um chupa-chupa ou um brinquedo. Nos dias em que estou mais cansada, cedo, mas noutros fica a chorar e vai a chorar para casa porque eu não compro ou não vou onde ela queria. A ideia de pais perfeitos está em todo o lado, de todas as maneiras e feitios. Parte tanto de família, amigos ou desconhecidos. As opiniões não pedidas, as bocas entre dentes e os olhares recriminatórios. As frases cliché de ‘eu não fazia assim’, ‘se fizeres assim é melhor’, ‘se fosse meu....’: é todo um stress, principalmente para pais pela primeira vez, que chegamos a um ponto em que nem sabemos se o que estamos a fazer é a nossa vontade ou a imposição de alguém", confessa Cátia Garcia, operária fabril em Santarém e mãe de uma menina de quatro anos.

"Se hoje uma criança cai no pátio do colégio e fratura o pé, os pais denunciam o colégio. Entendo que as mães gostassem de ter uma câmara nas escolas para ver os filhos, mas têm de ensiná-los a ser respeitadores. E dizer-lhes: ‘Se não gostaste do que fez a tua professora, fala com ela, fala com o diretor’… Senão é uma caça às bruxas", diz Urra, que no livro ‘Deixe-o crescer’ também faz referência aos grupos de pais no WhatsApp (aplicação de mensagens para telemóvel). "Não estariam mal se não se dedicassem a reforçar o mais ansioso, o mais angustiado e meto-me-em-tudo, porque, no final, tomam decisões erradas , grupais e pouco ajustadas à realidade."

"De facto, nestes grupos, as pessoas empolgam-se e puxam umas pelas outras a falar mal disto e daquilo, principalmente a ‘cascar’ nos professores. Seria mais útil se nos queixássemos à diretora de turma ou à direção da escola, sei disso, mas acabamos por nunca o fazer sem ser naquele contexto, até porque na maioria das vezes são coisas sem importância que nem seriam tema de conversa se não fossem estes grupos", confessa Nuno Santos, pai de duas crianças que frequentam o segundo ciclo numa escola pública.

As filhas de Filipa Freitas, jurista e mãe de duas meninas de 10 e 12 anos, frequentam um colégio privado. "O mais caro? O colégio, sem dúvida. São perto de 13 000 euros por ano. Mas estou descansada porque não andam da escola para o ATL e do ATL para casa todos os dias." "Os meus filhos andam num colégio porque acho que estão mais protegidos   do   que   numa   escola   pública. Faço um esforço para conseguir pagar a mensalidade todos os meses, mas pelo menos estou mais descansada", diz por seu lado Cristina Silva, técnica de laboratório.

"Fazemos um esforço para manter uma vida boa, para termos uma alimentação saudável e para podermos oferecer algo extracurricular à nossa menina, mas as atividades estão muito caras: uma aula de natação uma vez por semana custa 37 euros mensais", lamenta a açoriana Joana Rodrigues , a quem a conjuntura económica não permitiu ainda ter mais um filho, como deseja.

Os tempos são outros
"Também temos de perceber que a sociedade mudou de forma absolutamente radical. Quando eu era pequeno morávamos em Benfica e a casa dos meus avós ficava a um quilómetro. Eu era pequenino e   não conseguia chegar à campainha, a minha mãe dizia: ‘Vais sempre pelo passeio e quando chegares a casa da avó pedes a um senhor que te toque à campainha’", recorda o neuropediatra Nuno Lobo Antunes.

"Naquela altura, Benfica era uma pequena comunidade, os vizinhos ajudavam-se, havia uma rede de suporte. Eu também ia sozinho de elétrico para o liceu Camões, mas as pessoas que iam nos elétricos eram sempre as mesmas pessoas. E a rede urbana era muitíssimo menos densa do que é hoje. A proteção que os pais dão hoje às crianças é uma resposta à perceção dos riscos que habitualmente correm, não acho que seja desajustada", considera o especialista, que se lembra bem de à hora de   jantar se abrir uma janela no bairro onde morava e alguém gritar: "Oh Vííítor", em jeito de toque de recolher para o jantar.

"Antigamente, as crianças passavam da infância para a idade adulta porque assumiam responsabilidades cedíssimo, os filhos eram um capital, uma forma de investimento, produziam trabalho e faziam-no desde muito cedo. Agora, os filhos passaram a ser um custo: não produzem trabalho e são educados até muito mais tarde", diz ainda Nuno Lobo Antunes, que não é alheio à ginástica que os pais fazem hoje para conseguirem cumprir com boa nota em casa e no trabalho.

"Eu entro às 15h30 e saio às 23 horas. O pai faz turnos. O fim do dia é só banho, jantar e cama. Temos pouquíssimo tempo com eles porque eu e o pai trabalhamos sete dias e folgamos um. Compensamos com dormir na nossa caminha, uma guloseima, uma ida ao parque", conta Susana Delgado, empregada de balcão na Covilhã, tal como o marido.

Catarina Salvado, de Santarém, cansou-se. "Achei que estava a dar de mais à vida profissional e a sentir-me cansada e irritada, descarregando em duas crianças. Optei por sair do emprego. Como vivemos praticamente no campo, deixamos que corram, caiam, sujem-se, sem que as amparemos a maioria das vezes. Apesar de muitos arranhões e feridas, não houve ainda braços nem pernas partidas", revela.

Filipa Freitas, que vive no centro de Lisboa, tem-se esforçado por dar mais liberdade às duas filhas. "Ao fim da tarde, e colocando os meus receios numa caixinha, elas começaram a ir de autocarro para casa. É perto e antes de saírem do colégio partilham comigo a sua localização via telemóvel para eu ver sempre onde   estão." Também há coisas boas na modernidade.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)