Estranhos como nós

Projeto de quatro fotógrafos retrata portugueses anónimos: gente comum com vidas extraordinárias. Quem não as tem?
Por Marta Martins Silva|24.01.16
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Estranhos como nós
Carlos, ou ‘Tatiana’, ganha a vida na prostituição em Leiria Foto Rui Miguel Pedrosa

"A última vez que estive preso foi mais grave. Tentativa de homicídio. Tentei matar, com uma faca, um ‘colega’ que me estava a tentar assaltar. Consegue imaginar o que senti naquela altura?", perguntou Fernando Batista, de 53 anos. "Quando aparecia uma baleia era um perigo, por algumas vezes achei que ia morrer", contou Manuel Ataíde, 78. "Naquela altura, eu nem sabia bem ao que ia. Mas recordo-me bem de que o meu primeiro cliente foi um famoso, ainda hoje aparece na TV", confessou Carlos (ou ‘Tatiana’, nome artístico), 31. "Exerci o sacerdócio durante 18 anos, mas pedi a demissão", partilhou Jacinto Gil, 83. "Sou apaixonada por uma cantora. Ela é croata e ainda não sabe, mas tenciono dizer-lhe independentemente do que ela sente", revelou Cíntia Lopes, 27.


As frases que deram início a este texto parecem ditas em sussurro num qualquer confessionário à porta fechada, mas não foram. Foram contadas no meio da rua, na mesa da biblioteca, de frente para o mar, num qualquer café. Basta que os estranhos o queiram fazer: ser fotografados e contar uma parcela da sua vida, algo que os distinga no meio de todos os estranhos com quem todos os dias nos cruzamos. No fundo é isso que somos todos uns para os outros: estranhos que partilham o mesmo palco, sem que nunca a cortina se abra. E como não basta ver o rosto para adivinhar a história, os quatro fotógrafos [Miguel A. Lopes, João Porfírio, Rui Miguel Pedrosa e Rui Soares] que se juntaram para criar o projeto ‘Um Estranho por dia’ não se limitam a tirar o retrato: perguntam pela vida.


VIDAS QUE INSPIRAM

Nos últimos anos – com o ‘empurrãozinho’ das redes sociais – surgiram vários projetos semelhantes, na ânsia de resgatar das multidões anónimas que todos os dias circulam nas cidades as histórias que ninguém vê. O ‘Humans of New York’ (mais de 16 milhões de ‘gostos’ no Facebook) é o exemplo mais paradigmático. Não só pelas histórias que conta mas pelos feitos que já conseguiu na partilha dessas histórias: após a publicação da história de um adolescente de 13 anos, morador num dos bairros com mais criminalidade em Nova Iorque, que à pergunta "Quem mais te influenciou na vida?" elegeu a orientadora escolar, a instituição conseguiu arrecadar, de forma totalmente inesperada, mais de 1,2 milhões de dólares, dinheiro que tem financiado visitas de estudo a universidades e programas de verão.


Graças ao projeto também houve quem encontrasse emprego e até o amor, porque cada história que se conta é uma janela que se abre.


Depois dos ‘Humans of New York’ [‘Humanos de Nova Iorque’], muitos outros ‘Humans’ se seguiram, nos vários cantos do planeta. Por cá também foi criado o ‘Porto olhos nos olhos’ (que conta a história da cidade Invicta a partir das pessoas que a fazem) e o ‘Um Estranho por dia’ – que não está circunscrito a uma zona do país, porque os quatro fotógrafos que o compõem estão dispersos geograficamente. À semelhança do ‘homónimo’ nova-iorquino, o projeto português também já começa a fazer a diferença. "Recebemos um contacto de Macau de alguém que quer ajudar a mulher do senhor Abraão, que está doente, a concretizar o sonho antigo de ir à Madeira" – vontade essa que o ‘estranho’ partilhou com o fotógrafo Rui Miguel Pedrosa, colaborador do ‘Correio da Manhã’ e um dos mentores do projeto. Abraão Pereira da Silva, de 50 anos, nasceu em Minas Gerais, no Brasil. "Fui abandonado pelos meus pais, à porta da casa da minha tia e, mais tarde, vim a saber que tinham falecido." E foi nessa altura que decidiu vir para Portugal, onde vive há 30 anos, uns mais duros do que outros. "Dormi no chão e alimentei-me, diversas vezes, da comida que ia procurar nos caixotes do lixo dos supermercados", contou.

