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Correio da Manhã

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Aquilo que pensas enquanto o teu olhar se lança da janela do quarto e se estende no mundo, podia ser um poema. Hoje, no entanto, não é dia de palavras.
27 de Abril de 2003 às 00:00
Quando fechas a porta do quarto, deixas de imaginar o teu rosto. No quarto, deitada sobre a colcha da cama, vês a cor do fim da tarde na janela. Os teus cabelos estão estendidos sobre a almofada. O tecto é tão grande como o céu e, às vezes, desce sobre o teu corpo e envolve-o. Os olhares dos posters na parede traçam linhas no ar que acabam no teu rosto. Os posters olham para ti mas tu olhas para ele e, agora, enquanto anoitece na janela do teu quarto, ele não está contigo. Tu não sabes onde ele está. Olhas para ele porque o teu olhar está à porta da escola, o teu olhar está no jardim, o teu olhar está na memória das vezes em que se encontraram e em que sentiste o olhar dele parado no teu. Os teus lábios afastam--se, descolam-se lentamente um do outro, quando te lembras das suas sobrancelhas e das suas pálpebras a descerem devagar sobre os olhos. Hoje podias escrever um poema. Levantas-te da cama, procuras o teu caderno. Lês poemas que escreveste noutros dias a pensar nele. Lês o poema que escreveste no dia em que, na aula de matemática, sentiste um papel dobrado que uma mão entregou na palma da tua mão. No interior desse papel dobrado estava o nome dele e estava “gosta de ti”. Viraste-te para trás, olhaste para as raparigas que olhavam para ti com um sorriso e fingiste que não te importavas. Essas eram as raparigas por onde o papel tinha passado. Tu conseguiste imaginar cada uma delas a bater nas costas da rapariga da frente e a passar-lhe o papel para o interior da palma da mão. Conseguiste imaginar cada uma delas a ler o teu nome, escrito na parte de fora com letras redondas. Conseguiste imaginar algumas delas a sussurrarem algumas palavras. E fingiste que não te importavas. Sem que a professora visse, mas tendo a certeza de que todas as raparigas viam, rasgaste o papel em vários pedacinhos. Para teres a certeza de que todas viam, para teres a certeza de qualquer coisa que não sabes, levantaste o dedo no ar e disseste à professora: “posso pôr estes papelinhos no caixote do lixo?” E levantaste-te, e os teus passos foram seguros e não olhaste para nenhuma das raparigas porque fizeste o teu caminho com passos firmes e com um olhar firme. Agora, no teu quarto, gostavas de ter esse papel inteiro. Nunca soubeste quem o escreveu. Gostavas de ter falado com quem o escreveu, gostavas de ter perguntado: “como é que sabes que ele gosta de mim?”
Caminhas para a janela do quarto. Há muito tempo que te acostumaste a ver tudo aquilo que imaginas na paisagem da janela do quarto. Existes no teu olhar estendido sobre a distância. Estás como se não soubesses que, daqui a pouco tempo, a voz da tua mãe irá atravessar a porta do quarto para chamar-te para jantar. Hoje podias escrever um poema. Aquilo que pensas enquanto o teu olhar se lança da janela do quarto e se estende no mundo, podia ser um poema. Hoje, no entanto, não é dia de palavras. Aquilo que sentes parecer-te-ia ridículo se o visses escrito no teu caderno. Durante um momento, recordas a caligrafia que demoraste tanto tempo a aperfeiçoar. Recordas o dia em que decidiste abandonar a caligrafia que te ensinaram na escola primária. Depois de uma semana, chegaste à escola e mostraste às tuas amigas: “esta é a minha nova letra”. Hoje podias escrever um poema, mas hoje sentes-te sozinha. E é como se o teu quarto estivesse vazio sem ti, como se fosse visto por olhos que não conhecem a sua história. Os olhares dos posters parecem mais frios e a fita-cola que os segura nos cantos parece imperfeita e ridícula. Daqui a pouco, a voz da tua mãe chamar-te-á para jantar. O que irás fazer à tua solidão? Ao entrares na cozinha, ao contares os talheres para o jantar, ao tirares os pratos rasos do armário, a tua solidão será qualquer coisa que se transformou. Dentro de ti, a tua solidão será qualquer coisa sufocada pelas vozes da telenovela. Diante do prato, encherás o garfo de comida como se assim cobrisses a tua solidão. Agora, olhas pela janela e consegues vê-lo lá longe. Amanhã irás vê-lo na escola, mas, antes de amanhã, terá de passar este tempo longo em que te sentes sozinha. Não tens a certeza de que este tempo longo vá terminar. Não tens a certeza de que, quando estiveres com ele, consigas aproveitar esse instante. Sabes que irão passar horas até que estejas um instante com ele. Sabes que irão passar horas até que passes no corredor e ele, encostado a uma parede, a segurar o dossier, olhará para ti. E será esse o instante em que estarás com ele. E é esse instante que imaginas agora, enquanto olhas pela janela do teu quarto, enquanto te sentes tão sozinha.
Tu sabes que o tempo passa pelo peluche que te deram quando eras pequena e que adormeceu há anos num canto do quarto. Mas, neste anoitecer que será interrompido pela voz da tua mãe, tu não sentes o tempo a passar. Ao mesmo tempo, sabes que o tempo passa muito depressa sobre o caderno dos poemas. O tempo passa muito depressa. Tens medo que o tempo passe muito depressa por ti. Tens medo que não sintas o tempo a passar. Esperas a voz da tua mãe a chamar-te para jantar e tens medo que apenas se repita o silêncio e o silêncio, fechado nas gavetas da mesinha de cabeceira, o silêncio, rente à alcatifa, debaixo da cama, no bolso de um casaco que está guardado no armário, mas que nunca mais usarás. O silêncio. Para lá da janela do quarto, o teu olhar como uma brisa a atravessar as ruas desertas. Sentes-te sozinha, sentes-te tão sozinha, e eu gostava tanto de dizer-te: estou aqui. n
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