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"Eu fiquei quando ia voltar pelo Natal"

Triste. Estava para apanhar o avião a tempo de passar a quadra com a família, quando fui obrigado por um capitão a passar mais 15 dias no mato.
16 de Agosto de 2009 às 00:00
'Eu fiquei quando ia voltar pelo Natal'
'Eu fiquei quando ia voltar pelo Natal' FOTO: d.r.

Aminha guerra começou quando assentei praça na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, para tirar o Curso de Sargentos Milicianos, no dia 6 de Abril de 1970. Após a recruta fui para a Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, fazer a especialidade de atirador, a qual terminei em Setembro seguinte, no 5º lugar da classificação. Este resultado permitia-me alimentar a esperança de não ser mobilizado para a guerra. Mas acabei por partir e até vi o meu regresso ser atrasado, ao fim de quase dois anos, por causa de um capitão.

Fiquei na EPA até Dezembro de 1970 a dar instrução a um Curso de Atiradores e, no final desse mês, fui transferido para a minha unidade, o Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa (RAL1). Em Janeiro de 1971, eu e 13 cabos milicianos ‘não mobilizáveis’ fomos colocados em Torres Novas, com funções administrativas, para organizarmos a documentação dos batalhões e companhias que seguiam para o Ultramar. Apesar de ir para mais longe de casa fiquei bastante satisfeito, porque era mais uma indicação de que não seria mobilizado. Pura ilusão. Em meados de Fevereiro de 1971 fui destacado para a Guiné em rendição individual, afim de substituir um furriel miliciano na Companhia de Caçadores 11 (Africana).

Embarquei no navio Niassa a 31 de Março e cheguei a Bissau a 6 de Abril. O cenário não era nada animador, mas, felizmente, foi uma comissão de 21 meses sem grandes sobressaltos, embora logo à chegada a Nova Lamego (Gabu) – em trânsito para a minha companhia – tenha visto sete mortos, vítimas de uma emboscada a um pelotão da milícia africana. Mais tarde, quando seguia de Paunca para Paiama, integrado numa coluna auto de reabastecimento, pude perceber o perigo constante que corríamos: na noite anterior tinha chovido torrencialmente e uma mina anticarro ficou a descoberto, poupando-nos a dissabores.

Os últimos quatro meses de comissão foram os piores, em especial ao nível psicológico. Vi partir para a Metrópole, por terem terminado a comissão, todos os brancos que faziam parte da companhia, ficando apenas eu com os seus substitutos. Nessa altura, e porque o novo comandante de companhia (o capitão Toucas) quis aproveitar a minha experiência de 17 meses, deixei de efectuar operações e dediquei-me a coadjuvá-lo na organização da companhia. Foi uma tarefa muito difícil, porque a generalidade dos meus novos camaradas não tinha vocação para integrar uma unidade africana, apesar de terem feito um estágio com esse objectivo em Bolama.

Os militares brancos não tinham sensibilidade para lidar com os africanos, que se revoltaram com as atitudes de alguns oficiais portugueses. Nos casos mais graves chegaram a verificar-se ameaças de morte. Recordo-me de pelo menos duas situações em que fui obrigado a intervir, falando com os militares brancos e africanos para evitar consequências de grande gravidade. Mais tarde, já na Metrópole, tive conhecimento de que se verificaram problemas na companhia, precisamente pela falta de condições dos nossos militares para lidar com os africanos. Mesmo depois de terem sido os primeiros a fazer um curso de formação sobre a melhor forma de gerir estas relações.

A poucos dias do regresso a Portugal, 23 de Dezembro de 1972, passei por uma situação que me deixou bastante revoltado. Estava em Bissau, preparado para apanhar um avião a tempo de passar o Natal em família, quando fui abordado pelo meu capitão. Como só acabava a comissão em Janeiro, disse-me que ainda não podia abandonar a Guiné. Depois foi falar com o chefe do Estado-Maior e obrigou-me a voltar para o mato mais 15 dias. Na deslocação em coluna para a companhia, entre Paunca e Pirada, foram levantadas várias minas anticarro, o que me deixou ainda mais desvairado com a atitude do capitão, pois podia ter-me acontecido alguma fatalidade pelo caminho.

Regressei, finalmente, à Metrópole no dia 6 de Janeiro de 1973, num avião comercial. A ansiedade do regresso era tão grande que paguei a viagem para não ter que esperar por um transporte militar.

Passaram 37 anos. E gostava de rever alguns dos meus ex-camaradas com quem nunca mais tive a oportunidade de contactar, nomeadamente os ex-furriéis Teixeira, Freitas, Serafim, Abrantes, Barroso e Torres, o capitão Almeida, os ex-alferes Barbosa e Nelson Ribeiro e os ex-cabos Romeu, Tomás e Encarnação.

AGORA DEDICA-SE AOS SEGUROS

Zulmiro Vieira é natural e residente no Montijo. Completou o antigo Curso Comercial com 16 anos e empregou-se numa companhia de seguros de Lisboa, onde permaneceu até aos 44 anos. Em seguida, dedicou-se à mediação de seguros por conta própria, tendo constituído uma mediadora, em 1997, da qual ainda é sócio-gerente. Casou-se em 1974, um ano após regressar, e tem uma filha, com 27 anos. Nos tempos livres gosta de se dedicar à pesca no mar ou à caça. Aprecia também todo o tipo de publicações que estejam relacionadas com a Guerra no Ultramar. 

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