"Começamos por fazer uma abordagem a explicar o projeto, mostramos o Facebook ou o Instagram a partir do telemóvel e perguntamos se podemos contar com a colaboração da pessoa", explica Rui Miguel Pedrosa. Sobre o ‘estranho’ que mais o marcou elege Carlos, que veste a pele de ‘Tatiana’ na prostituição em Leiria. Já não ganhava dinheiro, nem para a renda, pelo que começou a trabalhar como travesti. "Foi uma forma que arranjei para enganar mais uns poucos clientes", confessou, pedindo apenas para não lhe fotografarem o rosto para a família não descobrir o ganha-pão.


A Rui Soares marcou o baleeiro de olhos tão azuis "que quase se via o mar nos olhos dele", que lhe disse que "alcançou tudo o que queria ter alcançado na vida, poderia morrer, porque morreria feliz", enquanto João Porfírio não esquece o casal homossexual Daniel e Ricardo. "Marcaram-me pelo à-vontade que têm em assumir perante o mundo o facto de gostarem um do outro, contra todos os olhares e ‘bocas’ que ouvem na rua" – o fotojornalista eternizou-os num momento de ternura no jardim.


Por outro lado, foi fotografar um colega de profissão que perdeu um filho vítima de negligência médica que mostrou a Miguel A. Lopes que "o rosto não tem nada a ver com a história" – por outras palavras, que é impossível saber as lutas travadas por todos aqueles que não conhecemos, que apenas vemos passar. Muitas vezes, as pessoas são ‘caixinhas de Pandora’ que só esperam que alguém lhes pergunte como estão para que resgatem o passado.


SAÍDA PRECÁRIA

Como Ana Moura – uma mulher de 36 anos que Miguel A. Lopes encontrou na prisão de Tires, onde cumpre há seis anos uma pena por tráfico de droga, com uma bebé de 18 meses ao colo. "Estava a fechar uma mala de viagem e estava com pressa porque ia sair em precária. Mesmo assim deu tempo para lhe explicar o projeto e a Ana aceitou posar com a menina junto à porta, que já estava aberta para ela ir gozar estes dias de liberdade."


Ou sonhar o que lá vem: "Quero ser pescador de rochas por ser mais seguro, como o meu avô. E se não for pescador, vou ser pedreiro, é o que houver para mim", disse André, de 18 anos, ao fotojornalista Rui Soares, que o encontrou numa biblioteca na Ribeira Grande, nos Açores, e o questionou sobre o futuro.


No continente, em Lisboa, João Porfírio perguntou a Telma, de 25 anos, se aceitava ser o seu ‘estranho’ daquele dia, depois de a ver com o namorado a fazer malabarismo usando fogo. "Este casal vive há um ano junto. Na rua. Diz que não gosta de trabalhar pelo simples facto de ficar preso a ordens de terceiros, como os patrões. "Mandam-me ir trabalhar, dizem que cheiro mal, chamam-me p***, mas eu não quero saber." Uma coisa apenas lhe ensombra os dias: a rejeição da família. Ao mesmo fotógrafo, Luís, de 73 anos, agradeceu o convite para ‘estranho do dia’, depois de partilhar as dores da viuvez recente: "A vida é como um puzzle e ainda bem que não fui a pé, fiquei à sua espera, à espera de falar. E o senhor foi a peça de hoje. Falar faz bem. Obrigado". Naquele dia houve alguém que não se sentiu um estranho.

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