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Correio da Manhã

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Estranha forma de vida

O Fado vadio é que educa. E a voz humana é que instrui corações prontos para cantar o destino em tascas lisboetas
29 de Junho de 2008 às 00:00
Estranha forma de vida
Estranha forma de vida

O porteiro tranca a porta. A luz da sala escurece. O vinho que aguente no copo. Silêncio. Silêncio. É a sentença. Duas alemãs de cara escaldada do sol da Caparica ignoram a ordem do apresentador. Brindam à saúde das férias. Azar. São chamadas à pedra em tom soprano altíssimo. As garotas, as duas, que se calem, tal como o presidente Chávez. Que aprendam, as ‘camones’; basta que uma corda da guitarra soe para que as laringes sem condão de louvar o destino em melodia emudeçam. 'Silêncio!', insiste João Carlos. Silêncio que se vai cantar o Fado 'Vadio', esse Fado que em nada está ligado à vadiagem. É uma profecia. Espontânea. Que acontece. Sem hora agendada. Fado enaltecido, carpido, protagonizado por fadistas amadores cujos dotes ecoam voluntários na mágica Tasca do Chico - uma minúscula embaixada da vetusta tradição lusa forrada a fotografias que exumam grandes saudades. Hermínia Silva, Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Fernando Maurício não morreram na rua Diário de Notícias, 39. Vivem na memória de todos as criaturas que por lá se juntam.

'É agora'. E foi. Entra uma, duas, três vozes, de cada vez, em cadência sentida. Cantam nove poemas. Numa única praxe cantante: Fado, sentimento majestade em forma de sina, alma nacional que une e enternece idosos, jovens, anónimos, Pedro Moutinho, alfacinhas das Sete Colinas, escandinavos, o engraxador de sapatos que esta noite não canta porque a bebedeira da véspera desgraçou-lhe a tosse. E Odete, modista de alto gabarito, que, por enquanto, tem os lábios cosidos devido a um marido casmurro e ciumento, que fora trocado, e muitíssimo bem, pelo vizinho, infelizmente falecido mais pela praga do que pela nicotina. No intervalo, as luzes e os cigarros acendem. Os lenços e as imperais enxugam a emoção. O senhor da porta vigia a bezana dos jovens que festejam o final do ano lectivo no bar da frente. O espadaúdo abre a portada.

Os sentidos de Eduardo Jorge abriram para o Fado em tempo duro de guerra. Reformado do Instituto Nacional de Engenharia Civil, docente na Universidade da Terceira Idade, combateu em Moçambique entre 1973 e 1974. No Ultramar o Fado, embora fosse fatal, era distinto. Tiros. Feridos. Camaradas que regressavam em caixões. Mas foi num beco em África que o estilo musical mais português entrou na sua vida para nunca mais sair. 'Tudo começou com uma brincadeira; um colega cantava e pronto...' Eduardo apanhou-lhe o gosto. Canta. Encanta. E tem dias. A expressão do Fado. 'Depende do meu estado de alma e do tipo de público que está diante de mim'. Se a assistência chega de afeição mais afinada e se a veia artística extravasa a linha da comoção, a derme arrepia até ao infinito do ego, os poros dilatam, a aorta lateja veloz. Momentos ímpares que, inclusive, são entendíveis pela linguagem emotiva. 'Não é preciso falar o nosso idioma para sentir o Fado. Só é necessário que o fadista consiga transmitir o que sente'. Já viu. Viu com os dois olhos que a terra irá comer. Um indivíduo de nacionalidade belga que, sem perceber patavina de português, chorou ao ouvi-lo celebrar em verso. Com certeza. Os homens de barba rija choram. No cosmo fadista a regra parva machista que garante que a virilidade é medida pela ausência das lágrimas significa uma completa demência. 'Já houve alturas em que a meio de eu estar a cantar tive que interromper'. O sal no rosto sufocava-lhe o peito. E além do mais, há poesias que não se cantam. Como por exemplo ‘A Fragata’. A lembrança do pai alaga sempre os olhos de um adulto de 57 anos.

