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“Estive 22 vezes debaixo de fogo”

Entregues a nós próprios, começámos a fazer a nossa guerra. Evitámos flagelações ao quartel mas as emboscadas no mato eram constantes.
17 de Outubro de 2010 às 00:00
Em Jolmete, a fazer pose para a fotografia antes de recolher os materiais para construção de abrigos. O material é pesado e iam muitos para empurrar
Em Jolmete, a fazer pose para a fotografia antes de recolher os materiais para construção de abrigos. O material é pesado e iam muitos para empurrar FOTO: Direitos reservados

Embarquei para a Guiné a 7 de Maio de 1969, no paquete ‘Niassa’, onde cheguei a dia 12 do mesmo mês. Fomos informados pelo governador e comandante-chefe, sr. general Spínola, que a responsabilidade da nossa Companhia iria ser muito grande, pois íamos substituir uma das melhores Companhias Operacionais da Guiné (a acção psicológica já a funcionar).

Chegámos na altura da transição do tempo seco para a época das chuvas. A nível operacional, nos dez dias de sobreposição de companhias, tudo correu bem. Saíamos em patrulhamentos com os grupos de combate da companhia cessante, mas não íamos para zonas perigosas. O interesse da 2366 era passar o testemunho da melhor maneira possível, sem correr grandes riscos, pois a ‘peluda’ estava próxima.

No dia em que a Companhia cessante se foi embora começaram os nossos problemas, com dois mortos e vários feridos – não em combate, mas por acidente com arma de fogo. Ao chegarmos ao quartel, depois da operação de segurança e protecção à coluna auto que levou a 2366 para o Pelundo, o soldado que transportava a bazuca, ao retirar a granada da arma, talvez por deficiência da mola ou por descuido, ela caiu pelo tubo, explodindo ao tocar no chão. Este foi o primeiro contacto com a triste realidade das mortes e evacuações.

A partir deste dia, entregues a nós próprios, começámos a fazer a nossa guerra. Saídas diárias evitaram flagelações ao quartel, que nunca tivemos, todavia as emboscadas no mato eram constantes. Em 21 meses de mato a Companhia esteve 28 vezes debaixo de fogo, e eu com o meu grupo de combate estive 22. Lembro como se fosse hoje a primeira emboscada a sério em que caímos. Foi a 22 de Julho de 1969. Tivemos dois mortos e vários feridos por tiro de RPG 2 e respectivos estilhaços.

HOMENAGEM

Tenho o dever de salientar o contributo dos soldados africanos do Pelotão de Caçadores Nativos nº 59, comandado inicialmente pelo colega alferes Mosca, e pela secção de milícias, comandada pelo chefe da milícia, o célebre ‘Dandi’, mais tarde promovido a capitão de milícia pelo sr. General Spínola. O ‘Dandi’ conhecia como ninguém todos os recantos da mata. Bom guerrilheiro, muito nos ajudou a evitar cair em emboscadas, abrindo trilhos novos na mata. Quando saíamos para o mato com ele, ninguém tinha medo, por mais difícil que fosse a missão. Mais tarde fez parte do rol dos fuzilados.

O dia que mais me marcou, e que o fez profundamente, foi a morte dos oficiais do CAOP, os três majores e do meu colega alferes Mosca (além dos outros três nativos) no dia 20 de Abril de 1970, em prol da paz e do entendimento dos povos do ‘Chão Manjaco’. Perdemos ali, de uma só vez, um conjunto de oficiais único e inigualável. As tréguas que existiam acabaram nesse dia. Nos meses que se seguiram até ao fim de 1970 tivemos uma actividade operacional muito intensa. Felizmente sem baixas.

Embarcámos no ‘Uíge’ a 26 de Fevereiro, tendo chegado ao cais de Alcântara em 2 de Março de 1971. Era costume o sr. General Spínola convidar para um jantar de despedida com bate-papo os comandantes de Companhia (capitães) e um dos alferes de cada companhia antes do embarque de regresso. O sr. General fez questão de convidar todos os alferes além do capitão, como recompensa pela actividade desenvolvida. Nessa altura já o sr. general dizia que a Guiné não tinha solução pela guerra. Manifestava ideias que mais tarde veio a publicar no seu livro ‘Portugal e o Futuro’.

PERFIL

Nome: Manuel Resende

Comissão: Guiné (1969/1971)

Força: Companhia de Caçadores 2585

Actualidade: 63 anos, reformado. Casado, com uma filha

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