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“Estivemos isolados durante dez meses”

“Quando me perguntam as diferenças [entre as zonas onde fiz a Guerra], costumo dizer: o Cachil seria o inferno e Bafatá o paraíso”
22 de Agosto de 2010 às 00:00
Junto à sala de convívio dos soldados, no quartel de Bafatá
Junto à sala de convívio dos soldados, no quartel de Bafatá FOTO: Direitos reservados

Soldado de transmissões mobilizado para a guerra da Guiné, embarquei em 27 de Novembro de 1963, integrado na C. Caç. 557, no navio mercante ‘Ana Mafalda’. Desembarquei no cais de Pidjiguiti, em Bissau, a 3 de Dezembro. Até ao princípio de Janeiro de 64, a C. Caç. 557 foi sendo deslocada por fracções para Catió, a fim de integrar as forças que iam participar na Operação Tridente.

No dia 23 de Janeiro de 1964, partiram de Catió uma lancha pequena de desembarque, uma lancha média e uma lancha de fiscalização, que rumaram ao Cachil, levando a bordo a C. Caç. 557 e o 7º destacamento de fuzileiros, de modo a ocuparem o sector do Cachil.

Começavam os contratempos. No desembarque no rio Cumbijã, com maré baixa, sai, em primeiro, lugar uma secção de fuzileiros, homens treinados a andar no lodo. Os primeiros três ou quatro conseguiram alcançar terra, mas os dois seguintes ficaram atolados. Quase submersos, foram puxados com uma corda para um bote de borracha (zebro). Os fuzileiros em terra cortaram e partiram vários ramos de árvores e conseguiram fazer um improvisado cais, onde todos os militares desembarcaram.

Percorridos cerca de 500 metros, seguiu-se uma bifurcação. O capim era muito alto e, para não sermos surpreendidos pelo inimigo e de modo a facilitar a nossa progressão, os fuzileiros atearam lume ao capim. Foram ouvidos alguns disparos, mas notava-se que eram tiros de aviso. A noite aproximava-se, mas alcançou-se a zona da mata do Cachil. No local onde o capim ardeu, cavámos os abrigos e lá pernoitámos duas noites.

A 26 de Janeiro, ocupámos a pequena mata do Cachil, onde construímos o quartel, e lá permanecemos, naquele isolamento, dez meses e uma semana. O resto da comissão foi passada em Bissau e Bafatá. Quando me perguntam as diferenças, costumo dizer: o Cachil seria o Inferno e Bafatá o Paraíso. A 29 de Janeiro, sofremos a única baixa em combate: o soldado João A. Bicho, natural de Fortios, Portalegre, que hoje repousa no cemitério de Bissau, talhão militar campa 670. A C. Caç. 557 passou 55 dias contínuos, entre 23 de Janeiro de 1964 e 17 de Março, tendo como alimentação apenas a ração de combate.

O regresso também teve uma marca de guerra. É que três dias antes do embarque, e depois de se ter feito todo o espólio do material de guerra, recebemos uma ordem para participar numa última operação.

A nossa revolta foi um não unânime. O capitão mandou formar a companhia para nos dizer: "meus amigos e camaradas, que tive a honra de comandar ao longo destes dois anos. Vós sois, ainda, neste momento, militares. E a recusa a uma ordem do CTIG resulta em que todos, sem excepção, vão para o forte de Elvas ou coisa parecida. Mas se até aqui não fomos heróis, não é agora que o vamos ser. Sigam já e em ordem e levantem o vosso material." A ordem foi acatada e cumprida por todos. A missão foi de apoio. Era mais para dar força moral aos novos camaradas, que chegavam.

O regresso a Bissau foi rápido. Em Bambadinca, embarcámos no barco ‘A Bor’ para Bissau. Nem ordem tivemos para nos despedirmos dos amigos. Enfiados no Niassa, atracámos no cais da ferrugem, em Lisboa, a 3 de Novembro de 1965, onde os meus dois sobrinhos e as minhas duas irmãs me esperavam e felicitaram, abraçaram, beijaram e abonaram.

PERFIL

Nome: José Botelho Colaço

Comissão: Guiné (1963/65)

Força: Companhia de Caçadores 557

Actualidade: Casado, com uma filha. Tem 67 anos. Trabalhou como técnico metalúrgico na indústria açucareira e está reformado.

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