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Eu e Hannah Montana no Rock in Rio

“(...) quando está em modo “união familiar” a minha mulher é mais eficaz a reunir gente do que a CGTP a convocar trabalhadores para descer a Avenida da Liberdade”
6 de Junho de 2010 às 00:00
Eu e Hannah Montana no Rock in Rio
Eu e Hannah Montana no Rock in Rio FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

No preciso momento em que o Rock in Rio inventou um "dia para a família" eu soube que, mais tarde ou mais cedo, seria caçado. Sendo que "caçado", no caso em apreço, é sinónimo de "voluntariamente compelido a acartar com as criancinhas para o Parque da Bela Vista e passar um dia do pior para celebrar um mundo melhor". Nestas coisas a minha mulher não perdoa. Mal vislumbra a possibilidade de proporcionar experiências novas aos filhos e festejar a coesão do agregado familiar no meio do povo, não hesita nem um segundo. "Vamos levá-los a ver a Miley Cyrus? Vamos? Vamos?"

Fomos. Mas não sozinhos, que quando está em modo "união familiar" a minha mulher é mais eficaz a reunir gente do que a CGTP a convocar trabalhadores para descer a Avenida da Liberdade. Incluímos no pacote mais cinco sobrinhos, compondo um daqueles quadros em escadinha – dos seis aos 13 anos – óptimos de fotografar mas que dificultam a logística da coisa: o pescoço fica feito num oito a tentar que eles não se percam e conjugar as suas vontades é o mesmo que esperar que Hugo Chávez se entenda com George W. Bush. Uns querem andar na montanha-russa, outros querem andar atrás das dezenas de ofertas que as marcas distribuem no recinto, e outros até querem – imagine-se – ouvir música.

O certo é que quatro horas depois de ter entrado no recinto dei por mim a ver a Miley Cyrus agarrado a cinco guitarras insufláveis do Millenium BCP e a uma cabeleira postiça rosa-choque. Dois miúdos pequenos aproximaram-se de mim e perguntaram-me se eu estava a vender guitarras, e ainda fiquei tentado a abater alguma coisa aos 58 euros que larguei por cada bilhete. Mas depois olhei para as guitarras e senti por elas aquilo que o caçador deve sentir pela cabeça do leão após um safari: os troféus não têm preço.

Afinal, o que é que uma família leva do Rock in Rio, para além de dores de pernas e 30 gramas de pó em cada pavilhão auricular? O que leva é aquela passagem do "eu vou" para o "eu fui". As guitarras vermelhas perdem ar todos os dias, mas são a prova palpável da primeira incursão dos Mendonças e dos Tavares no Rock in Rio. E, a bem dizer, são igualmente a prova da minha própria idiotice: não será por acaso que numa família com meia dúzia de cunhados eu tenha sido o único palerma que acabei na Bela Vista a abanar o rabo ao som de Hannah Montana. 

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