'Sabes quem é o meu filho? Sabes quem é o meu miúdo?' João Carlos, o mestre de cerimónias que silencia entroncados, parvos e turistas, endireita a gravata. Fecha o botão do casaco. Junta os pés. Compõe o bigode. Quer partilhar o orgulho. O seu descendente, miúdo crescido de 26 anos, venceu no Teatro São Luiz a Grande Noite do Fado 2008. João Roque de dia trabalha no Aeroporto de Lisboa e à noite a viagem é séria de talento. 'Nem todos os dias canto. Às vezes só venho beber um copo e ouvir os outros'. Esta quarta-feira engoliu uma cerveja fresca e a sua garganta resplandeceu. Sabe nadar, filho de peixe sabe nadar, até num poço. 'Vim para o Fado por causa do meu pai'. Antes de as próteses terem remendado os seus dois fémures gastos, João Carlos não exigia silêncio. Cantava. Mais misteriosa do que a anatomia é a definição de Fado. O vencedor do marcante evento organizado pela Casa da Imprensa sorri. Acende um Marlboro à jornalista. É cavalheiro, mas, tal como José Régio, que não lhe peçam definições. 'Não consigo explicar o que sinto quando canto o Fado e nem sei dizer o seu significado. Apenas sei que é algo muito forte'.

Os pais de Alexandra Freire não têm timbre para o Fado. Mas, são seus fãs. 'Quando eu e o meu irmão éramos pequenos, os nossos pais levavam-nos a casas de Fado'. O casal não adivinhava a tamanha influência que os fados e as guitarradas iriam causar na senda dos seus filhos. Actualmente, Ângelo acompanha Mariza na guitarra portuguesa, e a jovem de 19 anos, funcionária do El Corte Inglés, apesar de uma constipação traiçoeira, soube segurar na traqueia ‘Os Búzios’ de Jorge Fernando como se fosse uma profissional. 'Exprimir um sentimento através da letra chama-se Fado'. Destino embalado em alento vital. Vivido e sentido apenas por quem sente e entende palavras fortes.

Há quem aposte este mundo e o outro que o Fado associa-se à noite. Boatos, senhores. Na porta 91 da rua da Graça, a Tasca do Jaime, à hora do sol, os talentos amadores fazem fila. Vítor Lemes enterra a mão ao bolso. O seu tronco torce. Os sapatos, de vez em quando, calcam o chão com força. Muita força. A boca, ao sublimar os vocábulos, ziguezagueia, e o timbre aproxima-se do andaluz. 'Não se esqueça; o que acabou de ouvir é Fado castiço'. Da terra. Sem fingimentos. Livre de treinos. Lisboeta de gema e de casta tradicional, 55 anos, distribuidor de profissão, Vítor já viveu o privilégio de ter cantado ao lado do inesquecível Fernando Maurício. Lembra-se do vulto. Suspira. 'Ele é um grande nome do Fado e foi um grande amigo que tive'. Os elogios serão sempre poucos, mas a conversa terá que ser interrompida. A desgarrada com Augusto apela por ele. 'Agora é que você vai ver o que é Fado', clama Jaime, o proprietário da tasca. Tem razão. Dois homens transformam-se em dois corações palpitantes. Suam, e não é do calor. Após o desafio popular, os sentimentos intensos precisam de uma pausa. Vinho da casa e pastéis de bacalhau ajudam a estabilizar o ritmo cardíaco. Mas as palpitações não tardaram. O solo de Fernanda Proença, mulher abençoada, estremece corpo e sensibiliza a escrita. A sua voz platina chegou directamente do céu sem a ajuda de anjos. A auxiliar de enfermagem, alfacinha de raiz, 60 anos lindos em espontaneidade, cumpre o destino desde bebé. Deus levou-lhe a mãe ainda nem gatinhava. 'Ela morreu de tuberculose, coitadinha... E quando eu fiquei órfã fui viver para um colégio de freiras'. Menina comportada, prendada, a madre superior somente ouviu--lhe um não: 'Fazer parte do coro da igreja! O que eu queria era outra coisa!' Fado. Cantá-lo. 'Jamais pensei em fazer carreira profissional'. O amor pelo Fado não deve ser remunerado. Até faria mal. Os lucros seriam para remédios. Fernanda, figura encantadora, que prescinde de xaile, dotada de uma arte capaz de parar Lisboa, nasceu no centro nevrálgico do Fado: Alfama.

