Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

"Estávamos a disparar uns contra os outros"

Como primeiro cabo escriturário, durante o dia estava numa máquina de escrever e à noite andava de G3 a defender o quartel de Vila Lamego.
17 de Março de 2013 às 15:00
Na vala que rodeava o novo quartel de Novo Lamego
Na vala que rodeava o novo quartel de Novo Lamego FOTO: D.R.

O Batalhão de Caçadores 2893 foi formado em Chaves no ano de 1969. Era empregado de escritório e usaram os meus conhecimentos como primeiro cabo escriturário na Companhia de Comandos e Serviços. A 15 de novembro de 1969 embarcámos para a Guiné no ‘Uíge', regressando mais tarde no ‘Niassa'.

Chegado a Nova Lamego, que hoje é Cidade Gabu, não saía para o mato em missões, mas durante o dia estava numa máquina de escrever e à noite andava de G3. Aquela zona não tinha muitos ataques. Mandavam umas bojardazinhas à noite para o quartel, que ficava no meio da vila, e depois piravam-se. Mas no primeiro aniversário da comissão, a 15 de novembro de 1970, às onze e tal da noite, quando a malta já estava toda deitada, começou a morteirada.

Quando caiu a primeira já vinham 30 no ar. Fomos ver no final e eles atiraram 122. Uma caiu numa palhota, onde estavam nove pessoas, e morreram todas. No quartel só caiu uma e matou dois camaradas da minha companhia. Fui-me esconder num posto de rádio que era blindado. Já estava quase cheio mas consegui enfiar-me lá dentro enquanto outro camarada ficou à porta e ainda apanhou estilhaços nas pernas. Dois outros meteram-se debaixo de uma viatura GMC. Foi o azar deles. A granada caiu a um metro, e matou-os. Ao todo, houve trinta e tal mortos. Por causa desse episódio, o Spínola decidiu fazer um quartel novo, a um quilómetro da povoação, para evitar baixas colaterais.

NÃO ERA NOITE DE FILMES

Numa noite, já em 1971, estava de licença e resolvi ir ao cinema que havia na vila. Encontrava-me à porta quando apareceu o condutor do comandante, que era o Francisco Loupas. "Ó Neves, o nosso comandante mandou avisar para recolhermos todos ao quartel, pois foi detetada uma coluna de guerrilheiros." Quando chegámos, o meu capitão Herlânder Rodrigues mandou-nos equipar. Fiquei para o final e ele indicou-me o lado contrário àquele de onde os guerrilheiros vinham. Pois foi precisamente à minha frente que começou o ataque!

Estávamos na vala, deitados nas tábuas, como se fosse a poltrona de um resort, quando se calaram os batuques das bajudas, que são as donzelas africanas, e o som dos pássaros. Só se ouvia um cão a ladrar. O furriel gritou "todos para dentro da vala" e a rocketada começou. Só víamos o rasto tracejante das balas, mas depois reagimos. Um condutor tinha uma metralhadora ligeira Dreyse m/938 e começou a disparar. Aquilo encravou, desencravou e foi fazendo fogo. Respondemos todos, ainda dentro da vala, com as G3 acima das cabeças. Dei comigo e os restantes camaradas de pé e só faltava saltar dali e ir atrás deles. Ficámos na expectativa, aos gritos e a insultar o inimigo, até que vimos uns vultos a correr.

Começámos a fazer fogo e o segundo comandante do batalhão apercebeu-se de que estávamos a disparar contra os nossos, que seguiam atrás dos guerrilheiros. Como não tinha um rádio por perto, fez algo heroico: correu uns 50 metros para nos avisar. Eles bem gritavam para não dispararmos, mas nós não percebíamos. Não tiveram outra hipótese se não deitarem--se no chão. Podíamos ter atirado uma granada, e então seria uma coisa mais séria. Graças a Deus as coisas correram bem.

COMISSÂO 

Guiné, de 1969 a 1971

FORÇA 

Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Caçadores 2893

ATUALIDADE 

Aposentado, vive no Laranjeiro. Casado, tem uma filha e um neto

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)