O táxi deixa a cliente no largo Chafariz de Dentro. A sobrinha dá-lhe o braço. Apesar de conhecer todos os cantos místicos de Alfama pelo tacto e cheiro, não pode, não deve, tropeçar. O maldito glaucoma furtou-lhe a visão. E Deus misericordioso deu-lhe o dom. Dália da Conceição não precisa de olhos para ver. Quando canta encontra luz nas palavras que entoa. 'Não me queixo da vida. Sinto-me feliz a cantar o Fado'. Cresceu na Casa Pia, na adolescência esteve no palco dois longos minutos com a diva Amália Rodrigues, antes dos dezoito anos fez vida nova com o negócio do ferro-velho. Não casou. Não gosta de papéis. 'Juntei-me com o meu homem. E tenho tudo; filhos e netos'. Não lhes conhece sombra e rosto. A cegueira é teimosa. Não tanto como ela. Apesar de o Fado nascer em simultâneo com alma da pessoa não é pecado nenhum aperfeiçoar essa dádiva divina. 'Eu sempre cantei em casa, e onde calhava, mas faltava-me qualquer coisa... Por isso, em 2004, matriculei-me numa escola de música, em Alverca, para aprender os compassos e os sons'. Almas boas são boas alunas. Comprova--se no restaurante Marítimo das Colunas. Quim Almeida, o simpático e eficaz apresentador, chama-a. Dália vai. Trata por tu o caminho. Encosta as costas à coluna de pedra. As guitarras tocam. Ou gemem. Dália fecha as mãos. Inspira. Expira. Solta a voz. Os seus olhos cegos conseguem luzir.

Quim Almeida, para além de vender simpatia, também é provido. Canta. E se canta. A sala sentiu calafrios. O resto da cerveja serve de desculpa para fugir às palmas. Exclama: 'Esta miúda vai longe! '.

Vanessa Torres. Quer seguir Marketing e Publicidade. É nova. Mas, enquanto exprime o seu condão, a juventude amadurece. Os seus dezoito anos envelhecem. Não é magia. São as palavras fatais cantadas que lhe medram a idade. 'O meu pai é aquele senhor'. O mestre da guitarra, que, após a sua actuação, a beijou carinhosamente. Vanessa dispensa as luzes do espectáculo. Cora ao ser ovacionada. 'Eu canto somente por prazer. Grande prazer. Nada mais'.

Quim não convence o primo a ir a Alfama. 'Ele diz que vai cantar noutro lugar'. Disse e é verdade. Luís Freitas encontra-se na rigorosa lista de espera. Não sabe ler. Escrever. 'Basta ouvir um Fado duas vezes para o decorar'. Desconhece o alfabeto, mas tem fados de sua autoria. 'Ouve só este bocadinho de um poema que eu dediquei aos meus falecidos pais: ‘o que fazes aí criança em cima desse penedo?/quero ir ao cemitério, mas sozinho tenho medo’'. Daria um livro. A vida da voz que encheu a adega da Tia Rosa, no Beato. Aos seis anos fugiu de casa. Quis escapulir da maldita fome. Vendeu pão em Caneças. Frutas e legumes em Lisboa. Na Ribeira, apanhava os restos dos peixes e vendia-os. 'Naquela altura, eu não cantava. Apenas apregoava para conseguir vender mais rápido'. Mas foi o suficiente para que desse nas vistas. A laringe fruía garra e transmitia melodia. Cerca da idade de dez anos terminou o castigo de comer figos; o alimento que mais forças lhe dava. Uma agência de viagens de bairro ofereceu ao catraio uns trocos extras: 'Eu viajava de autocarro com grupos de turistas por este país fora, e a única coisa que eu tinha que fazer era cantar para os entreter'. Hoje em dia entretém um mar de gente com a vida folgada. De vendedor ambulante tornou-se um verdadeiro e próspero comerciante. Mas, que se entenda, só vende alimentos. Nada mais. A sua voz não está, nem nunca estará à venda. Canta porque gosta. Ama. A canção nacional. Fado. Amador.

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